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Crítica 007: Sem Tempo para Morrer | O adeus necessário ao velho James Bond

·10 minuto de leitura

Poucas coisas são tão anacrônicas no cinema quanto 007. Desde que foi criada, a franquia sempre ostentou essa imagem idealizada do que é ser o homem: alguém que é letal sem perder a classe e que está sempre cercado de belas mulheres, bebidas requintadas e grandes carros — e que, acima de tudo, não se abala diante de nada. James Bond sempre foi a personificação desse ideário e nem mesmo a renovação da série, com a entrada de Daniel Craig, em 2006, mudou isso. Ela seguiu carregando, com certo orgulho, todo esse imaginário — por mais deslocado de seu tempo tudo isso soasse. O mundo e o cinema evoluíram, mas Bond seguiu preso a 1950.

E o novo 007: Sem Tempo para Morrer chega aos cinemas (depois de muitos adiamentos) justamente para mostrar que é possível explorar todos os símbolos que o personagem evoca ao mesmo tempo que se vê livre dos velhos clichês que acompanham o agente há mais de sete décadas. Não coincidentemente, essa renovação chega no momento em que Craig se despede do papel depois de 15 anos como Bond.

Assim, mais do que apenas um adeus, Sem Tempo para Morrer é um filme de renovação. Ele entende que o velho James Bond não se encaixa mais no mundo moderno e que é preciso mudar para poder seguir em frente — do mesmo modo que a franquia também precisa abrir mão da fórmula clássica para sobreviver aos novos tempos. E, tal qual seu protagonista, ela faz os ajustes necessários para não se tornar obsoleta.

Encarando os novos tempos

Essa ideia de deslocamento é algo que está presente em todo o filme. Dentro da trama, a gente acompanha um James Bond que se aposentou do MI6 e que curte uma lua de mel sem fim ao lado de Madelleine Swann (Léa Seydoux) após os eventos de 007 Contra Spectre. Só que ele se vê obrigado a voltar a ação após ser confrontado pelo passado de ambos que agora ameaça não apenas o casal, mas o destino do próprio mundo.

James Bond é parte de um mundo que não existe mais — e a trma do novo filme deixa isso bem claro (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)
James Bond é parte de um mundo que não existe mais — e a trma do novo filme deixa isso bem claro (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)

E nesses mais de cinco anos em que Bond passou longe da espionagem, o mundo mudou e não há mais espaço para alguém como ele — tanto que o próprio título de 007 foi passado para alguém mais novo e eficiente. Como os próprios personagens apresentam, o herói pertence a um mundo que não existe mais e que não se encaixa no modo como as coisas são executadas e ele precisa encarar essa nova realidade.

Essa ideia é também explorada dentro do roteiro quase que de forma metalinguística. Bond é tão deslocado de seu tempo quanto as situações em que ele era colocado nos filmes — e Sem Tempo para Morrer faz questão de destacar e rir de tudo isso. Não há mais espaço para o herói que seduz apenas para mostrar o quanto ele é atraente e os próprios personagens deixam claro o quanto isso é ridículo hoje em dia. Da mesma forma, o enredo mostra que essa visão do homem sem sentimentos é irreal e que todas as nossas ações geram cicatrizes e marcas em nossas histórias — e que, uma hora, tudo isso se abre, por mais durão que você queira parecer ser.

Diante disso, o grande mérito do novo 007 é justamente permitir ter um roteiro que se preocupe com seus personagens. Os filmes anteriores — inclusive na era Craig — sempre se apoiaram muito nesse verniz de clássico para repetir uma fórmula que valorizava muito mais a ação e os clichês da franquia do que um desenvolvimento de trama.

Ana de Armas aparece muito pouco, mas pontua bem o quão ridícula é a ideia de uma Bond Girl (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)
Ana de Armas aparece muito pouco, mas pontua bem o quão ridícula é a ideia de uma Bond Girl (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)

Não por acaso, filmes como Quantum of Solace e o próprio Skyfall parecem muito mais um Velozes e Furiosos de black-tie do que realmente uma história de espionagem centrada em alguém tão icônico e com tanta bagagem quanto James Bond. Tudo é muito intenso e acelerado, com explosão atrás de explosão e cenas de tiroteio e perseguição intermináveis, mas que pouco aprofundavam seus personagens e suas relações.

