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Crítica | Becky é diversão sanguinolenta empolgante e com consciência limpa

Laísa Trojaike

GORE! Não vou esconder meu apreço pessoal pelo gore, subgênero do terror em que as cenas de violência são bastante gráficas, com sangue para todo lado e mostrando o quanto os seres humanos são lindos por dentro, literalmente, em termos de órgãos e demais coisas que a nossa pele esconde. A violência nos filmes, no entanto, geralmente é um tema controverso. Os slashers, outro subgênero no qual um personagem faz várias vítimas ao longo da trama, costumam mostrar pessoas inocentes morrendo, o que é bastante complicado: sacia a sede de sangue de alguns espectadores, mas muitas vezes a partir de vítimas inocentes. É o caso, por exemplo, de Freddy Krueger, personagem que é um assassino de crianças (quase pedófilo) inclusive.

O mundo evolui e, com ele, a arte. Não acredito que esse tipo de cinema, por si só, seja ruim, mas é importante que roteiristas tenham uma preocupação com o que estão transmitindo. Becky é um gore excelente, perfeitamente justificado, e com potencial para uma série slasher (que provavelmente não vai existir). São muitos os pontos positivos do filme, que não só tem uma execução excelente, mas consegue uma façanha bastante rara: a satisfação com o filme deixa no espectador um desejo por mais... e sem peso na consciência.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Atenção aos detalhes

O início do filme apresenta os personagens, como é de costume. Becky na escola, os vilões na prisão. Direção e montagem, entretanto, fazem algo inimaginável: aproximam ao ponto de igualar a personagem-título e o líder dos vilões. Embora à princípio pareça não fazer sentido, o que o filme está querendo nos dizer é que aquela menina, aparentemente inofensiva, pode ser tão brutal quanto um grupo de neonazistas barra-pesada. Mas não só isso. As imagens (e os personagens) são conectadas por match cuts, cortes que passam de uma imagem para outra que seja bastante parecida, criando uma conexão entre espaços e/ou situações completamente diferentes.

Imagem: Quiver Distribution 

Becky é apresentada como uma pessoa profundamente machucada, que está passando por um difícil processo de luto. O ambiente ao seu redor e o figurino escolhido para a personagem revelam que ela vive em um ambiente comum e transpassam sua inocência. A calça e a jaqueta jeans lhe dão um sutil azul de calma e o óculos rosa, além de ajudar a construir uma estética coerente com a faixa etária da personagem, indica que, apesar da tristeza, ela ainda é capaz de enxergar o mundo com bons sentimentos.

Quando sua família é atacada pelos fugitivos, a paleta de cores começa a mudar sutilmente. A touca traz uma tonalidade de marrom-avermelhado que indica uma violência sutil enquanto, ao retirar a jaqueta jeans, a blusa listrada de preto e amarelo faz uma conexão lindíssima com as abelhas: seres pequenos, que podem ser facilmente mortos, mas que se tornam extremamente agressivos quando a colmeia é ameaçada, sendo capazes de derrotar inimigos muito maiores do que elas. Além disso, abelhas são animais bastante inteligentes.

Imagem: Quiver Distribution

Do outro lado, um grupo de supremacistas brancos composto por dois idiotas sem um papel muito grande a não ser morrer, um brutamontes com um código de ética próprio e a maior surpresa do filme: Kevin James, o líder sanguinário do grupo. Para além da caracterização que faz transparecer o seu extremismo, com suásticas e outros símbolos nazistas espalhados pelo corpo, James entrega uma atuação surpreendentemente consistente, o oposto do ator que conhecemos das comédias pastelão, comprovando que comediantes costumam ser excelentes atores dramáticos. Em um filme mais sério, não seria absurdo dizer que Kevin James poderia ser assustador.

Imagem: Quiver Distribution

Sangue

Os diretores Jonathan Milott e Cary Murnion, que estrearam com o ótimo Cooties: A Epidemia, fazem um trabalho incrível ao desenvolver Becky. A garota enlutada não se converte em baby John Wick de um momento para o outro. É dado tempo à personagem e closeups nos ajudam a ver os neurônios de Becky funcionando: a dúvida e o medo gradualmente dão lugar à raiva e à brutalidade.

Becky também não é forte ou superinteligente, e não faz nada que seja inverossímil demais, mas é justamente o caráter artesanal da violência que eleva o filme a um nível de gore digno de nota. O prazer que surge dessa violência encontra diversas justificativas na trama: o racismo dos neonazistas, o fato de serem criminosos condenados e fugitivos que atacam pessoas completamente inocentes, e, por fim, Becky é também um filme de vingança.

Imagem: Quiver Distribution

Becky é uma pérola que pode ser perdida com o tempo, assim como Cooties também é pouquíssimo conhecido, mas que vale o boca a boca, servindo para qualquer público que tiver estômago para encarar as imagens mais gráficas. Para quem só quer diversão, ele é uma escolha provavelmente certeira. Para os fãs de terror, é uma excelente releitura de gênero e entretenimento garantido.

Fonte: Canaltech