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Coronavírus | Operadoras cancelam a franquia de dados em alguns países

Rafael Arbulu

O vírus COVID-2019 está fazendo bem mais do que cancelar eventos globais — e nem tudo pode ser necessariamente ruim. Segundo informa o Techcrunch, algumas operadoras no mundo estão deixando de limitar o consumo de dados de seus consumidores (a popular “franquia de internet”), a fim de permitir que seus assinantes tenham conexões ininterruptas em momentos de emergência.

A mais notável é a americana AT&T, que fez justamente o que o enunciado rege, mas há outros exemplos: a Verizon adicionou um investimento de US$ 500 milhões (quase R$ 2,4 bilhões) na disponibilização de seus planos 5G; e a Comcast ampliou o período de avaliação gratuita do seu plano para a população carente, intitulado “Internet Essentials”, para 60 dias; além de aumentar a sua velocidade de 15 para 25 Mbps.

Enquanto isso, na Índia, a ACT Fibernet não fechou a franquia, mas ampliou o consumo com adicionais 300 Mbps sem nenhum custo adicional. Na Europa, especialistas ingleses estão questionando a estrutura técnica do país sobre a sua capacidade de aguentar o aumento do volume de consumo de informações pela internet.

O coronavírus vêm trazendo um impacto bem maior do que o mero cancelamento de eventos

A razão para isso é bem óbvia: ao redor do mundo, empresas de enorme porte estão pedindo que seus funcionários passem a trabalhar de casa, devido aos riscos posicionados pela epidemia do coronavírus. Isso inevitavelmente leva a um aumento considerável no consumo de dados por parte do consumidor comum — e não há como saber se todas as ISPs (“Internet Service Providers”, as operadoras e concessionárias de internet) terão estrutura para comportar isso.

Voltando aos EUA, a entidade sem fins governamentais “Free Press” (“Imprensa Livre”, na tradução literal) emitiu comunicado pedindo que as ISPs não apenas deixassem de limitar o consumo de dados durante a pandemia do COVID-2019, mas que também flexibilizasse a elegibilidade de pessoas de baixa renda para os seus planos mais baratos, permitindo uma penetração maior de mercado das empresas, para um público que necessita. Não podemos afirmar que a ação teve resultados, mas os recentes anúncios da AT&T, Comcast e Verizon parecem ter sido um reflexo disso.

“Especialmente durante uma crise, a internet e o acesso a telefones deveriam ser considerados serviços públicos de fácil acesso, como eletricidade ou água. Os provedores de banda larga do país precisam fazer a sua parte para o benefício do público”, disse a diretora da Free Press, Candace Clement. “A fim de minimizar disrupções na educação, economia e vida pública — e também para assegurar comunicações da saúde pública sejam acessíveis a todos — essas empresas devem reduzir os custos de conectividade para aqueles que lutam para ficar online ou então ampliar a robustez de conexões para aqueles que precisam trabalhar em casa”.

O Techcrunch argumenta que as limitações de dados são completamente desnecessárias em primeiro lugar, sendo nada mais que um mecanismo para cobrar mais dinheiro do consumidor: “Pense um pouco: se o provedor de internet pode, mesmo temporariamente, desistir do limite de dados, então com certeza já existe como a rede ser usada sem limitação. Se existe a capacidade, então por que existem os limites?” — argumenta um texto opinativo assinado pelo jornalista Devin Coldewey.

O consumo de dados de internet vêm recebendo atenção de provedores em diversos países

E, convenhamos, nenhuma empresa quer repetir o fiasco trazido pelo episódio da Verizon nos EUA: em 2018, durante o ponto alto dos incêndios naturais da Califórnia, a operadora fez o chamado traffic shaping, ou seja, reduziu artificialmente o consumo e velocidade de dados dos bombeiros e bombeiras combatentes do fogo quando o uso excedeu o limite, mesmo que estes ainda estivessem fazendo isso em benefício público. A empresa pediu inúmeras desculpas dias depois, mas a situação foi marcante no público e no mercado.

Com empresas como Twitter, Google, Microsoft e Amazon implementando um regime “forçado” de home office para seus funcionários, certamente o assunto rende um bom debate.

E no Brasil?

Pelas terras tupiniquins, o assunto pode render futuras discussões, mas nada para esse momento. O Canaltech buscou as principais empresas que fornecem acesso à internet no país, mas até o fechamento desta matéria, nenhuma ainda nos havia respondido. Uma pesquisa pelos canais de notícia e páginas de divulgações de cada empresa, porém, não revelou nada que indicasse algum plano de abrir mão de franquias de dados ou ampliação do acesso à internet, ainda que em caráter emergencial.

Entretanto, há um debate bem quente nas redes sociais, com algumas pessoas entendendo que a situação do coronavírus no Brasil ainda não chegou nos níveis alarmantes de, digamos, Itália ou China. Embora haja mérito nessa argumentação (ainda não estamos impedindo voos internacionais e apenas alguns eventos sinalizaram ou foram efetivamente cancelados aqui), é importante ressaltar que a capacidade de viralização do COVID-19 por aqui se mostra bem alta: ontem (12), o Ministério da Saúde emitiu um boletim de atualização que já contava com 98 casos confirmados de infecções do vírus no Brasil.

Talvez seja a hora do Brasil começar a conversar sobre o assunto.


Fonte: Canaltech

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