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Crítica | A Assistente e o cotidiano cinzento das produtoras de cinema

Laísa Trojaike
·5 minuto de leitura

Em 2019, tivemos a estreia de O Escândalo, atração do Amazon Prime Video em que vimos como três mulheres, jornalistas de status e funções diferentes, conseguiram expor casos de assédio que aconteciam dentro da emissora em que trabalhavam. Isso é o que acontece quando há alguém com poder suficiente envolvido. No caso de A Assistente, vemos o outro lado dessa mesma moeda, a do abuso, dos ambientes de trabalho tóxicos e de uma vida que vai se apagando apesar das vontades e dos sonhos, mas dessa vez sem poder algum para mudar o que está acontecendo.

A Assistente é desses filmes que não nos propõe um desenvolvimento rebuscado, com definidas e claras marcações de início, meio e fim, e alguma espécie de redenção ao final. Muito mais próximo de uma ideia de recorte da realidade, A Assistente exige também que o espectador esteja atento aos detalhes e que se surpreenda com sutilezas: a opressão sofrida pela assistente não chega em grandes e notáveis doses, mas sim bastante diluída, às vezes até mesmo disfarçada de ajuda.

Imagem: Reprodução/Bleecker Street Media
Imagem: Reprodução/Bleecker Street Media

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

O grande sonho

A diretora Kitty Green, apesar de estar lançando seu primeiro longa de ficção, chega com uma filmografia bastante interessante após ter realizado três documentários que abordam figuras femininas em contextos completamente diferentes. Em A Assistente, Green consegue relatar a enfadonha, tensa, cansativa e sem graça vida dos assistentes de cinema. Ainda que não seja exatamente real, o filme traz em si um certo realismo através da ficção, sobretudo para quem sabe que, de perto, essas empresas (e não apenas as do ramo do cinema) funcionam mais ou menos dessa forma.

Assim, A Assistente soa um pouco como uma mistura de Mad Man e Mr. Robot: hábitos retrógrados que se perpetuaram filmados de modo a garantir que o espectador também se sinta, em alguma medida, incomodado e isolado como a protagonista Jane (Julia Garner). Não precisamos trabalhar nos EUA, em uma produtora de cinema, para vermos que certos abusos são normais: as assistentes e secretárias brasileiras provavelmente se identificarão bastante com diversas das situações expostas por A Assistente, que também acaba funcionando como uma denúncia da sobrecarga desse trabalho.

Imagem: Reprodução/Bleecker Street Media
Imagem: Reprodução/Bleecker Street Media

Trabalhar em uma produtora, em Manhattan, certamente parece um sonho e esse é um dos conflitos mais tristes de Jane: o filme todo é sobre a rotina absurda a qual uma jovem trabalhadora é submetida, o que contrasta com a imagem externa que se tem do ofício (inclusive no contexto do inocente apoio familiar): os assistentes não são pessoas que estão ao lado dos profissionais estabilizados e reconhecidos para obter conhecimento e ter um certo direcionamento em seu desenvolvimento. Pelo contrário, os auxiliares tendem a ser tratados como empregados de seus superiores e seus conhecimentos específicos acabam se tornando apenas algo mais a ser explorado. O sonho de um expediente em Hollywood parece ter muito mais chances de ser um pesadelo.

Mulheres

O que Jane passa no cargo de assistente é intensificado pelo fato de ela ser uma mulher, fator agravante nesse ambiente de trabalho: somente ela é responsável pela limpeza e organização de algumas coisas, mesmo havendo uma equipe dedicada à limpeza; enquanto isso, os colegas, outros homens que parecem estar no mesmo patamar corporativo, se impõem como superiores e chegam a ditar inclusive o que ela deve dizer e afirmando sua submissão aos caprichos do chefe.

A impotência de Jane diante dos claros casos de abuso de poder e assédio, inclusive sexual, marcam muito A Assistente e um dos ápices é justamente o momento em que ela tenta levar adiante alguma forma de denúncia e acaba sendo claramente manipulada. Garner está excelente no papel justamente por conseguir entregar as nuances de pensamento da sua personagem apenas com pequenas mudanças em suas expressões faciais, o que é potencializado pelos planos mais fechados da direção.

Imagem: Reprodução/Bleecker Street Media
Imagem: Reprodução/Bleecker Street Media

É interessante como Green cria um ambiente bastante morto, com cores bastante secas e tons de cinza, o que mostra a indústria cinematográfica muito mais como apenas uma indústria e a afasta de ambientes mais criativos, como seria de se esperar de qualquer coisa que trabalhe com arte. Mesmo a citada série Mad Men, que também expõe os abusos machistas sofridos por suas funcionárias, mostrava personagens com gostos estéticos distintos, enquanto a direção de arte de A Assistente demonstra como a triste padronização e opressão dos funcionários de cinema é sufocadora.

A Assistente, enfim, é um corajoso filme sobre o beco sem saída em que vivem muitos profissionais: um trabalho que não apenas limita as possibilidades de vida, mas que ainda força as pessoas a serem coniventes e até mesmo criarem desculpas para viverem de forma mais confortável com atitudes que são obrigadas a ter. É trágico, inclusive, como outras mulheres da produtora espelham o futuro de Jane como uma pessoa cansada, estressada e cujas preocupações são bastante egocêntricas.

Herdeiro dos punhos erguidos do movimento Me Too, A Assistente revela o quanto a união e a conexão entre as profissionais do cinema é não apenas necessário como urgente para que enfim acabem práticas absurdas como o abuso sexual, moral e as nada inocentes “trocas de favores” que continuam sendo operadas entre as quatro paredes de muitas produtoras e outras empresas. Um filme interessantíssimo para os cinéfilos que acompanham os bastidores das produções, mas também um chamado para todos aqueles que se identificam com Jane.

Fonte: Canaltech

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