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COVID-19: ligar o ar condicionado aumenta o risco de contágio?

Nathan Vieira
·4 minuto de leitura

Com o verão aí, uma questão que vem à mente é se o ar-condicionado pode influenciar na transmissão da COVID-19, já que para funcionar, é preciso fechar as janelas do recinto. E para responder isso, cientistas chineses já chegaram a fazer estudos de comparação. A informação a que se chega é que o verdadeiro vilão da história não é exatamente o ar-condicionado, mas sim o confinamento coletivo — ou seja, seu uso em ambientes fechados, em que há pouca ou nenhuma circulação de ar, aliado ao número de pessoas respirando próximas umas das outras.

Nesta pandemia, o aconselhado pelos especialistas é dar prioridade a aparelhos que convivam melhor com estas aberturas, como ventiladores e climatizadores; usar o ar-condicionado com frestas abertas; ou ainda ligar o ar-condicionado associado a ventiladores e janelas abertas.

No mês de julho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu "evidências emergentes" de transmissão pelo ar da COVID-19. Isso significa que são necessários mais cuidados em ambientes fechados. Na época, a especialista da OMS, Benedetta Allegranzi, afirmou que a transmissão aérea "é uma possibilidade entre os modos de transmissão" do novo coronavírus. No começo desta semana, em carta aberta à OMS, 239 cientistas de 32 países pediam o reconhecimento do “potencial significativo” de propagação pelo ar do vírus.

Especialistas apontam que o ar-condicionado em si não é o aliado da COVID-19, mas sim o confinamento coletivo (Imagem: Tumisu/Pixabay)
Especialistas apontam que o ar-condicionado em si não é o aliado da COVID-19, mas sim o confinamento coletivo (Imagem: Tumisu/Pixabay)

Logo no início do ano, pesquisadores do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) de Guangzhou publicaram no periódico científico Emerging Infectious Diseases um artigo sobre o restaurante chinês responsável por trazer à tona essa questão do ar-condicionado.

Eles rastrearam pessoas que almoçaram no dia 24 de janeiro em um restaurante de cinco andares, sem nenhuma janela, com exaustores e ar-condicionado central. Um cliente assintomático veio de Wuhan, a cidade chinesa em que o vírus começou a infectar humanos. Ele e sua família se sentaram em uma mesa ao lado de outras duas, com distância de cerca de um metro entre elas. As três mesas estavam na reta de um aparelho de ar condicionado. Ao longo dos dias seguintes, o cliente vindo de Wuhan e mais nove pessoas presentes nessas três mesas foram diagnosticadas com COVID-19.

Os autores não têm certeza de que a infecção tenha ocorrido por meio dos aerossóis, já que outros clientes e funcionários no mesmo ambiente não foram infectados, mas sugerem que os aerossóis estavam mais concentrados na área das mesas próximas. Em julho, um grupo de mais de 200 pesquisadores escreveu uma carta defendendo o reconhecimento do potencial transmissivo dos aerossóis.

Durante entrevista à BBC News Brasil, uma das autoras da carta, Lidia Morawska, professora da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, e consultora da OMS sobre qualidade do ar, afirmou que não ter ventilação significa a não retirada de partículas infectadas de ambientes internos. O ar pode ser condicionado — o que significa ser esfriado ou aquecido —, mas uma ventilação eficiente precisa ser garantida. No caso, as correntes de ar estavam passando pela pessoa infectada e carregaram o vírus para outras pessoas — e vale dizer que o mesmo acontece em aviões, por exemplo, onde a corrente de ar é unidirecional, bem como em outras situações. Para ela, a questão é a direção da corrente de ar, que pode ser induzida por diferentes fatores, como uma porta aberta.

O recomendado é dar prioridade a aparelhos que convivam melhor com estas aberturas, como ventiladores e climatizadores (Imagem: Ava Sol / Unsplash)
O recomendado é dar prioridade a aparelhos que convivam melhor com estas aberturas, como ventiladores e climatizadores (Imagem: Ava Sol / Unsplash)

Em meio a isso, o engenheiro mecânico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Erick Campos, escreveu um relatório voltado aos impactos da pandemia nos sistemas de ar condicionado na realidade brasileira, afirmando que uma nova adaptação para tempos de COVID-19 pode ser inviabilizada por custos, não só com a instalação mas também com o maior gasto de energia.

O relatório internacional The future of cooling, da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), publicado em 2018, levanta a perspectiva de que o país tenha mais e mais aparelhos de ar-condicionado com o passar dos anos. Em 2016, o Brasil tinha aproximadamente 27 milhões de aparelhos de ar-condicionado, incluídos aí residenciais e comerciais. A previsão é que, em 2050, o número chegue a 165 milhões de aparelhos.

Fonte: Canaltech

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