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Coronavírus: Reabertura tem impacto menor do que se espera, dizem economistas

Foto: Miguel Schincariol/Getty Images

À medida que países começam a reabrir suas economias em meio à pandemia de coronavírus, alguns especialistas argumentam que essa ação não será muito eficaz no alívio dos efeitos do choque econômico causado pelo vírus.

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Em um documento preliminar do Bureau Nacional de Pesquisas Econômicas (NBER), Christopher M. Meissner e Peter Zhixian Lin, economistas do departamento de economia da UC Davis, descobriram que a revogação das ordens de confinamento pode não fazer muita diferença em termos de efeitos econômicos.

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"Se a doença continuar presente e as pessoas considerarem que é perigoso sair, elas não vão sair", disseram os coautores por e-mail ao Yahoo Finanças. "Além disso, o mundo todo está em recessão, e essa reabertura terá um impacto muito menor do que o esperado".

O trabalho do NBER chegou a três conclusões importantes: as ordens de confinamento provavelmente foram eficazes para retardar a propagação do vírus, mas não para diminuir a taxa de mortalidade cumulativa; e "há poucas evidências de que [essas ordens] estejam associadas a maiores quedas na atividade econômica local do que em lugares que não aplicaram essa medida".

"Os choques econômicos negativos foram nacionais e não locais"

Quando as primeiras ondas da pandemia de coronavírus chegaram aos EUA, todos os estados, exceto oito, se fecharam e implementaram ordens de confinamento. 

Isso gerou um número sem precedentes de demissões e licenças em todo o país. Muitos políticos, incluindo o presidente Trump, pressionaram os estados a reabrir suas economias para aumentar o número de empregos e revigorar a atividade econômica. 

No entanto, de acordo com a pesquisa do NBER, os pedidos de seguro-desemprego aumentaram na mesma proporção nos estados que aplicaram políticas de confinamento e nos que não aplicaram essa medida.

"Com base nessas informações, não há evidências de que as políticas de confinamento tenham gerado mais aumento no desemprego", escreveram Meissner e Zhixian Lin. 

Os autores observaram que os resultados são semelhantes aos dados da pandemia de gripe espanhola de 1918 a 1919: as cidades dos EUA que aplicaram mais medidas de contenção "não sofreram maior revés econômico" do que outras cidades sem essas políticas. 

"Interpretamos esses dados como evidência de que os choques econômicos negativos foram nacionais e não locais", disseram os dois.

Um artigo da Capital Economics corrobora essa visão, afirmando que há poucos sinais de pessoas retornando ao trabalho, mesmo com a retomada das atividades nos estados.

"Embora o número de novos pedidos de seguro-desemprego continue diminuindo, caindo de 2.687.000 na semana retrasada para 2.438.000 na semana passada, o forte aumento nos pedidos na outra semana ilustra que o alívio dos bloqueios em muitos estados ainda não resultou na volta ao trabalho em grande escala para quem está em licença temporária", diz o artigo.

As recuperações ainda estão lentas

Além disso, de acordo com Maria Cosma, economista da Moody's Analytics, a reabertura não é um processo tão simples. 

"A revogação das ordens de lockdown nos estados e regiões não será suficiente para acelerar a economia novamente", disse ela ao Yahoo Finanças. "Empresas de todos os portes estão entrando em processo de falência ou fechando". 

Cosma observou que a demanda também diminuiu muito devido às circunstâncias financeiras atuais de muitos americanos. 

"As empresas podem abrir, mas isso não significa que os clientes voltarão como antes", disse ela. "Com tantas demissões e horários de trabalho reduzidos, os consumidores americanos estão passando por uma situação difícil e diminuindo os gastos". 

Pesquisas da Goldman Sachs indicam que na Geórgia, no Texas, no Colorado e no Tennessee, quatro estados que reabriram mais cedo do que a maioria, a recuperação econômica tem sido mais lenta.

De acordo com Cosma, ainda não está claro se uma reabertura agressiva deve ou não estimular uma recuperação rápida.

"Alguns estados estão pressionando por uma remoção rápida das ordens de lockdown, arriscando outra onda de infecções por COVID-19, na esperança de que isso melhore a economia", disse ela. "Mas não há um aumento significativo da atividade nesses estados. Por exemplo, os pedidos de seguro-desemprego estão diminuindo, mas não muito mais rápido do que nos estados que ainda estão em lockdowns mais rigorosos". 

Em sua pesquisa para a Moody's, Cosma descobriu que esse era o caso específico da Geórgia. 

"Os pedidos de seguro-desemprego semanais estão diminuindo na Geórgia, mas ainda estão entre os mais altos do país em relação à proporção da força de trabalho. Além disso, a diminuição não é tão significativa em comparação com outros estados que ainda estão em lockdown", disse ela. "Como em muitos outros estados, as ordens de confinamento inicialmente provocaram um pico de demissões. No entanto, com o passar do tempo, as demissões permaneceram elevadas devido à redução da demanda. As vendas no varejo dos EUA em abril e março indicam que os consumidores transferiram os gastos para necessidades, como alimentos e remédios, e reduziram em todo o resto. A Geórgia não ficou imune a essa tendência".

Até o momento, há mais de 1,5 milhão de casos de coronavírus nos EUA, e esse número deve triplicar até o final de 2020 se os estados reabrirem cedo demais.

A vacina é a única solução definitiva

De acordo com Cosma, embora a reabertura dos estados não prejudique as economias individuais, a atividade provavelmente será lenta até que haja uma solução permanente para o vírus, como uma vacina. 

“A reabertura impulsionará as economias dos estados, aliviando alguns choques no lado da oferta e estimulando um pouco a demanda reprimida", disse ela. Porém, "enquanto os consumidores não se sentirem totalmente seguros para sair de casa e retomar suas tarefas e hábitos de consumo, a demanda continuará baixa. Resumindo, isso significa que a recuperação econômica não será tão rápida quanto a crise, mas sim mais gradual, e dependerá muito da trajetória epidemiológica do vírus". 

Cosma continuou: "uma vacina ou outro tratamento médico viável é a única solução definitiva. Enquanto isso, os estados e o governo federal precisam fazer tudo o que for possível para limitar ou, pelo menos, controlar a propagação do vírus. O estímulo fiscal também será muito importante. Uma lição essencial que crise financeira nos ensinou é que uma resposta política robusta e permanente é fundamental para impedir uma crise ainda mais grave".

A corrida pela vacina contra o coronavírus ainda está em andamento e provavelmente ela não estará disponível até pelo menos 2021. Até lá, as autoridades de saúde pública declararam que as pessoas precisarão continuar praticando o distanciamento social e usando máscaras para proteger a saúde. 

"Por fim, o país como um todo terá que chegar a um acerto de contas", disseram Meissner e Zhixian Lin. "Quanto estamos dispostos a pagar como nação, seja em atividade econômica perdida ou em saúde humana, para seguir adiante com as nossas vidas e voltar ao normal?"

Adriana Belmonte

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