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Copom surpreende e eleva Selic a 2,75% na primeira alta em 6 anos

LARISSA GARCIA E FÁBIO PUPO
·8 minuto de leitura

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A escalada persistente dos preços, observada nos últimos meses, levou o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central a elevar a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual, a 2,75% ao ano, nesta quarta-feira (17). A Selic estava em seu menor patamar desde agosto do ano passado, a 2% ao ano, como resposta à crise gerada pela pandemia de Covid-19. A decisão de aumentar os juros em 0,75 ponto percentual surpreendeu porque veio acima das expectativas do mercado. A maior parte dos economistas consultados pela Bloomberg esperavam elevação de 0,5 ponto –alguns apostavam em uma alta mais gradual, de 0,25. O comitê justificou que os indicadores recentes de atividade econômica mostram recuperação da economia e que as expectativas de inflação foram revisadas para cima. Segundo o texto, uma alta mais acentuada da taxa de juros reduz a probabilidade de que a meta não seja cumprida este ano. "Os membros do Copom consideram que o cenário atual já não prescreve um grau de estímulo extraordinário [juros muito baixos]. O PIB [Produto Interno Bruto] encerrou 2020 com crescimento forte na margem, recuperando a maior parte da queda observada no primeiro semestre, e as expectativas de inflação passaram a se situar acima da meta no horizonte relevante de política monetária”, pontua o comunicado da decisão. “Adicionalmente, houve elevação das projeções de inflação para níveis próximos ao limite superior da meta em 2021", diz. O BC ponderou que os indicadores econômicos ainda não refletem a piora da pandemia e as novas medidas de restrição. "Em relação à atividade econômica brasileira, indicadores recentes, em particular a divulgação do PIB do quarto trimestre, continuaram indicando recuperação consistente da economia, a despeito da redução dos programas de recomposição de renda. Essas leituras, entretanto, ainda não contemplam os possíveis efeitos do recente aumento no número de casos de Covid-19", diz o comunicado da decisão. "Prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o primeiro e segundo trimestres deste ano", completa. Ainda assim, o BC afirmou que, mesmo com os novos lockdowns, o aumento da taxa de juros é adequado. “Na avaliação do Comitê, uma estratégia de ajuste mais célere do grau de estímulo tem como benefício reduzir a probabilidade de não cumprimento da meta para a inflação deste ano, assim como manter a ancoragem das expectativas para horizontes mais longos”, diz. “Além disso, o amplo conjunto de informações disponíveis para o Copom sugere que essa estratégia é compatível com o cumprimento da meta em 2022, mesmo em um cenário de aumento temporário do isolamento social”, analisa o documento. Esta é a primeira elevação desde julho de 2015, quando a autoridade monetária decidiu subir os juros em 0,5 ponto, a 14,25% ao ano. Em comunicado, o Copom sinalizou que, na próxima reunião, em maio, pode fazer mais um aumento de 0,75 p.p., o que elevaria a Selic para 3,50%. "Para a próxima reunião, a menos de uma mudança significativa nas projeções de inflação ou no balanço de riscos, o Comitê antevê a continuação do processo de normalização parcial do estímulo monetário com outro ajuste da mesma magnitude", informou. "O Copom ressalta que essa visão para a próxima reunião continuará dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos, e das projeções e expectativas de inflação." ​O controle da inflação é a principal atribuição da autoridade monetária. Para isso, o BC define a meta da taxa básica de juros. Quando a inflação está alta, o Copom sobe os juros com o objetivo de reduzir o estímulo na atividade econômica, o que diminui o consumo e equilibra os preços. Caso contrário, o BC pode reduzir juros para estimular a economia. Em suas últimas comunicações oficiais, o BC reiterou que a inflação era temporária. Entretanto, na decisão passada, em fevereiro, o Copom já admitiu que se prolongou além do esperado e abandonou o compromisso de não subir juros, chamado de “forward guidance”. Atualmente, o país convive com o agravamento da pandemia —com aumento no número de casos e mortes pela doença e novas medidas de isolamento— que deve impactar a atividade econômica. Ao mesmo tempo, o brasileiro vê seu poder de compra ser corroído pela inflação. Mesmo com resposta mais agressiva que a esperada pelo mercado à inflação, a autoridade monetária repetiu a avaliação de que o choque de preços é temporário. "Apesar da pressão inflacionária de curto prazo se revelar mais forte e persistente que o esperado, o Comitê mantém o diagnóstico de que os choques atuais são temporários, mas