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Crítica | Allen Contra Farrow merece uma reflexão hipotética

Sihan Felix
·10 minuto de leitura

Escrever sobre filmes que transcendem em muito a obra em si é sempre um procedimento complicado. Pior, portanto, é quando se trata de um documentário, formato que é tido por boa parte do público como expositor da verdade. A questão inicial é que filmes não-ficcionais também contêm uma visão particular, mesmo aqueles que se propõem a esclarecer determinadas situações, como é o caso da minissérie do HBO GO, Allen Contra Farrow.

Os quatro episódios são uma desconstrução bem elaborada de um processo concluído mais de uma vez. Em resumo: Woody Allen, em 1992, admitiu que estava tendo um caso com Soon-Yi Previn, filha adotiva de sua parceira de longa data Mia Farrow. Na ocasião, ele tinha 57 anos e Soon-Yi, 21. Da relação com Farrow, havia dois filhos adotivos (Dylan e Moses) e um biológico (Ronan — Satchel na época).

Meses depois do término da relação com Allen, Farrow o acusou de molestar Dylan, que tinha sete anos de idade na época. Os médicos não encontraram evidências de abuso. Allen, então, foi investigado pelo Yale New Haven Hospital, que tem uma clínica especializada em abuso sexual. A conclusão relatou: "Nossa opinião é que Dylan não foi molestada sexualmente pelo Sr. Allen". No mesmo período, ele também foi investigado pelo Departamento de Serviços Sociais do Estado de Nova York. O desfecho: "Não foram encontradas evidências confiáveis de que a criança citada foi abusada ou maltratada".

<em>Mia Farrow, Woody Allen, Ronan e Dylan. (Imagem: Divulgação/HBO Documentary Films)</em>
Mia Farrow, Woody Allen, Ronan e Dylan. (Imagem: Divulgação/HBO Documentary Films)

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

Uma experiência duvidosa

Em Allen Contra Farrow, a direção de Amy Ziering e Kirby Dick se aproveita (sem conotação pejorativa) de um momento sociocultural no qual o público está predisposto à cultura do cancelamento. Ziering e Dick, nesse sentido, optam pelo caminho da empatia, ou seja: cada entrevistado é exposto como um ser humano a ser compreendido e respeitado. Então, por mais que não se concorde com o que dizem, há sempre uma dupla aura, que diz respeito à necessidade de estar do lado de quem se coloca como vítima e o sentimento de compaixão pela ligação emocional — empática — que é construída.

Há muitas ambiguidades no caso que a minissérie expõe e, provavelmente, vale muito mais a pena uma pesquisa sobre esse universo inteiro e a escuta de trechos audiobiográficos de Allen do que as conclusões de uma crítica como esta a ser escrita para pesar os fatores. Por outro lado, há pontos que necessitam de claridade que dizem respeito à obra em si e aos valores artísticos da obra e do acusado.

Um deles diz respeito a Dick. Isso porque o codiretor, após o lançamento de The Hunting Ground (de 2015), recebeu críticas pesadas pelo seu uso da linguagem documental para colocar direitos acima da precisão dos fatos, utilizando falsas evidências. O filme de 2015, que é produzido por Ziering, comenta sobre estupros em universidades dos EUA e o sistema institucional que acoberta os crimes e, consequentemente, deixa uma herança devastadora para estudantes e suas famílias.

Acontece que, por essa perspectiva, Allen v. Farrow (título original) segue um caminho muito semelhante, porque se apoia nos direitos, na humanidade dos seus personagens, para pôr, inconsequentemente, luz jornalística em um caso policial. Esse formato de construir dados a partir do coração não deixa de ser válido quando há uma consciência artística por trás, quando o trabalho não se vende como a única verdade possível — isto que é um desserviço à própria capacidade do espectador sem conhecimento sobre o caso de construir suas próprias conclusões.

De acordo com o respeitado jornal The Guardian (que completa 200 anos agora em 2021), Ziering e Dick receberam uma lista detalhada com as omissões da minissérie e, no lugar de responderem uma a uma, enviaram uma resposta curta, que segue na íntegra em tradução livre:

"Os cineastas por trás de Allen Contra Farrow examinaram meticulosamente dezenas de milhares de páginas de documentos, incluindo transcrições judiciais, relatórios policiais, depoimentos de testemunhas oculares e registros de assistência social à criança. Falamos com dezenas de pessoas envolvidas no caso que tiveram conhecimento de primeira mão dos eventos e cujos relatos puderam ser corroborados de forma independente. Allen Contra Farrow é uma apresentação completa e precisa dos fatos".

