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Motivos que levaram os EUA a ter mais casos da Covid-19 no mundo

·4 minuto de leitura
Hospital temporário montado no Centro Jacob K. Javits, em Nova York, 27 de março de 2020

Desde que o primeiro caso de uma pessoa infectada com o novo coronavírus foi conhecido no final de janeiro, até agora, quando o total atingiu 100 mil, os Estados Unidos se tornaram o país com o maior número de doentes.

Cerca de 1.500 pessoas morreram no território americano por Covid-19, embora, no momento, a taxa de mortalidade ainda seja muito menor do que na Itália e em vários países europeus.

Como esta situação chegou a esse ponto? E o que vai acontecer a seguir?

- Testes, testes, testes -

Especialistas em saúde pública afirmam que, embora o pico da epidemia ainda não tenha sido atingido, há várias razões pelas quais a Covid-19 se espalhou tanto nos Estados Unidos.

No início do surto, o presidente Donald Trump foi acusado de subestimar sua gravidade, afirmando que a transmissão local não era "inevitável", mesmo depois que um conselheiro seu da área de saúde ter argumentado o contrário.

A medida que a pandemia foi chegando, primeiro nos estados da costa oeste, como Washington e Califórnia, o país não conseguiu rastrear significativamente os casos, porque as verificações eram muito lentas.

Inicialmente, o governo se recusou a aliviar os obstáculos regulatórios que permitiriam aos departamentos de saúde estaduais e locais desenvolverem seus próprios kits de teste com base nas diretrizes fornecidas pela Organização Mundial da Saúde, e as primeiras amostras foram enviadas à sede dos Centros para o Controle e a Prevenção de Doenças (CDC) em Atlanta.

O CDC então encaminhou kits de teste com defeito aos estados, o que aprofundou o atraso.

Em 29 de fevereiro, data da primeira morte por novo coronavírus nos Estados Unidos e mais de um mês após o primeiro caso confirmado, o governo suspendeu a proibição.

O setor privado se uniu mais tarde.

"Se tivéssemos rastreado uma parte dos contatos dos contaminados, poderíamos ter encontrado muito mais casos rapidamente e fechado os pontos críticos", disse à AFP Gabor Kelen, diretor de medicina de emergência da Universidade Johns Hopkins.

As autoridades americanas defenderam sua resposta, afirmando repetidamente que os testes desenvolvidos pela Coreia do Sul, que é considerado um exemplo de prática recomendada por sua reação imediata e contundente, às vezes produzem falsos positivos.

Kelen discorda desse raciocínio. "Uma coisa que ensino aos meus residentes é que algo é melhor que nada, que mais cedo é melhor que mais tarde, e que, se um teste é bom, dois são melhores. O perfeito é o inimigo do bem", disse.

-Ausência de uma resposta nacional -

O densamente povoado estado de Nova York tornou-se o epicentro do surto nos Estados Unidos, com quase 45.000 casos até sexta-feira, cerca de metade do total nacional e mais de 500 mortes.

O governador do estado, Andrew Cuomo, prevê um pico de infectados em aproximadamente 21 dias, por volta de 17 de abril.

Depois de Nova York estão a vizinha Nova Jersey, Califórnia, Washington, Michigan e Illinois, com grupos concentrados nas principais cidades.

Estados ou áreas que ainda não sofreram aumentos repentinos não devem se acomodar, disse Thomas Tsai, clínico-geral e professor de política de saúde na Universidade de Harvard.

"Os Estados Unidos não são um monólito, existem 50 estados diferentes com respostas diferentes do governo, de governadores e departamentos estaduais de saúde pública", disse à AFP.

"Acho que é necessário um esforço verdadeiramente coordenado em nível nacional", afirmou, alertando que seguir com uma "resposta irregular" sobre a circulação de pessoas levaria outros estados a experimentar uma espiral ascendente de casos semelhantes aos de Nova York.

Na tarde desta sexta-feira, 61% dos 330 milhões de americanos foram convocados para o confinamento, o que significa que os 39% restantes ainda não foram.

- O que deve ser feito? -

Um ponto relativamente positivo é que a taxa de mortalidade baseada em casos confirmados permaneceu baixa até agora: 1,5%, comparado aos 7,7% na Espanha e 10% na Itália.

Se essa taxa continuará, os especialistas estão divididos.

"A baixa CFR (taxa de mortalidade de casos) não é tranquilizadora", declarou David Fisman, epidemiologista da Universidade de Toronto, à AFP.

"Aumentará porque leva tempo para as pessoas morrerem. Meu melhor palpite é que os Estados Unidos estão à beira de um surto absolutamente desastroso", concluiu.

Especialistas concordam que medidas de distanciamento social são urgentemente necessárias em todo o país para tentar "achatar a curva", diminuindo a taxa de infecção para que os hospitais não fique sobrecarregados, como é o caso em Nova York.

Mas, do ponto de vista científico, o patógeno pode "sofrer mutação" e se tornar menos virulento ao longo do tempo, disse Kelen, como vírus semelhantes costumam fazer.

Especialistas argumentam que o calor e a umidade do verão também podem atrasar sua propagação.

Da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, acredita-se que o pico do surto possa ocorrer em meados de abril.

O número de mortos continuaria a aumentar, mas depois se estabilizaria em cerca de 80.000 em julho, estimam.

O modelo sugere um total de 38.000 mortes no extremo mais baixo e 162.000 no mais alto.

Para comparação, a gripe matou 34.000 pessoas nos Estados Unidos entre outubro de 2018 e março de 2019.