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Covid explode no Paraguai e sistema de saúde entra em colapso

·6 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com o pai e a mãe precisando ser internados por um agravamento da Covid-19, Wilson Campusano e sua irmã conseguiram, com muito custo, uma vaga para o casal em um hospital do convênio. Mas todo o resto teve que vir da renda da família: a maca em que eles estão deitados, medicamentos, álcool para desinfetar as mãos, máscaras, refeições e até um aparelho usado com o cilindro de oxigênio para ajudá-los a respirar.

Quem instalou esse dispositivo, aliás, foi uma amiga da família, que é dentista, com a ajuda de um vídeo enviado por outra amiga, médica. Um dos médicos do hospital aproveitou para ver também a gravação, já que ele precisava instalar em outro paciente e não sabia como fazê-lo.

Juan e Nilda, pais de Wilson, moram em Encarnación, no sul do Paraguai. O autônomo de 37 anos vive em São Paulo, mas teve que ir para sua terra natal às pressas depois que os dois adoeceram. “O brasileiro se queixa da medicina no Brasil, mas aqui é bem pior”, afirma.

Assim como outros familiares de doentes, ele e a irmã fazem as vezes de enfermeiros, já que não há profissionais suficientes para atender à demanda. “Tem que correr para avisar quando o oxigênio acaba, quando precisam de algum medicamento”, diz. Em corredores lotados de pessoas contaminadas, se expõem a também contrair o patógeno, simplesmente porque não há alternativa.

Exemplo positivo na América do Sul nos primeiros meses da pandemia, por manter a doença sob controle com regras estritas de isolamento social e fechamento de fronteiras, o Paraguai agora vive seu pior momento da crise sanitária, com rápido aumento no número de casos e mortes, colapso hospitalar, UTIs com ocupação total e fila de pacientes aguardando por leitos.

Nas palavras do diretor de Vigilância Sanitária local, Guillermo Sequera, o país “samba no ritmo do Brasil”. Um dos fatores que agravaram a crise veio justamente daqui: em meados de março, a variante P.1, identificada em Manaus, já era responsável por mais de 50% dos casos detectados no Paraguai, segundo um estudo.

Nos primeiros meses deste ano, o total de mortes por Covid-19, que supera 5.000, é mais do que o dobro das 2.262 mortes de todo o ano passado.

Os números absolutos podem parecer baixos, mas proporcionalmente à população, de 7 milhões de pessoas, são preocupantes. O país tem, por exemplo, o segundo maior índice mundial de mortes diárias por milhão de habitantes: 11,22, perdendo apenas para o Uruguai.

A média estava em 80 por dia em 12 de maio —na mesma data do ano passado, era zero, e não passou de 23 ao longo de todo 2020.

“Tínhamos a pandemia controlada porque nos mantivemos encerrados por sete meses: as atividades não essenciais fecharam, as escolas foram suspensas, diminuiu muito a interação entre as pessoas. Nesta quarentena estrita, aproveitamos para melhorar o sistema de saúde”, diz Elena Candia, presidente da Sociedade Paraguaia de Infectologia.

Aos poucos, e pressionado pela crise econômica, o governo relaxou as restrições até suspendê-las, em outubro. “Mas aí a população entendeu que acabou também a pandemia. Abandonaram as medidas de proteção, foram promovidos encontros de mais de cem pessoas em lugares fechados, atividades não essenciais foram retomadas”, diz Candia.

Segundo ela, em janeiro e fevereiro, mais de 10 mil paraguaios passaram férias no Brasil. Acredita-se que desta forma a variante P.1 entrou e se espalhou pelo país. Na Semana Santa, vários moradores da capital visitaram familiares no interior, levando o vírus para cidades que antes tinham poucos casos —e que têm carência de médicos e hospitais. “E chegamos ao dia de hoje, com o sistema de saúde totalmente em colapso.”

No dia da entrevista, quinta-feira (13), Candia informou que havia 150 pacientes esperando por um leito de UTI. Muita gente já morre em casa, sem atendimento. Ainda que o número de leitos de terapia intensiva tenha duplicado desde o início da pandemia (de 300 para 630), é pouco para dar conta da alta demanda.