É interessante que, a partir da visão do próprio Dick — que já se disse um cineasta ativista —, há muito a se contestar. Se o jornalismo, normalmente, pressupõe uma imparcialidade na apuração dos fatos, o ativismo parte de conclusões prévias, predeterminadas, para a elaboração de uma obra. Não há mal algum no cinema ativista até o ponto em que uma produção de documentário — formato que já é naturalmente ligado ao jornalismo — diz ser "uma apresentação completa e precisa dos fatos" em resposta a um jornal sério que lhe envia todas as omissões cometidas. Isto, mais a consciência do momento sociocultural pelo qual passamos, pode transformar Allen Contra Farrow em uma experiência, ao mesmo tempo, pesada, forte, dolorosa e manipulativa, pobre, covarde.

Um peso indigesto

É verdade que Allen era um diretor especialmente prestigiado no início da década de 1990. Ele já havia realizado alguns filmes icônicos, outros tidos como obras-primas, e era constantemente indicado ao Oscar. Em um mundo ainda mais machista e patriarcal do que o atual, o diretor detinha muito poder. Assim sendo, a possibilidade de que seu poderio fosse determinante em situações criminais e judiciais não pode ser descartada. Existem casos — até mesmo aqui no Brasil — nos quais quem rege as decisões é o poder, seja este financeiro, político ou de promessas.

É interessante, aliás, como a discussão sobre separar o artista de sua obra acaba tendo um valor contraditório na carreira de Allen. Alguns dos seus filmes, no que diz respeito ao conteúdo e não à forma, giram em torno da normalização do amor romântico entre um homem e uma mulher bem mais nova. Manhattan (de 1979), por exemplo, talvez a maior de suas obras-primas, acompanha a vida de um roteirista de televisão divorciado (interpretado pelo próprio Allen) que namora uma adolescente e sabe que ela não é a mulher certa para ele.

Um artista dificilmente encontra inspiração fora de sua vida. Suas inspirações são sempre muito pessoais e, às vezes, transparecem com clareza em seus trabalhos. É óbvio, porém, que essa constatação não é jornalística. Trata-se de uma suposição corroborada no cinema por tantos e tantos cineastas. O último vencedor do Oscar de Melhor Direção, Bong Joon Ho, em seu discurso de agradecimento, citou Martin Scorsese e seu pensamento de que quanto mais pessoal, mais criativa é a obra.

Não dá para dizer que Allen não é criativo. São 55 trabalhos na carreira — sendo a maioria longas-metragens. Nenhum deles foi execrado por público nem crítica. Suas narrativas são sempre engenhosas e, por mais que recentemente ele tenha se repetido, há uma quase hipnose causada pelos seus roteiros recheados de diálogos dos melhores e por sua forma autoral tão consistente. Dito isso, as inspirações de Allen podem não ser o melhor dos seus legados. De repente, suas ideias são uma forma de discutir a própria conduta e de tentar guiar seu público em direção à compreensão daquilo que, intimamente, não é correto para ele, mas ele não consegue evitar.

Tudo isso é uma suposição. Não há como confirmar. Allen Contra Farrow, porém, não se admite como uma obra de hipóteses, mas é um universo de fatos, o que torna a produção bem problemática por serem constatações corroboradas por depoimentos humanos e empáticos sem dados científicos. De todo modo, trata-se de uma minissérie capaz de ser bastante condenatória, demonstrando o comportamento inadequado que Allen mantinha com a filha Dylan, recheado de acusações pesadas e indigestas.

<em>Dylan e Allen. (Imagem: Divulgação/HBO Documentary Films)</em>
Dylan e Allen. (Imagem: Divulgação/HBO Documentary Films)

A monotonia da falsa fragilidade

O primeiro episódio já é excepcionalmente punitivo, com as entrevistas assumindo um tom pessoal perturbador. Ziering e Dick são espertos o suficiente para utilizarem da semiótica nas entrevistas, posicionando os entrevistados sempre ao lado direito e, corretamente, expondo-os a um nível de soberania na tela — com exceção de Dylan, que é exposta à esquerda. Essa relação é reforçada por uma câmera que nunca está ao nível dos olhos de Farrow e dos demais, mas sempre um pouco abaixo, o que promove uma postura levemente imponente de quem depõe e, imageticamente, ajuda a corroborar o que é dito.

