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Crítica | A Babá - Rainha da Morte: uma ode aos clichês que amamos

Laísa Trojaike
·5 minutos de leitura

O fã hard core de terror não é exatamente o fã do medo. Embora os filmes assustadores sejam tidos como os melhores do gênero pelo público em geral, que geralmente procura medo e sustos nos títulos que entram em cartaz, o terror é muito mais amplo do que isso. Tirar sarro de si mesmo também faz parte e A Babá - Rainha da Morte parece ter vindo com dois objetivos bastante claros: fazer homenagem aos clichês do gênero e empolgar as gerações mais novas com os filmes mais antigos.

Estilizado, gore, cômico, moderninho, além de repleto de referências e litros de sangue cenográfico. O perfeito ponto de encontro entre os fãs raiz e a nova geração de entusiastas que precisava só de um empurrãozinho para conhecer as raízes mais importantes do gênero (ou pelo menos do terror estadunidense). Infelizmente, os espectadores desavisados e sedentos por novidades podem ter A Babá - Rainha da Morte apenas como mais um filme previsível, óbvio, melodramático e, enfim, ruim.

Felizmente para o terror, seus fãs mais apaixonados não estão preocupados com qualidade técnica e o diretor McG faz questão de reproduzir também os defeitos técnicos, criando um trash proposital e justamente pela intenção de ser “ruim”, se torna bom, uma contrariedade compartilhada com o gênero de ação e raramente encontrada em gêneros tidos como mais sérios, como o drama.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

O poder da referência

Após dirigir diversos clipes de bandas como Korn, McG não teve muito sucesso à frente de filmes como As Panteras (2000), O Exterminador do Futuro: A Salvação (2009) e Guerra é Guerra! (2012), produções que até repercutiram, mas não marcaram muito. Com A Babá (2017), McG chamou a atenção por criar um terror que já fazia muitas referências ao revitalizar as fórmulas dos filmes de terror voltados para o público adolescente e repletos de subtextos sexuais que visavam assustar os jovens com personagens que matavam os mais promíscuos primeiro e deixavam sobreviver os virgens.

Imagem: Reprodução / Netflix
Imagem: Reprodução / Netflix

A Babá acabou focando em outras partes da fórmula, sobretudo nos estereótipos dos participantes do culto satânico, que correspondem aos dos populares do ensino médio estadunidense, também incansavelmente reproduzidos ao longo de décadas no cinema. A Babá - Rainha da Morte acertou no timing de retomar a história justo quando Cole (Judah Lewis) está, enfim, no ensino médio e se torna incapaz de notar os estereótipos do culto se reunindo ao seu redor com interesse de sacrificá-lo, considerando-os apenas como os típicos bullies que geralmente são.

Apesar de corroborar os preconceitos ligados à aparência dos personagens, ao final A Babá - Rainha da Morte acerta em cheio ao quebrar o estereótipo da mulher popular no formato Meninas Malvadas (2004), transformando Bee (Samara Weaving) em heroína ao invés de vilã e acabando com a sua substituta antes mesmo que ela se tornasse a próxima líder. Assim, o filme se insere também nas mudanças e prova não estar reforçando rótulos, mas dizendo que essa era acabou e tudo o que deve restar dela é a referência artística e não o seu conteúdo. Nesse sentido, o filme retoma também a discussão sobre sexualidade e Cole acaba sendo salvo justamente por não ser mais virgem, rediscutindo a liberdade sexual com a delicadeza da série Sex Education.

Imagem: Reprodução / Netflix
Imagem: Reprodução / Netflix

De bônus, ganhamos a possibilidade de amar a personagem de Weaving sem peso na consciência, até mesmo porque ela é um dos motivos de A Babá ser um filme tão cativante. Seu sacrifício é o reconhecimento do erro e uma indicação de que o próprio terror, através dos seus cineastas, também precisa rever seus conceitos e fazer referências com responsabilidade.

Terror educativo

A Babá - Rainha da Morte aposta na diversão de momentos gráficos feitos sem grandes pretensões. O espectador contemporâneo, acostumado com a violência (ou pelo menos inserido em um contexto de banalização da violência) já não se impressiona com mortes discretas. É preciso fazer algo realmente bizarro para criar um verdadeiro gore para o público contemporâneo. A solução encontrada por McG não só é ótima, como é também maravilhosamente executada ao potencializar o gore de filmes mais antigos pelo viés cômico.

A raiz mais forte é, claro, Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (1981, Sam Raimi), um importante terror que se torna cada vez mais cômico com o tempo, mas sem perder sua importância. Os efeitos práticos de baixíssimo orçamento se tornam referências essenciais para o terrir (terror-comédia) contemporâneos, que acabam gerando um efeito interessante: os espectadores de A Babá - Rainha da Morte que se interessarem pelas referências (explícitas e implícitas) do filme e buscarem por esses títulos estarão muito mais inclinados a ver os “defeitos” como cômicos ao invés de concluir que é simplesmente uma obra ruim.

Imagem: Reprodução / Netflix
Imagem: Reprodução / Netflix

Assim, McG não só faz um filme incrível e divertido para um público amplo, mas cria uma obra sumária para a nova geração de fãs de terror pouco afeiçoados ou interessados em profundas pesquisas. O que parece ser mais um filme besta, pode ter em si uma possibilidade pedagógica que usa o humor para gerar curiosidade. O último filme a conseguir esse efeito de criar novos fãs empolgados com a história do terror foi Pânico (1996). Claro que McG ainda tem uma longa estrada para ser comparado ao mestre Wes Craven, mas A Babá - Rainha da Morte foi capaz de mostrar a sua potência.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

Fonte: Canaltech

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