segue atento à sua evolução", diz. Segundo o relatório Focus desta semana, no qual o BC divulga as projeções do mercado, os economistas subiram mais as expectativas de inflação para 2021, que ficaram em 4,60%. A previsão está acima do centro da meta fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), de 3,75%, com tolerância 1,5 ponto percentual. Há um mês, a estimativa era de 3,62%. De acordo com o levantamento, o mercado espera que a Selic termine o ano a 4,50%, com nova alta de 0,5 ponto em maio (a 3,0%). O BC também subiu as expectativas de inflação. Na análise feita com a taxa de juros da pesquisa Focus e taxa de câmbio partindo de US$ 5,70, as projeções são de 5,0% para 2021 e 3,5% para 2022. O cenário supõe que a Selic se eleve para 4,50% ao ano em 2021 e para 5,50% ao ano em 2022. As expectativas para a inflação de preços administrados, segundo o texto, são de 9,5% para 2021 e 4,4% para 2022. Em fevereiro, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), considerado o índice de inflação oficial, ficou em 5,20% no acumulado dos 12 meses, perto do teto da meta, pressionado principalmente por alimentos e combustíveis. O BC avaliou que permanecem fatores de risco para a inflação em ambas as direções –a baixa atividade com o agravamento da pandemia pode segurar os preços e o desequilíbrio fiscal pode puxá-los para cima. "Por um lado, o agravamento da pandemia pode atrasar o processo de recuperação econômica, produzindo trajetória de inflação abaixo do esperado. Por outro lado, um prolongamento das políticas fiscais de resposta à pandemia que piore a trajetória fiscal do país, ou frustrações em relação à continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco", explica. Para o Copom, porém, o risco fiscal é mais acentuado. "O risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária", diz o texto. No cenário externo, o BC avalia que novos estímulos fiscais em alguns países desenvolvidos, unidos ao avanço da implementação dos programas de vacinação contra a Covid-19, devem promover uma recuperação global mais robusta da atividade ao longo do ano. "A presença de ociosidade [baixa atividade], assim como a comunicação dos principais bancos centrais, sugere que os estímulos monetários terão longa duração. Contudo, questionamentos dos mercados a respeito de riscos inflacionários nessas economias têm produzido uma reprecificação nos ativos financeiros, o que pode tornar o ambiente desafiador para economias emergentes", destaca. José Francisco Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, disse que a decisão foi surpreendente e equivocada. "Não é um exagero. Foi errado", afirmou. Ele diz que o texto divulgado pela autoridade monetária sobre a decisão destoou da realidade observada no atual cenário econômico, com avanço da pandemia e perspectiva de novas medidas de isolamento. "Não consigo concordar com quase nada do que está escrito [no comunicado]", afirmou. "A ênfase dada à recuperação da atividade econômica é surpreendente, e considero extremamente complicada a omissão dos evidentes efeitos do fim do auxílio emergencial", disse. Para ele, a decisão compromete a retomada da atividade econômica. "A recuperação já estava em xeque mesmo com a Selic a 2%, e esse movimento piora as possibilidades", disse. O eventual aumento de 0,75 ponto percentual na próxima reunião do Copom não teria respaldo, em sua visão. "O ritmo com que se pretende fazer isso e o argumento ligado à atividade realmente não batem", disse. Gustavo Bertotti, economista-chefe da Messem Investimentos, afirma que a elevação foi mais forte que o necessário. "Acho que a atividade econômica está comprometida sim, e eu ficaria na casa do 0,5 [ponto percentual], que seria o adequado diante do cenário que vemos neste trimestre", disse. "Estamos num país com queda na atividade econômica muito forte, com aumento nos lockdowns e restrições. Sem contar a desorganização no plano de vacinação. Tudo isso pesa. A gente não tem uma expectativa [de forte crescimento] diante de toda a queda da atividade econômica e agora com o agravamento da crise do coronavírus. Esse é um ponto que preocupa", afirma. Ele destaca ainda que o Copom mostrou uma postura bastante diferente do observado na reunião anterior --com uma preocupação maior com a inflação e com o cenário fiscal. "Ele [Copom] coloca uma frustração em relação à continuidade da agenda reformista e o quanto isso eleva os prêmios de risco. Por isso, vem destacando a cada ata a preocupação com as reformas e com essa agenda fiscal, que vem perdendo força", afirmou. Étore Sanchez, economista-chefe Ativa Investimentos, afirma que o Copom minimizou no comunicado o recrudescimento da pandemia e o aumento do isolamento social. "Ou seja, mesmo se piorar, o BC irá elevar os juros", afirma.