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Coronavírus: 'Se chegar ao Brasil, doença será teste para o SUS'

Chegada dos brasileiros repatriados de Wuhan. (Foto: Reuters/Adriano Machado)

Texto / Pedro Borges

A Organização Mundial da Saúde (OMS) sinaliza como “elevado” o risco de contaminação internacional do Coronavírus. De acordo com informações da Comissão Nacional de Saúde da China, 1.114 pessoas morreram até o momento, vítimas do COVID-19, como foi nomeado o agente no meio científico.

O vírus, que se espalhou para outros países, pode chegar ao Brasil, segundo Maria José Menezes, bióloga e mestre em Patologia Humana pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)/Fiocruz. Se chegar ao Brasil, o Coronavírus será um teste para o Sistema Único de Saúde (SUS), segundo a especialista.

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“O SUS é estratégico para o povo. A abrangência dele é muito maior do que a população imagina. É através de programas do SUS que o país conseguirá controlar a transmissão do Covid-19”, afirma.

O sistema tem o registro de cerca de 90 milhões de pacientes, de acordo com o Ministério da Saúde.

Um grupo de 34 brasileiros, residentes na província de Wuhan, considerado o epicentro da contaminação, retornou para o Brasil no domingo, dia 10 de Fevereiro. Exames feitos pelo Ministério da Saúde apontam que não há infecção em nenhum deles ou mesmo nas pessoas que tiveram contato com o grupo. O país investiga 11 casos suspeitos da doença, depois de já ter descartado 33 suspeitos.

Apesar da doença ainda não ter sido detectada no Brasil, o sinal de alerta é necessário. “A OMS avalia que a epidemia não está controlada, por isso, as medidas de vigilância recomendadas pelos órgãos de vigilância em saúde”, explica Maria José Menezes.

Maria José Menezes recorda, contudo, os recentes cortes feitos na área da saúde, o que pode debilitar o sistema para enfrentar qualquer epidemia.

“O SUS é um sistema de saúde muito potente, porém, desde 2016 tem sofrido um desmonte, que piorou drasticamente com o atual governo. Esta perda de receita certamente impactará o controle desta e de outras doenças”, conta.

Segundo informações oficiais, o governo federal anunciou em setembro de 2019 redução de investimento de 1,44 bilhão de reais para os ministérios do país. Enquanto a pasta de Ciência, Tecnologia e Comunicação teve corte de R$ 59,78 milhões, a saúde teve uma redução de R$ 6,999 milhões.

“O cenário é preocupante. Muitos programas foram extintos pelo governo, o SUS perdeu parcela substancial de seu orçamento, as universidades públicas, que são espaços de pesquisa básica e aplicada, também estão sofrendo desmonte. Este quadro tem impacto direto na saúde pública de toda população, inclusive a que possui assistência médica privada”, recorda Maria José Menezes.

Não só o tratamento, mas o diagnóstico eficiente do Coronavírus também depende do sistema público. Um grupo de pesquisadores da UFBA/Fiocruz desenvolveu um exame capaz de detectar o vírus em 3h, diferente das 48h gastas em média pelo governo federal. O grupo é o mesmo responsável por descobrir ferramentas para identificar o zika vírus.

Segundo os pesquisadores, a técnica é a mesma utilizada na China, Alemanha e Estados Unidos.

“Toda essa tecnologia que a Fiocruz desenvolveu de fazer o diagnóstico com mais rapidez é biotecnologia. Isso só foi capaz de ser desenvolvido com uma pesquisa básica, com estudantes de iniciação científica, mestrandos, doutores, pós-doutores e laboratórios equipados”, afirma.

“O atual governo tem tirado muito investimento, cortou bolsas, pesquisa, tem feito um ataque muito grande nessas instituições e isso é extremamente perigoso. Certamente os cortes que tivemos no ano passado na pesquisa e nas universidades terão consequências agora e no futuro”, conclui a pesquisadora.