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Crítica | A Caminho da Lua é uma libertação emocional

Sihan Felix
·4 minuto de leitura

A princípio, pode ser fácil confundir A Caminho da Lua (disponível na Netflix) com uma produção da Disney. Isso não se deve somente às cores, à condução de musical ou, de repente, à protagonista feminina. Talvez seja uma relação que vá além, com uma história que parte de uma relação familiar que, antes bem estruturada, quebra-se. Esta é a motivação de muitas das animações com o selo do Mickey Mouse, como, por exemplo, O Rei Leão (Roger Allers e Rob Minkoff, 1994).

Nesse sentido, é inconfundível o quanto uma animação pode ser efetiva não somente para o público infantil, mas para a absorção adulta também. Desse modo, enquanto as crianças se aproveitam do que lhes é direcionado em A Caminho da Lua — a profusão de cores; de personagens diferentes; e de músicas que surgem, vez ou outra, sem muita organicidade —, os subtextos mais duros chegam a quem já passou por essa fase tão ingênua e importante da vida.

<em>A profusão de cores. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
A profusão de cores. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Acontece que a direção do filme é de uma dupla veterana justamente da Disney (ou Disney/Pixar): Glen Keane trabalhou em diversas produções no departamento de animação da empresa desde a década de 1970 e John Kahrs (codiretor não-creditado) esteve no mesmo departamento de Vida de Inseto (de John Lasseter e Andrew Stanton, 1998) a Frozen: Uma Aventura Congelante (de Chris Buck e Jennifer Lee, 2013).

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

O que passou permanece

A Caminho da Lua segue uma espécie de cartilha para emocionar. Se o início se dá com a apresentação dos seus personagens, que não precisam fazer muito esforço para serem cativantes, tudo já é recheado do tema principal, que é o luto. Ou melhor: o trabalho é tão carinhoso que não se trata de como lidar com a morte — com o fim —, mas com a saudade, com a falta do outro e, em sua resolução, como manter a chama de tanto amor acesa para seguir em frente.

Keane e Kahrs, então, pensam um visual colorido do início ao fim; quando as cores não estão exatamente vivas, aliás, há sempre uma tonalidade aquecida — o que é visível na casa de Fei Fei. O ambiente nunca é hostil de fato, tudo é muito acolhedor. Não importam as adversidades enfrentadas pela protagonista, porque existe uma sensação de segurança, de que nada dará errado apesar das lembranças.

<em>A tonalidade aquecida. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
A tonalidade aquecida. (Imagem: Reprodução/Netflix)

E é forte a forma com a qual A Caminho da Lua deixa transparecer que a dor da saudade existe por meio das recordações felizes. Não se vê a morte (como no citado O Rei Leão), não se vê sofrimento — inclusive, a elipse de tempo que deixa subtendida o falecimento da mãe de Fei Fei é dos cortes mais bonitos de uma animação recente. O que se descortina é a felicidade do tempo que passou e que não voltará. Lidar com esse sentimento é uma das maneiras mais difíceis de conseguir olhar para frente.

Sem tamanho

O roteiro de Audrey Wells (do pouco conhecido e excelente O Ódio que Você Semeia — filme de 2018), além disso, toca em outros temas tão delicados quanto. Da busca por identidade e por um propósito para viver a questões de crença e fé, A Caminho da Lua acaba se tornando uma catarse emocional carregada pela pequena protagonista. Ali, sobre os ombros daquela menina, existe uma carga pesada sobre amadurecimento.

Tão profundo quanto é a Deusa da Lua, Chang’e. Talvez, perceber o quanto ela é fruto de sua própria dor seja uma das bases mais intensas da animação. E Fei Fei tem papel fundamental ao adentrar no escuro e, enfim, descolorido mundo de dor da Deusa. Ali, existe uma entrega empática necessária para a compreensão do que é, de fato, a depressão: não é uma desistência, não é fraqueza. É, ao contrário, por sempre ter sido forte demais (por mais clichê que seja essa definição breve).

<em>A entrega empática. (Imagem: Reprodução/Netlix)</em>
A entrega empática. (Imagem: Reprodução/Netlix)

Por essa perspectiva, Chang’e povoou a lua com suas lágrimas e, por fim, tornou-se uma diva pop do seu próprio sofrimento. Tudo, claro, hipnotizante e colorido de um jeito quase neon, fazendo com que os sentimentos mais tristes sejam iluminados de esperança. Essa estética-de-contraste é eficiente por manter o filme simultaneamente divertido e profundo — dependendo do que se quer ver — e faz com que até mesmo o seu trecho mais sem ritmo (o embate com os galináceos motociclistas-lunares) passe sem muitos problemas.

No final das contas, A Caminho da Lua é mais um acerto enorme do departamento de animações da Netflix depois de Klaus (de Sergio Pablos e Carlos Martínez López, 2019). Há espaço até para referências a clássicos do cinema e, uma delas, é das mais lindas: com a cena mais icônica de Viagem à Lua (de Georges Méliès, 1902) sendo recriada.

Contornando isso tudo, a cultura chinesa é, na prática, a mais verdadeira protagonista, com toda sua mitologia e riqueza entrelaçando uma história sobre o quanto a efusividade e a alegria que se externa pode ter nascido, lá no fundo, de uma tristeza sem tamanho.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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