<em>Mia Farrow em <strong>Allen Contra Farrow</strong>. (Imagem: Divulgação/HBO Documentary Films)</em>
Mia Farrow em Allen Contra Farrow. (Imagem: Divulgação/HBO Documentary Films)
<em>Dylan Farrow na minissérie. (Imagem: Divulgação/HBO Documentary Films)</em>
Dylan Farrow na minissérie. (Imagem: Divulgação/HBO Documentary Films)

Na sequência, o que os diretores fazem é atingir a cultura que acredita no lado de Allen. Com a não participação dele e de Soon-Yi após serem convidados — e há razões para a recusa —, Allen Contra Farrow apropria-se de conversas telefônicas que são, minimamente quando pouco, destruidoras. Nestas, Allen assume uma postura bastante segura, que pode ser vista como um desprezo à capacidade de Farrow de vencê-lo. Em uma delas, exposta no trailer, Farrow diz: "Você me denunciou como uma mãe incapaz.". Ele, então, responde: "E vai funcionar.".

A segurança de Allen pode estar enraizada na verdade, por ele ter convicção de que ela (a verdade) prevaleceria, mas também pode estar tomada pela consciência de um homem que não era (e é) visto somente como um gênio, mas como uma representação cultural. O maior impacto de Allen Contra Farrow vem do acúmulo dos quatro episódios e de como eles mexem com a atualidade enquanto se utiliza de padrões de manipulação — tanto imagéticos quanto de conteúdo.

Nesse encadeamento, há pontos conectados que expõem o narcisismo de um homem que, a partir de sua carreira, ensinou o mundo a vê-lo como alguém um tanto quanto pequeno. O poder mais visível e ostentado de outras figuras do meio nunca teve muita ligação com Allen. Sua aparente fragilidade, dessa forma, também é exposta de maneira perturbadora, com a monotonia de suas palavras faladas soando como ameaças vingativas.

Hipoteticamente...

A minissérie, no final das contas, pesa tudo muito mais para o lado de Farrow. Mas não tinha exatamente como ser diferente. Seja pela própria carreira de cineasta ativista de Dick; seja pelo momento, que aproveita a cultura do cancelamento; seja pela necessidade de trazer à tona o caso para que muitas outras famílias com histórico de abuso encontrem coragem para a denúncia; tudo em Allen Contra Farrow, mesmo que possa ser tido como manipulativo e o que quer que seja, é exatamente como prometia ser.

O maior mérito da empatia de Ziering e Dick é revelar tudo como a história de uma família traumatizada e não como um escândalo hollywoodiano. É possível que muitos que permaneciam sem conclusão a respeito se voltem contra Allen; outros podem reforçar a defesa a favor de Farrow; uma parcela penderá para a revolta, absorvendo a obra em si como o verdadeiro crime. Ainda assim, deve ser difícil compreender — mesmo para quem é adepto de todas as formas de amor — a relação amorosa de alguém com a enteada.

Apaixonar-se é humano, mas é humano — além de necessário —, também, alimentar filtros na vida. Um deles deve dizer respeito a não conceber relações românticas com a filha de sua companheira. Por mais que Soon-Yi tenha conhecido Allen quando tinha 16 anos e o relacionamento sexual entre os dois só tenha ocorrido após ela completar 21 anos — de acordo com outra investigação judicial —, é, no mínimo, desumano um homem poderoso, culturalmente aclamado e 35 anos mais velho (o que não viria ao caso se ele não fosse, na prática, como um segundo pai adotivo dela) normalizar essa união.

<em>Farrow com os filhos. Soon-Yi em pé à sua esquerda. (Imagem: Divulgação/HBO Documentary Films)</em>
Farrow com os filhos. Soon-Yi em pé à sua esquerda. (Imagem: Divulgação/HBO Documentary Films)

De todo jeito, independentemente da tese que se tem antes, durante ou depois de assistir Allen Contra Farrow, ela (Farrow) pode deixar bem claro o que é a minissérie ao dizer que "Não importa o que é verdade. O que importa é no que se acredita". É, de fato, uma obra que traz aquilo que ela acredita. Resta, ao espectador, tirar suas conclusões, superficiais ou não. Melhor ainda: saber o que fazer com tais conclusões é fundamental.

Para Allen, pode ser um "trabalho de demolição crivado de falsidades", como declarou. Mas, ao menos hipoteticamente, seria bom saber o que ele diria e faria se sua companheira poderosa e com comportamento supostamente estranho sobre uma criança de sete anos de idade assumisse uma relação com seu filho adotivo 35 anos mais novo.

Allen Contra Farrow está disponível no catálogo da HBO.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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