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Crítica | Cidade Invisível valoriza folclore brasileiro em série envolvente

Natalie Rosa
·4 minuto de leitura

O folclore brasileiro já foi tema no universo do entretenimento em nosso país, principalmente em obras infantis. Qualquer criança com acesso a livros e televisão teve contato com, ao menos, um dos personagens das lendas mais famosas da nossa cultura, como a Cuca e o Saci Pererê. O maior exemplo é a série de livros Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, a obra mais famosa com a temática, que já tem mais de 100 anos e que está presente na memória afetiva de muitos, seja pela literatura ou pela televisão.

Agora, chegou o momento do folclore brasileiro voltar às telas com duas abordagens diferentes: em uma produção moderna para o streaming e para o público adulto. Cidade Invisível é uma das principais estreias de fevereiro na Netflix. A série foi criada e dirigida pelo brasileiro radicado nos Estados Unidos, Carlos Saldanha (Rio, O Touro Ferdinando), e traz as lendas mais famosas do folclore para uma trama policial repleta de fantasia mesclada com a realidade. Distribuída em 190 países, a série também deve servir para apresentar aos assinantes da Netflix no mundo todo um pouco mais da nossa cultura.

<em>Imagem: Divulgação/Netflix</em>
Imagem: Divulgação/Netflix

Atenção: esta crítica contém spoilers de Cidade Invisível!

Protagonizada por Marco Pigossi, que interpreta o personagem Eric, Cidade Invisível já começa bem pela escalação de elenco. Ao lado de Marco vemos a atriz Alessandra Negrini, já muito bem instaurada em sua carreira, interpretando a Cuca. Jimmy London, ator que também é conhecido por fazer parte do mundo da música, interpreta Tutu, o clássico bicho-papão. Vemos ainda Fábio Lago, mais famoso por Tropa de Elite, interpretando o Curupira, entre muitos outros.

Cidade Invisível traz ao Rio de Janeiro um universo em que humanos convivem, sem saber, com entidades. O primeiro contato explícito desse encontro é quando Eric encontra um boto cor-de-rosa morto na areia da praia, o que é estranho por se tratar de um animal de água doce típico da região Norte do país, sobretudo da Amazônia. Ele presencia, então, o cadáver deixar de ser um boto para se tornar um humano chamado Manaus (Victor Sparapane). Esse acontecimento é apenas o pontapé inicial para o desdobramento da história que começa com a morte da esposa de Eric, Gabriela (Julia Konrad), e termina com o envolvimento da filha do casal, a pequena Luna (Manuela Dieguez), que foi manipulada por uma entidade.

<em>Imagem: Divulgação/Netflix</em>
Imagem: Divulgação/Netflix

Ao desconfiar que existe algo estranho com a morte da jovem, o personagem, que é policial, se envolve em uma investigação perigosa até que, ao longo dos sete episódios, começa a entender a união entre os dois mundos. Cidade Invisível, então, transforma os personagens do folclore em pessoas comuns, disfarçadas. Conhecemos Iara, Curupira, Saci Pererê, Boto Cor-de-rosa, Tutu e Corpo-Seco, cada um respeitando suas lendas para justificar sua existência, com eles também mostrando seus poderes com a ajuda da pós-produção. Mesmo em versões modernizadas, assistir aos personagens nessas novas existências traz ao espectador uma sensação de familiaridade e nostalgia — principalmente por aqueles que consumiram essas obras na infância.

Como o folclore está relacionado às matas, a trama também aborda a questão da destruição das florestas e como isso prejudica não só a flora e a fauna, mas também toda uma comunidade. Na série, uma grande construtora pretende destruir uma dessas comunidades para seu próprio benefício financeiro, provocando a revolta dos moradores, e o caso também é relacionado ao incêndio que matou Gabriela, acreditando se tratar de algo criminoso. Além disso, a questão do desmatamento e da destruição das florestas é algo que vem sendo tratado na vida real, nos noticiários, há bastante tempo, sendo uma forma de integrar na trama a cultura à natureza.

<em>Imagem: Divulgação/Netflix</em>
Imagem: Divulgação/Netflix

Todo o roteiro da série consegue amarrar o espectador do começo ao fim, com episódios relativamente curtos e fáceis de assistir, não desperdiçando muitos minutos para desdobramentos desnecessários. Alguns diálogos podem ser menos empolgantes do que outros, como algumas das falas lentas da misteriosa Cuca, mas nada que atrapalhe a experiência. A produção acerta em trazer uma nova abordagem interessante para uma temática que faz parte do Brasil, valorizando não só a importância dessas lendas na cultura como também abrindo novos caminhos na produção nacional.

Cidade Invisível está disponível para maratonar em sete episódios na Netflix.

Fonte: Canaltech

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