E o que Sem Tempo para Morrer faz é criar pequenos momentos de respiro. São eles que permitem que a gente absorva a trama ao mesmo tempo em que os personagens são mais bem desenvolvidos. É aí que vemos o quanto a fórmula da série se tornou tão anacrônica quanto o seu protagonista. Ao mudar a estrutura da franquia e não se apegar a seus clichês — ou aquilo que a torna clássica, se preferir — é que podemos perceber o quanto a série se beneficia desse aprofundamento.

Ao pisar no freio para criar esses pequenos momentos de calmaria, o filme abre espaço para explorar as várias camadas do personagem. Até então, Bond era representado como esse cara durão que não se permite sentir as coisas e que simplesmente não cria vínculos. Todas as suas mágoas e dores são jogadas para baixo do tapete de uma nova missão. E, ao diminuir o ritmo, a gente começa a ver um pouco das consequências desse tipo de comportamento, com o herói tendo que lidar ainda com cicatrizes muito antigas.

Mudança de foco permite Sem Tempo para Morrer desenvolver melhor seus personagens (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)
Mudança de foco permite Sem Tempo para Morrer desenvolver melhor seus personagens (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)

Isso é muito bem costurado com a própria saga de Craig dentro da franquia e sua despedida. Não por acaso, a trama começa com ele tentando fazer as pazes com o que aconteceu lá em Cassino Royale e, a partir disso, desenvolve um arco muito interessante para seu protagonista — e que, ao mesmo tempo, permite que a gente sinta tudo isso com ele.

Sem Tempo para Morrer consegue entregar esse Bond muito mais reflexivo sem abrir mão da ação, o que é ótimo. O filme segue a velha cartilha de sempre, mas adiciona novos elementos que enriquecem seu personagem e explora camadas e facetas que foram ignoradas até aqui. Ao parar por alguns minutos, a história nos deixa sentir o cansaço do protagonista com aquela vida e com todas as perdas, de experimentar a esperança de um novo recomeço e as dores de ver tudo isso ser tirado pelo vilão. Às vezes, as coisas não se resumem apenas a adrenalina.

Mais do que gadgets

Esse roteiro que pensa mais em seus personagens não beneficia apenas James Bond, mas também seu elenco de apoio. Personagens como M e Q ganham muito mais destaque, assim como a nova 007, vivida pela excelente Lashana Lynch. Todos eles brilham com diálogos excelentes que destacam a necessidade do protagonista e da própria série evoluírem.

A nova 007 de Lashana Lynch é facilmente a melhor coisa de Sem Tempo para Morrer (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)
A nova 007 de Lashana Lynch é facilmente a melhor coisa de Sem Tempo para Morrer (Imagem: Divulgação/Universal Pictures)

Esse é um toque muito bem-vindo trazido por Phoebe Waller-Bridge (Fleabag), que assina como roteirista. Por mais que ela não apareça em tela, sua presença é sentida nesse dinamismo das interações e no humor que nunca esteve presente na franquia, mas que funciona muito bem quando aparece por aqui. Não é nada escrachado, como nos filmes da Marvel, mas algo bem pontual e muito bem dosado e que traz uma leveza que torna tudo muito mais interessante. É muito mais uma capacidade de rir de si mesmo, mas sem perder o foco na densidade das emoções de seus personagens.

Prova disso é que os aliados de Bond brilham muito em 007: Sem Tempo para Morrer, ainda que nunca sejam o centro da ação. É uma ou outra linha de diálogo que dá um contexto muito maior sobre quem eles são e o que pensam e que os deixam muito mais atraentes. Assim, eles ganham personalidades próprias e deixam de ser apenas um gadget que Bond saca quando precisa de ajuda.

