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Coronavírus prefere quem dorme mal? Entenda

Nathan Vieira

Com a pandemia preocupando verdadeiramente a população e mudando a rotina de todos, são diversas as orientações para não ser infectado: lavar as mãos, evitar tocar nos olhos, boca e nariz sem higienizá-las, manter-se hidratado e evitar aglomerações, por exemplo. No entanto, você sabia que a qualidade do sono também pode ter um papel muito maior do que o imaginado?

Acontece que um estudo brasileiro voltado ao impacto do sono na eficácia da vacina contra a Hepatite A já mostrou que pessoas com privação de sono reagiram de maneira bem inferior à vacina em comparação com um grupo que dormiu bem. Além disso, algumas pesquisas trazem à tona que pessoas que dormem menos do que é necessário ficam mais suscetíveis a infecções respiratórias.

Para entender esses efeitos relacionados ao sono, a equipe do Canaltech conversou com Lúcio Huebra, médico do sono e neurologista da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Basicamente, segundo o especialista, uma noite de sono de qualidade auxilia no fortalecimento do sistema imunológico, peça fundamental na prevenção da doença. “É durante o sono que boa parte das funções do corpo se recupera e isso também acontece com o sistema imunológico. É preciso de uma boa qualidade do sono para que as células de defesa sejam restauradas e, dessa forma, garantam a produção de anticorpos para as diversas infecções de maneira adequada”, afirma.

Um sono de má qualidade ou encurtado leva o organismo a uma situação de estresse, aumentando a liberação do cortisol, hormônio que possui efeito imunomodulador e que acaba reduzindo as defesas do corpo. “É importante lembrar que cada um precisa de uma quantidade mínima de horas de sono diferente. Os números são médias populacionais, então, pode ser que certas pessoas precisem de mais ou menos horas. O importante é estar sempre revigorado no dia seguinte”, enfatiza o neurologista.

Em tempos de pandemia, a relação entre dormir bem e estar menos propenso a pegar COVID-19 é a seguinte, de acordo com o neurologista: "Quando estamos sob efeito de uma infecção, temos a qualidade de sono alterada, e geralmente ficamos até mais sonolentos. E quando dormimos mal ficamos mais suscetíveis a infecções. Durante o sono, especialmente durante o sono de ondas lentas (sono profundo), restauramos nosso sistema de defesa, produzimos e liberamos citocinas, que são proteínas relacionadas com nossa resposta imune".

Além disso, Lúcio explica que o sono de má qualidade, comporta-se como um fator estressor do organismo, liberando em horários e quantidade anormais, um hormônio chamado cortisol. Esse hormônio tem efeito modulador do sistema imunológico, atenuando a inflamação necessária no combate à infecção. "Estudos mostram que pessoas com privação de sono apresentam mais sintomas de infecções virais como resfriados e diarreia. Também é definido que pessoas que dormiram mal na véspera de uma campanha de vacinação não produzem anticorpos de forma adequada, como previsto para pessoas saudáveis", aponta. 

Segundo o especialista, o sistema imunológico depende de um bom equilíbrio de todo o organismo, chamado de homeostase. Para garantir uma boa saúde geral, inclusive do sistema imunológico, precisamos de regularidade e boa qualidade de sono, alimentação balanceada, atividade física, exposição à luz solar e uma boa saúde mental. "É importante ressaltar que todos esses fatores estão interligados, então uma boa qualidade de um desses fatores, facilita que os outros componentes também se ajustem".


As consequências de dormir mal

Além de queda da imunidade, o sono de má qualidade traz diversas outras repercussões negativas para o organismo. Quando a quantidade ideal de horas de sono não é respeitada, algumas consequências podem surgir, sejam elas agudas, que aparecerem já no dia seguinte de uma noite mal dormida, ou crônicas, aquelas que podem surgir ao longo da vida, como consequência a diversos episódios de sonos de má qualidade.

Questionado a respeito das consequências a curto prazo, o neurologista aponta fadiga, sonolência, irritabilidade, desatenção, dificuldade de memorização, dor de cabeça e tontura. No entanto, quanto a consequências de longo prazo, o especialista já aponta complicações metabólicas como obesidade, dislipidemia, maior risco de diabetes; complicações cardiovasculares como hipertensão, maior risco de infarto ou acidente vascular cerebral (AVC). Além disso, ele diz que dormir mal consecutivamente pode levar a um processo de declínio cognitivo, prejudicando a memória ou acelerando um processo de demência em pessoas que já tenham uma pré-disposição.

"Dormir mal é estar mais vulnerável ao coronavírus. O sono adequado é um dos fatores mínimos para uma boa qualidade de vida, bem-estar geral e uma boa condição de saúde global. Além do efeito direto do sono no sistema imunológico, uma boa qualidade de sono também garante um rigor físico e boa saúde mental, fatores que também estão relacionados com a nossa resposta no combate a infecções", o especialista acrescenta.

 Como dormir bem?

Entre as recomendações estão escolher um ambiente adequado para dormir: silencioso, confortável e escuro. O local deve ser utilizado exclusivamente para a função, então, só usá-lo quando realmente for dormir e deitar na cama apenas quando estiver com sono. Garantir uma temperatura adequada, tanto do ambiente em si como da roupa/pijama também é uma das recomendações, além de uma boa rotina noturna, com horários regulares, fazer sempre as mesas tarefas próximo a hora de deitar para sinalizar ao cérebro que já é o momento do sono vir.

Lúcio ainda afirma o seguinte: “Vivemos em um período de grandes preocupações e ansiedade, isso tudo também prejudica uma boa noite de sono. Então, é importante reservar de 30 minutos a uma hora antes de dormir para se desligar de todas as notícias, buscando fazer algo que seja prazeroso e relaxante para que o sono possa vir e que venha com boa qualidade”.

Mas ainda fica a questão de como manter a qualidade de sono durante essa quarentena, em que as pessoas só ficam nas telas. "Nesse período da quarentena, como estamos limitados em relação às atividades externas, tanto de trabalho como de lazer, usamos as telas para nos conectarmos a outras pessoas, para trabalhar em home-office, nos divertir, ter acesso a notícias ou mesmo passar o tempo. Isso fez com que aumentasse de forma considerável nosso tempo de tela diário. O ideal é pelo menos uma hora antes de dormir sem exposição a alguma tela. Evitar ao máximo o uso de telas deitado na cama", aponta o neurologista.  

Outra sugestão é só ir para cama quando tiver sono. Ao longo do dia, priorizar tarefas fora do quarto de dormir. Procurar manter um equilíbrio entre o uso de telas e outras atividades de lazer, sobretudo atividade física. A inatividade também é muito prejudicial para a qualidade de sono.

Fonte: Canaltech