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Crítica | Cidadão Kane é um jovem com quase 80 anos de idade

Sihan Felix

Existem filmes suficientes na história do cinema para que se façam dezenas e mais dezenas de listas de melhores de todos os tempos sem repetir um único. Por outro lado, há filmes históricos, aqueles que modificaram o curso da arte especialmente no que diz respeito à linguagem. É como se a forma de contar uma história fosse mudada ou ganhasse complexidade: elementos vão sendo adicionados, novas formas de pensar as imagens e o som ganham força... até que uma obra sintetiza tudo o mais próximo possível da perfeição. Nesse sentido, a direção de Orson Welles para Cidadão Kane é, provavelmente, o exemplo mais efetivo e, mesmo sendo de 1941, atual da relação quase hipnótica entre a realização e a experiência de assistir.

Pode ser interessante de se questionar a conexão entre uma contação de história anterior ao cinema e aquelas expostas nos filmes. Se na primeira existem fatos – fictícios ou não – falados de uma maneira a permitir que o ouvinte construa um mundo muito seu que sofre interferência direta do que é escutado, na segunda, porque o mundo está sonoramente e visualmente definido por outras pessoas, a relação mais complexa do espectador com a obra passa a ser por meio dos seus símbolos. Estes, por sua vez, podem ceder interpretações, questionamentos e fazer a obra se transformar inventivamente em algo muito além da história contada pelo roteiro.

Identidade

A relação com as partes do cinema pode, inclusive, potencializar certos fatores, como bem faz a montagem, por exemplo, de Sergei M. Eisenstein no final do filme A Greve (de 1925). Nele, já no fim, militares caçam uma multidão de trabalhadores. Como se não bastasse a crueldade da ação por si, a perseguição é intercalada por cenas reais de um abatedouro de animais. A esse ponto, não existe qualquer relação direta dessa inserção com a história contada, mas essa alternância entre as cenas pode sugerir exatamente uma manipulação de emoções e a criação de metáforas. É a montagem agindo para enriquecer simbolicamente a obra.

Por mais que Eisenstein seja lembrado especialmente por suas contribuições para a montagem, a relação mais forte possível entre espectador e filme, para ele, era estabelecida pelos planos, em como os elementos se davam dentro da decupagem pensada e como esta se estabelecia como uma unidade. Eisenstein dizia que cada uma das imagens expostas dentro dos planos é um ponto de vista sobre o todo do filme; cada plano, enfim, era uma contemplação do filme inteiro.

Welles, saído do rádio, parecia não enxergar o cinema como outra forma de contar histórias, mas como uma ferramenta artística através da qual a história em si não seria o foco principal. A ideia, então, era fazer com que a forma de contar se estabelecesse como um paralelo à contação. Os meios para atingir o resultado final dariam, então, uma identidade própria ao cinema frente às outras artes, como, por exemplo, a literatura.

Perspectiva e simbologia

Existe em Cidadão Kane um intenso jogo de perspectivas que vão além do roteiro (do próprio Welles – quase iniciante – e do experiente Herman J. Mankiewicz). A estrutura técnica do filme tem tanta voz quanto os diálogos. Muito se fala da profundidade de campo aqui, mas a verdade é que Welles não a criou: ele a aprimorou e a utilizou como parte intrínseca não somente da linguagem técnica, mas para o funcionamento completo da contação da história. O que é visto em último plano, muitas vezes tem tanto valor (ou mais) quanto aquilo que é mostrado em primeiríssimo.

A profundidade... (Imagem: RKO Pictures)

Nesse sentido, há uma liberdade para que o espectador possa escolher o objeto ou o foco de atenção ou, opostamente, uma intensa busca pela concentração completa. A liberdade do olhar, sem a centralização em determinados pontos, acaba por alimentar o filme com subjetividade e, no fim, constrói uma relação cada vez mais intensa. Em revisão, basta observar elementos diferentes dos já vistos para que Cidadão Kane ganhe complexidade e se façam mais e mais descobertas. A imagem, que geralmente se mostrava plana, pode ganhar um mundo interior, já desnudado e passível de ser acessado pelo olhar. Existe uma interpretação diferente se é observado, por exemplo, adultos em primeiro e segundo planos em detrimento de uma criança que brinca através de uma janela no último.

Em último plano, uma criança brincando. (Imagem: RKO Pictures)

Essa experiência de estar assistindo a algo que passa a ser pronto somente a partir do olhar de quem assiste acrescenta tanta subjetividade ao filme (e a todos os trabalhos de Welles) que cria uma espécie de ruptura. Os filmes de histórias prontas, com finais que dão a mesma conclusão para a totalidade do público, começavam a ser vistos como uma linguagem do passado ou, de maneira mais conservadora, como outra forma de se fazer cinema.

Essa subjetividade da linguagem, ainda, é exponenciada pelo poder de Welles em criar metáforas visuais por meio de ações. Em certo momento, por exemplo, Kane (interpretado pelo próprio diretor), assina uma carta ao jornal e, observando uma lâmpada, diz algo como: “Quero ser tão importante para o povo quanto é o gás para essa lâmpada”. Não interrompendo sua divagação metafórica, o personagem, imediatamente, interrompe o gás em uma busca visual da importância do elemento e, simbolicamente, de si. Mas, mesmo que aquela lâmpada perca o seu poder de iluminar naquele momento, toda a cena permanece igual. Não há qualquer mudança no contraste visual do plano; o que existe é a criação de um símbolo, que diz sobre a inexistência da importância daquele homem para as pessoas.

A inexistência da importância. (Imagem: RKO Pictures)

"Quanto mais velho fica, mais novo parece"

A verdade é que Cidadão Kane é um dos representantes (talvez o mais forte e influente) da passagem do cinema clássico para o cinema moderno. A evolução de uma arte – já bem definida como tal – é comum e não é algo particular do cinema. Evolução, por essa perspectiva, não precisa significar uma melhoria. Trata-se de um movimento, um passo em direção ao diferente sem esquecer o passado; é a consolidação de que o cinema pode pertencer a outras formas, outras ideias, outros conceitos. Demonstra, no final das contas, a força de uma arte ainda muito nova… uma força que, aos poucos, começa a desligar o cinema das outras artes e o fazer ser por si só, sem dependência. O caminho ainda existe. Para Peter Greenway, inclusive, o verdadeiro cinema nunca foi visto.

Mesmo assim, com o cinema tendo sido realizado ou não, um filme como esse em questão é um passo em direção ao alcance dessa meta controversa. A revolução causada pelo filme de Welles, especialmente quando, anos depois de seu lançamento oficial, foi redescoberto, é uma das maiores (se não for a maior) influência para o cinema que conhecemos hoje. A tecnologia vem dando ferramentas para as próximas revoluções internas e, vez ou outra, é utilizada realmente como meio de acrescentar à linguagem e não como efeito supérfluo.

De todo jeito, com quase 80 anos de existência, Cidadão Kane é um marco que, enquanto não existir outra subversão tão forte e efetiva quanto, continuará, citando indiretamente Pauline Kael – crítica de cinema que bateu de frente com o trabalho de Welles –, cada vez mais novo ao mesmo tempo em que fica, a cada ano, mais velho.

Ela não poderia estar mais certa.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

Fonte: Canaltech