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Cooperação internacional amplia impacto da restauração ambiental, diz estudo

Daniela Chiaretti
·4 minutos de leitura

Nova pesquisa mostra que recuperar áreas prioritárias para a biodiversidade no mundo ajuda na proteção do clima e tem grande custo-benefício Um estudo inédito analisou o efeito sobre o clima e a biodiversidade da restauração de áreas prioritárias de florestas, pastagens, estepes, pântanos e ecossistemas áridos que foram substituídos por cultivos em todo o mundo. A proteção de 30% das áreas identificadas como prioritárias somadas aos ecossistemas que hoje conservam seu estado natural absorveriam o equivalente a 49% de todo o carbono que se acumula na atmosfera há 200 anos. Além disso, salvaria a maior parte das espécies ameaçadas de extinção. Este é um dos resultados do estudo “Global priority areas for ecosystem restoration” conduzido por 27 pesquisadores de 12 países e publicado hoje na revista Nature. A equipe líder do estudo é brasileira, coordenada pelo economista Bernardo Strassburg, diretor-executivo do Instituto Internacional para a Sustentabilidade. Trata-se do primeiro estudo global de áreas prioritárias para a restauração de ecossistemas. Fábio Nascimento/Agência O Globo Um dos aspectos da nova abordagem do estudo é que pode ser usada para grandes empresas interessadas em restaurar áreas prioritárias. A nova tecnologia pode melhorar a relação custo-benefício da investida em 13 vezes. O primeiro passo do trabalho foi identificar, de forma acurada, quais seriam as áreas prioritárias para conservação no mundo e que deveriam ser restauradas de forma a recuperar seu ecossistema original. O trabalho analisou todas as áreas convertidas para agricultura e pastagens no planeta e chegou a 2,87 bilhões de hectares de ecossistemas convertidos em terras agrícolas no mundo todo. Deste total, mais da metade (54%) era originalmente ocupado por florestas, 25% pastagens naturais, 14% estepes, 4% terras áridas e 21% pântanos. Depois de identificadas, explica Strassburg, a restauração destas áreas foram consideradas levando-se em conta três critérios — efeitos na biodiversidade, armazenamento de carbono e custo-benefício. A intenção era ver qual percentual de restauração traria mais benefícios para o clima, a biodiversidade e com menos custos. A ideia da nova metodologia — batizada de Plangea, uma plataforma que aplica vários critérios em um modelo matemático — é maximizar os efeitos na proteção do clima e da biodiversidade e minimizar os custos da restauração. Atuação conjunta Uma das conclusões é que, se todos os países restaurarem 15% de suas florestas, há redução de 28% dos benefícios ligados à biodiversidade, 29% na proteção ao clima e um aumento de 52% nos custos. Mas uma abordagem de alcance mundial e não apenas nacional teria muito mais benefícios para a biodiversidade (91%), para o clima (82%) e redução de 27% nos custos. “Esses resultados destacam a importância da cooperação internacional para alcançar esses objetivos. Cada país desempenha um papel diferente e complementar no cumprimento das metas globais de biodiversidade e clima”, diz o pesquisador. Ele exemplifica. “Se a Holanda for restaurar um terço do país, custará uma fortuna e os benefícios para o clima e a biodiversidade serão pequenos. Mas, se aplicar em outro país como Madagascar, por exemplo, os resultados serão muito mais significativos”. Strassburg lembra que este é precisamente o mecanismo por trás do Fundo Amazônia — restaurar ou conservar ecossistemas é muito caro e tem pouco impacto na Noruega, mas o efeito é o oposto na Amazônia. “A União Europeia, em seu Green New Deal, está se organizando para isso”, destaca o pesquisador. Ele lembra que o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, disse algo neste sentido ao mencionar os US$ 20 bilhões que poderia juntar em vários países para ajudar o Brasil a proteger a Amazônia. “Isso é uma oportunidade gigantesca para o Brasil”, diz ele. Outro resultado do estudo é que a restauração de diferentes ecossistemas produz benefícios diferentes e complementares, segundo nota distribuída à imprensa. A restauração de florestas e pântanos, por exemplo, proporciona mais benefícios para o clima e a biodiversidade, mas a reparação de pastagens e ecossistemas áridos é mais barata. “A restauração de florestas gera benefícios extremamente importantes e comprovados, mas nosso estudo mostra que restaurar uma variedade maior de ecossistemas pode beneficiar ainda mais a biodiversidade e contribuir mais para os objetivos climáticos”, diz o pesquisador. “Só conservar não resolve. Temos que conectar as áreas”, observa. Outro ponto fundamental é que a restauração de ecossistemas não perturba a produção agrícola ao reduzir áreas de cultivo. Os pesquisadores descobriram que 55% (mais de 1,5 bilhão de hectares) de ecossistemas transformados em áreas agrícolas poderiam ser restaurados sem interromper a produção de alimentos. Isso seria possível por meio de uma produção de alimentos sustentável e bem planejada, baseada em uma agricultura mais intensiva, na redução do desperdício de alimentos e na diminuição da produção de carne e queijo, que exigem grandes quantidades de terra e que, portanto, geram emissões excessivas de gases de efeito estufa, diz a nota. O novo estudo é uma saída às ameaças de que o mundo pode perder um milhão de espécies nas próximas décadas, segundo alertas da ONU. Diagnósticos têm mostrado que se está longe de cumprir as metas mundiais de biodiversidade conhecidas por metas de Aichi. Uma delas é a de restaurar 15% das áreas degradadas no mundo, o que seria algo próximo a 350 milhões de hectares. Isso seria o equivalente à área da União Europeia mais o Reino Unido.