Mesmo que mais leitos fossem abertos, não há profissionais suficientes para prestar atendimento. São apenas cem médicos intensivistas no país, a maioria concentrados em Assunção. Muitos leitos do interior são manejados por médicos que não têm experiência com esse tipo de paciente.

Após a entrada da variante P1 no país, o perfil dos pacientes críticos mudou. Agora, quase 70% dos que ingressam na UTI têm menos de 60 anos.

“Seguimos o padrão do Brasil. As curvas são similares, o número de casos e mortos proporcionalmente à população também. E não podemos esquecer que temos fronteiras terrestres abertas, o que dificulta ainda mais o controle”, diz Candia.

As fronteiras com Brasil e Argentina ficaram fechadas por sete meses no ano passado e reabriram em outubro.

Segundo a médica, atualmente o Paraguai não tem um plano de controle da pandemia. Em março, a situação levou a população às ruas para protestar contra o presidente Mario Abdo Benítez e sua condução da crise. O governo chegou a tentar uma quarentena de oito dias durante a Semana Santa, mas não teve efeito no controle da transmissão, afirma a infectologista. A expectativa é que, com os encontros familiares no Dia das Mães local neste sábado (15), a situação piore.

A vacinação, que poderia aliviar a crise sanitária, tem ocorrido em um ritmo muito lento. Até agora, menos de 1% da população tomou as duas doses.

O país comprou ou recebeu como doação imunizantes de vários laboratórios, incluindo doses da vacina russa Sputnik V, da indiana Covaxin e as produzidas pela chinesa Sinopharm e pela britânica AstraZeneca. Mas são pouquíssimas as doses que têm chegado.

Aliado de Jair Bolsonaro, Abdo Benítez reclamou em março da demora no envio das vacinas pelo consórcio Covax —iniciativa global promovida pela OMS para facilitar o acesso a imunizantes— e pediu ajuda aos países da região.

O chanceler paraguaio, Euclides Acevedo, chegou a vir ao Brasil para pedir auxílio ao governo. “Temos dinheiro, mas não sabemos onde comprar as vacinas. Parece que elas se escondem de nós”, disse Acevedo na ocasião.

Nesse contexto, o apoio de Abdo Benítez a Taiwan, vista pela China como uma província rebelde, chegou a ser questionado, por abalar as relações diplomáticas com Pequim. Taiwan acusou o governo chinês de chantagear seu aliado sul-americano com o oferecimento de vacinas em troca do rompimento dessas relações diplomáticas e, em 22 de abril, doou US$ 16,5 milhões a Abdo Benítez para financiar a compra de doses da Covaxin.

Enquanto isso, sem acesso a um auxílio financeiro suficiente que lhes permita ficar em casa e sem vacinas para protegê-los, os paraguaios ficam expostos à doença. Segundo a previsão do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde (IHME, na sigla em inglês) da Universidade de Washington, se nada for feito, o número de mortes diárias deve dobrar até o fim de maio e chegar a 200 por dia em 12 de junho.

“Estamos verdadeiramente esgotados porque não vemos solução em curto prazo. Vemos pacientes com muitas necessidades e nos encontramos de mãos atadas porque muitas vezes não podemos ajudar. É muito estressante”, diz Elena Candia.

Em Encarnación, Juan e Nilda, pais de Wilson Campusano, lutam para sobreviver. Não há vaga de UTI, e as enfermarias também estão cheias. Alguns hospitais privados cobram o equivalente a R$ 18 mil apenas para internar o paciente, fora diárias de R$ 3.000. Mesmo assim estão lotados. “Só por milagre de Deus a gente conseguiu essa vaga”, diz ele.

Ele está aliviado porque a mãe conseguir ir para um quarto. Já seu pai ainda está no corredor. Perto deles, quem não tem recursos para comprar a própria maca precisa passar o dia e a noite em cadeiras que trazem de casa.

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