Mercado fechará em 24 mins

Covid-19 pode mudar organização das cidades, dizem especialistas

Lu Aiko Otta

Para Tijana Jankovic, do Google, quarentena é oportunidade para reavaliar políticas urbanas Além do lado trágico, pela da perda de vidas, e da retração econômica, a pandemia de covid-19 e o consequente isolamento social abriram espaço para repensar o funcionamento das cidades e o uso de novas tecnologias, disse nesta sexta-feira a especialista em geolocalização do Google para América Latina, Tijana Jankovic, durante o webinário “O Futuro das Cidades”, promovido pela Secretaria Especial de Competitividade, Emprego e Produtividade (Sepec), do Ministério da Economia.

“O bloqueio deu oportunidade às cidades de reavaliar suas políticas”, afirmou. Segundo ela, em cidades parceiras do Google que estão saindo do isolamento na Europa é possível observar fortes mudanças como, por exemplo, o reforço ao comércio local e o acesso da população, especialmente a mais carente, a serviços.

Jankovic citou como exemplo um trabalho de mapeamento da superfície da Terra que destina um código para cada espaço de três metros por três metros. Trata-se de um sistema alternativo de endereçamento.

Pixabay

A pandemia evidenciou que muitas pessoas, mesmo as que moram em grandes cidades, não conseguem ser encontradas pelos Correios e dificuldades mesmo para aplicativos acharem sua localização. Porém, num quadro de emergência, o poder público percebeu a necessidade de saber onde estão as pessoas.

O governo do Estado de São Paulo já havia contratado o serviço para mapear áreas ao longo de rodovias, relatou a especialista. A pandemia deu um impulso inesperado ao serviço, disse.

O Google também tem gerado relatórios de mobilidade para Estados e prefeituras, em que é possível saber onde há aglomeração de pessoas. Isso permite às autoridades ajustar as políticas de prevenção à doença. Há 20 anos, observou Jankovic, o índice de isolamento que vemos no noticiário não poderia ser calculado. Hoje, essas ferramentas podem ajudar no planejamento da reabertura gradual da economia.

Questionado sobre o que são as “cidades inteligentes”, que usam intensivamente a tecnologia, o pesquisador Fabio Duarte, do Massachusetts Institute of Techology (MIT), explicou que não se trata de algo totalmente diferente do que se vê no dia a dia.

Citou como exemplo um trabalho desenvolvido pelo MIT de mapeamento dos esgotos. É uma tecnologia nova, um robô, associado uma tecnologia antiga, o esgoto, que permite localizar o espalhamento de doenças antes de os casos chegarem aos hospitais. Nos Estados Unidos, essa tecnologia é responsável por detectar 10% dos casos de covid-19, ao passo que os testes identificam 1%.

A pandemia também promete mudar o uso dos espaços urbanos, notou o fundador do Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole (Urbem), Philip Yang. Duarte mencionou o caso de um cliente que tem um centro operacional com 1.300 funcionários na região central da capital paulista. Antes contrário ao home office, o executivo agora quer deixar 400 funcionários no local. Os demais trabalharão remotamente.

Esse é um ponto que merece cuidado, observou. O trabalho à distância pode contribuir para o espalhamento das cidades, quando o debate de ponta em políticas urbanas é o adensamento. A expansão das cidades, observou, gera fricção com a fronteira agrícola e áreas ambientais cuja preservação seria importante, como as nascentes de água.

Além disso, joga as famílias, principalmente as de menor renda, para longe do trabalho e dos serviços públicos. O ideal, disse, seria as pessoas poderem viver, estudar, trabalhar e se divertir num raio de caminhadas de 15 minutos.

Trazer empreendimentos imobiliários para mais perto do centro, onde há infraestrutura, é uma tendência perseguida pelo governo, disse o secretário Nacional de Habitação do Ministério do Desenvolvimento Regional, Alfredo dos Santos.

Ele explicou que a autorização para a construção de conjuntos habitacionais cabe às prefeituras. Mas o ministério tem dado incentivos. Empreendimentos que utilizam recursos federais têm mais chances de ser aprovados se forem mais completos em termos de infraestrutura.

Assim, disse, a tendência é que sejam construídas menos habitações, mas mais integradas. Grandes conjuntos de moradia popular que se viu no passado recente não são mais o centro da estratégia de combate ao déficit habitacional. Além de não ter infraestrutura e serviços públicos, acabavam gerando segregação. A política pública deve favorecer a qualificação do espaço onde as famílias já vivem, pois isso dá a elas maior senso de pertencimento, defendeu Santos.

Para as famílias de renda um pouco maior, o governo quer melhorar as condições de financiamento com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), disse o secretário. Ele comentou que 70% do programa do FGTS atende a famílias com renda de até três salários mínimos. “Se ampliamos o programa, damos mais possibilidade de escolha”, disse. “As pessoas podem comprar um imóvel mais perto do trabalho.”

Sem dar detalhes, o secretário disse que esse é um programa em desenvolvimento. “Esperamos ter êxito no mais breve espaço de tempo possível.”

A possibilidade de viver em áreas em que as cidades estão mais consolidadas traz impacto na vida dos filhos dessas famílias, comentou o secretário de Desenvolvimento da Infraestrutura do Ministério da Economia, Diogo MacCord, mediador do webinário. Com acesso a mais segurança e escolas de qualidade, aumentam as chances de um futuro melhor.

O uso da tecnologia demandará muito cuidado na definição de limites, notou o pesquisador do MIT. Questionado sobre a possibilidade de integração de todas elas, ele perguntou se isso interessa às pessoas.

Duarte disse que hoje é já possível, por exemplo, cruzar dados de saúde, como frequência cardíaca, com o uso de serviços bancários. Isso pode determinar com razoável precisão que o Philip Yang foi à padaria comprar uma paçoquinha, exemplificou, brincando. É, portanto, o caso de pensar se interessa ter os dados “conversando”.

No momento, disse Duarte, alguns países vivem em estado de exceção por causa da pandemia. “Permitimos que os governos façam coisas que em outras situações não fariam, como usar aplicativos para rastrear as pessoas”, disse. “Se o estado de exceção é normalizado, criamos um problema político e social grave.” É preciso determinar em que situações queremos que isso ocorra, alertou.

O webinário sobre o futuro das cidades foi o segundo de uma série promovida pelo governo federal, às sextas-feiras, a partir das 9h, para discutir temas de infraestrutura. Os próximos temas são: o futuro do setor elétrico, o futuro do saneamento básico, o futuro da aviação comercial e o futuro da logística de cargas.