E é nesse contexto que a entrada de Nomi (Lynch) é a melhor coisa do filme. Ela representa bem essa nova era a que Bond não pertence, sendo mais eficiente do que seu antecessor e com um charme próprio e completamente diferente, baseado muito mais no carisma do que nessa ideia de sedução e masculinidade que sempre vimos. Com alguns poucos diálogos, ela entrega ótimos momentos e ainda segura muito bem as pontas nas cenas de ação — o que prova que será um enorme desperdício caso a franquia não a traga de volta no futuro.

Sem tempo, irmão

Ao mesmo tempo em que dá tempo para explorar todas as camadas de Bond e seus aliados, 007: Sem Tempo para Morrer traz um vilão bastante esquecível. Lyutsifer Safin (Rami Malek) é apresentado como alguém muito perigoso cuja história está diretamente ligada ao passado de Madeleine. Só que, no fim das contas, nada disso é realmente importa e tampouco é interessante.

Parte desse problema está no enredo. Como esse é um filme muito mais sobre a despedida de Bond desse velho mundo que já não existe mais, sobra pouco tempo para explorar melhor o terrorista que quer espalhar uma arma biológica capaz de matar pessoas com base em seus DNA. Só que Malek também não ajuda e entrega uma interpretação pouco inspirada e beirando o caricato.

O vilão poderia ser uma dor de dente e, ainda assim, seria mais interessante que a versão de Rami Malek (Imagem: Divulgação / Universal Pictures)
O vilão poderia ser uma dor de dente e, ainda assim, seria mais interessante que a versão de Rami Malek (Imagem: Divulgação / Universal Pictures)

Assim, o plano de Safin é muito mais interessante do que o vilão em si. Isso faz com que Malek fique a todo momento em segundo plano na história e, quando é colocado em evidência, a gente se lembra do quanto ele é irrelevante para a trama geral e não vê a hora de os holofotes serem direcionados aos núcleos realmente interessantes do longa.

Tanto que toda a ameaça do personagem a Madeleine e o confronto final com Bond são bem qualquer coisa, já que você não se importa em momento algum com ele. Mais uma vez, parece um recado do roteiro de que não existe mais espaço para um grande e caricato vilão assim, já que a ameaça que ele constrói rapidamente se torna muito maior do que a pessoa em si.

O fim de um ciclo que acena para o novo

Mesmo com esse vilão bastante qualquer nota, 007: Sem Tempo para Morrer é um excelente fechamento para a história deste James Bond. Ao longo desses 15 anos, Craig se tornou o ator que há mais tempo encarnou o espião e é muito bem ver como o filme entrega um grande encerramento para o seu arco e, de quebra, conseguiu costurar muito bem as histórias anteriores, dando mais profundidade e propósito a acontecimentos e personagens apresentados anteriormente. O novo longa é tão bom que consegue melhorar alguns deslizes de seus antecessores.

Deixem o velho 007 se aposentar (Imagem: Divulgação / Universal Pictures)
Deixem o velho 007 se aposentar (Imagem: Divulgação / Universal Pictures)

Mais do que isso, ele também é um belo aceno para uma bem-vinda (e bastante necessária) atualização da franquia. Por mais que a série sempre tenha ostentado com orgulho o caráter clássico de sua estrutura, esses elementos passaram a servir muito mais de muleta do que como algo realmente fundamental à história. Tanto que bastou se desvencilhar de alguns desses clichês para termos um grande salto de qualidade. Esse Bond que se despede é muito mais interessante do aquele que vimos ser construído até aqui.

Assim, mais do que o fechamento do ciclo de Craig à frente do papel, que 007: Sem Tempo para Morrer seja o início desses novos tempos a que o seu próprio roteiro tanto faz alusão. Realmente não há mais espaço no mundo para aquele James Bond que vimos nos últimos 60 anos e tanto o personagem quanto a franquia como um todo precisam se atualizar para encarar essa nova realidade. E o novo filme deixa bem claro que isso é possível — basta apenas querer se abrir aos novos tempos e deixar o velho Bond onde ele quer ficar: no passado.

007: Sem Tempo para Morrer está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil; garanta seu ingresso na Ingresso.com.

Fonte: Canaltech

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