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Você já teve aquela conversa difícil sobre flexibilização do isolamento com os seus amigos?

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·7 minuto de leitura
Group video call, virtual window frames, a diverse group of young characters gathering together online
Você já teve aquela conversa difícil sobre flexibilização do isolamento com os seus amigos? Foto: Getty Images

Por Ana Beatriz Rosa

A pandemia do coronavírus erodiu muitas coisas em nossas vidas. E a forma como nos relacionamos com as nossas amizades não passou ilesa aos meses de distanciamento social.

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Para muitos, o período em home office reverberou a saudade do contato diário entre um café e outro com os amigos do escritório. Ainda, os meses em isolamento serviram de filtro para entender quais as amizades eram sólidas o suficiente para se manter presentes, apesar dos poucos encontros presenciais.

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Mas o tempo em suspenso também minou aquele tipo de relação que ocupa um espaço importante em nossas vidas, ainda que não sejam as amizades de longas datas: havia toda uma leveza em encontros casuais de um jantar a cada três meses com pessoas que compartilhamos interesses, mas nem por isso precisamos dividir toda uma rotina. São todas essas relações que adicionam algumas camadas de alegria e carinho ao nosso dia a dia, e que existem a partir de uma simples premissa do “vamos marcar?”.

Com a flexibilização do isolamento social, assistimos ao retorno desses encontros, mas a ameaça do vírus permanece no noticiário e adiciona mais uma camada de complexidade à essas relações: a partir de agora, faz-se necessária uma conversa sobre exposição e mitigação de riscos, uma vez que os encontros casuais se tornam possíveis vetores de contaminação. Mas é preciso cuidado para que essa conversa não se torne uma daquelas conversas difíceis de se ter.

Os reencontros como pequenos rituais

“A primeira vez que eu reencontrei os meus amigos foi quase um ritual”, compartilha Taynã de Souza, 25 anos. “Já tive diversas fases em relação à pandemia nesses 7 meses, mas em todas elas permaneci em casa saindo apenas para as atividades essenciais. Meus amigos sabiam disso. Por isso, quando a saudade falou mais alto e eu decidi reencontrá-los, eu precisei garantir que as quatro pessoas estavam bem de saúde e respeitando o isolamento social. Ainda assim, eu senti muito medo e quase desisti. Foram duas semanas pensando sobre ir ou não.”

O dilema da jovem não é individual, e reflete uma série de reflexões de pessoas que ainda não se sentem à vontade para retornar a convivência social na mesma medida em que tinham nos meses pré-coronavírus. Para o psicanalista e professor da USP Christian Dunker, esse tipo de conversa se faz necessária uma vez que nem sempre partilhamos as mesmas réguas sobre o que seria confortável ou não em tempos de pandemia.

“A gente tende a ter uma visão ‘sanitáriocêntrica’ de que os cuidados de cada um devem ser iguais aos nossos. Mas a construção da segurança, que perpassa por medidas de isolamento, por exemplo, são pequenas decisões que mais tem a ver com o hábito e a necessidade de cada um. O fato de a gente nunca pensar sobre isso gera a suposição de que todo mundo compartilha da mesma medida e do mesmo método. E essa fase de reabertura da pandemia nos mostra exatamente o oposto”, explica o psicanalista.

Para Dunker, o que se dá é a construção de uma nova realidade em que estabelecer os limites do que seria adequado e seguro no retorno ao normal é um exercício formativo em que todas as partes contribuem, não só aquela que reage e impõe a sua vontade sobre o grupo.

Porém, há casos em que as conversas sobre medidas de precaução - como a utilização de máscaras e a manutenção do distanciamento de, no mínimo, 1 metro entre as pessoas, como orientado pelas autoridades em saúde - podem se transformar em confrontos hostis.

“É como se a gente sempre estivesse vivendo uma nova onda, mas não da Covid-19 em si, mas uma nova onda da dificuldade crônica que temos em lidar com as nossas diferenças”, explica o psicanalista.

Isso porque, na visão do psicanalista, nós sempre associamos a ideia de proteção ao amor. Ou seja, se você é lido como uma pessoa que não está se protegendo ou protegendo ao outro suficientemente, logo, você é lido como alguém que não sabe amar corretamente.

