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CoronaVac: Comissão de Ética em Pesquisa decide que testes podem continuar, ao contrário da Anvisa

Redação Notícias
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Foto: Divulgação
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A Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) decidiu que as pesquisas da vacina CoronaVac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, podem prosseguir, apesar do evento adverso grave registrado. A manifestação é discordante da decisão da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que ontem determinou a paralisação dos estudos.

Pesquisas como as de vacinas precisam passar pelo aval da Anvisa e da Conep, ligada ao Conselho Nacional de Saúde, tanto no momento de ser autorizada quanto na suspensão dos testes. A Anvisa faz uma análise mais voltada para a questão sanitária, de eficácia e segurança. A Conep atua também na segurança e na defesa dos direitos de quem participa dos experimentos.

“Não tem sentido suspender a pesquisa porque, segundo os documentos e esclarecimentos apresentados, ficou demonstrado que não há relação com a vacina. Recomendamos que os pesquisadores nos trouxessem apenas a avaliação final de seu comitê independente”, disse ao Globo Jorge Venâncio, coordenador da Conep.

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Segundo Venâncio, o Instituto Butantan notificou a Conep na sexta-feira da semana passada sobre um evento adverso grave com um voluntário. No mesmo dia, à noite, a Conep fez uma audiência com pesquisadores para coletar mais dados e documentos sobre o episódio.

“A informação inicial realmente era insuficiente. Mas nós pedimos, com a agilidade necessária, mais dados. E não visualizamos nada que justificasse uma suspensão imediata das pesquisas”, afirma Venâncio.

Nesta terça (10), o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que era “impossível” a relação entre "evento adverso grave" e com a vacina. Mais tarde, um laudo do IML (Instituto Médico Legal) atestou como suicídio a causa da morte do voluntário de 33 anos.

O Instituto Butantan alega garante ter informado Anvisa com “dados transparentes”, mas a Anvisa afirmou ter recebido informações sem detalhes.

ENTENDA A LINHA DO TEMPO DA SUSPENSÃO DOS TESTES DA CORONAVAC

  • Dia 29 de Novembro: Evento adverso teria ocorrido

  • Dia 6 de Novembro: Instituto Butantan (IB) enviou informação que não chegou à Anvisa por conta de problemas técnicos (ataque hacker aos sistemas do governo federal)

  • Dia 9 de Novembro, 18h: Comitê da Anvisa recebe comunicação oficial do IB informando da ocorrência do evento adverso. Sem nenhum detalhe.

  • Dia 9 de Novembro, 20h47: Comunicação eletrônica enviado para o Instituto Butantan

  • Dia 9 de Novembro, 21h25: Publicação no portal da suspensão dos estudos

A Anvisa, por sua vez, só se reuniu com pesquisadores do Instituto Butantan nesta terça-feira, após divulgar, ontem à noite, que estava suspendendo os testes. Em coletiva de imprensa nesta terça-feira, afirmou que um problema de "hackeamento" nos sistemas fez com que a agência só recebesse a notificação na segunda-feira.

Os órgãos mantêm sigilo sobre o evento adverso ocorrido com o voluntário da pesquisa. Mas boletim de ocorrência registrado na capital paulista mostra que a morte foi registrada como suicídio.

Não se sabe ainda se ele tomou a vacina ou o placebo. Mas ainda que tenha tomado o imunizante, já fazia cerca de 24 dias, o que descartaria, na avaliação de pesquisadores, um efeito diretamente ligado a vacina.

BOLSONARO CELEBRA PARALISAÇÃO

O anúncio foi comemorado pelo presidente Jair Bolsonaro, que trava com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Na manhã desta terça-feira (10), o presidente compartilhou a notícia de suspensão pela Anvisa dos testes da vacina Coronavac e disse ter “ganhado” do tucano.

Há tempos, Doria e Bolsonaro travam uma espécie de “guerra das vacinas”, com o tucano defendendo a aplicação obrigatória do imunizante enquanto o presidente comanda um movimento anti-vacinas.

Na avaliação de aliados do presidente, Doria estaria tentando ganhar “capital político” ao encampar a produção de uma vacina contra a Covid-19 e chegaria municiado neste tema em uma eventual disputa pela presidência em 2022 contra Bolsonaro.

Com a paralisação dos testes, nenhum novo voluntário poderá receber a vacina. A ação ocorreu no mesmo dia em que Doria anunciou que 120 mil doses da CoronaVac chegarão ao estado ainda no mês de novembro.

da agência O Globo