“Mas isso é uma ilação. Ou seja, uma suposição. E a única forma de diminuir os atritos que esse tipo de pensamento carrega é explicitando, e verbalizando, os valores em comum: tanto eu quanto vocè queremos cuidar dos nossos entes queridos”, explica.

A partir disso, cada indivíduo vai construir a sua estratégia de como retornar as atividades cotidianas. Para além dos encontros entre amigos, um exemplo muito vivo é a decisão que os pais vão precisar construir sobre o retorno das atividades presenciais nas escolas. Para alguns, é mais seguro manter as crianças em casa. Para outros, o custo emocional de privá-los da convivência com os amigos é muito alto do ponto de vista da saúde mental. Quem tá mais certo nessa equação?

“Nesses casos, é preciso tomarmos cuidado com os afetos de afronta e indignação. E para isso é preciso construir o diálogo, e não somente julgar o comportamento alheio”, defende Dunker.

O custo emocional de enxergamos o outro como uma ameaça constante

Atividades como ir ao cinema, frequentar parques e restaurantes já são permitidas pelas autoridades brasileiras. Apesar disso, ainda há a sensação de que estamos “quebrando o pacto coletivo” do isolamento social ao frequentar esses lugares, ainda que o período de isolamento social tenha exacerbado os casos de depressão e ansiedade, assim como todos os efeitos negativos da pandemia em relação à saúde mental.

“Eu ainda não me sinto segura, mas comecei a normalizar o retorno dessas situações e encontros com amigos justamente porque senti o quanto isso me beneficiou emocionalmente”, explica a advogada Ana*, 28 anos.

“É complexo, porque eu ainda sinto uma espécie de ressaca moral. Como assim eu me privei de ter contato físico com os meus pais e agora estou encontrando amigos? É uma confusão que se forma na cabeça, mas é difícil se manter numa bolha quando tudo já está sendo normalizado”, completa.

O retorno às atividades não essenciais situa os dois polos que precisam ser compreendidos em um contexto como o da pandemia.

O primeiro é o polo da prudência, em que cabe a cada um avaliar a situação, pedir informações sobre as pessoas que vão estar naquele recinto e consultar os protocolos de segurança de cada estabelecimento.

Porém, o outro lado da conversa é o polo da contingência. Ou seja, a gente passa a ter que assumir que não vamos ter controle sobre todas as situações.

“A contingência é um conceito intricado. Ela não tem a ver com o ‘e se’. Ela tem a ver com você reconhecer que não tem controle sobre o futuro. Ou seja, tem a ver com suportar a indeterminação e a incerteza”, explica Dunker.

Por mais que todos os protocolos estejam sendo seguidos, ainda há o risco da contaminação. Aqui, para o psicólogo Fred Mattos, o principal desafio é racionalizar o sentimento de medo.

“É compreensível se sentir inseguro, mas é preciso transformar o medo em precauções, não em determinações psicológicas”, explica.

Ou seja: eu uso a máscara e respeito o distanciamento social porque eu sei que essas são as medidas ao meu alcance. E para que eu não me desgaste emocionalmente a cada nova interação social, é preciso que a minha atitude parta do lugar da conscientização, e não apenas do medo.

“Eu uso a máscara não porque temo o que não está sob meu controle, mas porque eu aceito as medidas palpáveis dispostas para mim”, finaliza o psicólogo.

Como conversar sobre flexibilização e isolamento com os seus amigos

  • Não tenha vergonha de estabelecer seus limites e mostrar vulnerabilidade antes de combinar encontros com os seus amigos;

  • Verbalize e deixe claro quais são os seus pontos de atenção e os seus medos;

  • Na mesma medida, esteja aberto a construir um espaço seguro para que todas as pessoas se sintam confortáveis - ainda que isso signifique permanecer de máscara durante todo o encontro, preferir ambientes abertos e pedir para que cada um leve os seus itens de uso pessoal, como taças e copos;

  • Deixe claro se você se sente confortável com contatos físicos, como abraços e aperto de mão;

  • Não se deixe pensar que esse tipo de conversa vai afetar a intimidade que você tem com a sua amizade;

  • E lembre-se: não se trata de construir regras imutáveis, mas de perceber o espaço cinzento que existe entre o que eu e o outro entendemos como seguro.

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