Mercado abrirá em 2 h 6 min
  • BOVESPA

    110.334,83
    +299,66 (+0,27%)
     
  • MERVAL

    38.390,84
    +233,89 (+0,61%)
     
  • MXX

    44.784,58
    +191,67 (+0,43%)
     
  • PETROLEO CRU

    60,60
    -0,04 (-0,07%)
     
  • OURO

    1.728,30
    +5,30 (+0,31%)
     
  • BTC-USD

    48.929,54
    +1.552,67 (+3,28%)
     
  • CMC Crypto 200

    983,82
    -2,83 (-0,29%)
     
  • S&P500

    3.901,82
    +90,67 (+2,38%)
     
  • DOW JONES

    31.535,51
    +603,14 (+1,95%)
     
  • FTSE

    6.622,48
    +33,95 (+0,52%)
     
  • HANG SENG

    29.095,86
    -356,71 (-1,21%)
     
  • NIKKEI

    29.408,17
    -255,33 (-0,86%)
     
  • NASDAQ

    13.231,00
    -48,75 (-0,37%)
     
  • BATS 1000 Index

    0,0000
    0,0000 (0,00%)
     
  • EURO/R$

    6,7721
    -0,0235 (-0,35%)
     

Consumo de podcasts dobra: conheça quatro programas que estão dando o que falar

Natália Boere
·7 minuto de leitura

RIO — Em busca de uma outra frequência em tempos difíceis, muita gente passou a sintonizar nos podcasts, que viraram febre na pandemia. Segundo o Spotify, a oferta dessa espécie de programa de rádio on-line passou a ser quase duas vezes maior do primeiro para o terceiro trimestre do ano passado: cresceu de um milhão para 1,9 milhão no período. O consumo também praticamente dobrou em todo o mundo do primeiro para o segundo trimestre de 2020.

A analista de sistemas Renata Pinto faz parte do time dos neo-ouvintes contentes. Nunca tinha escutado um podcast até a jornalista Renata Araújo, do blog de turismo You Must Go, que acompanha desde 2017, lançar, em junho, o “Podcast de viagem”. E, com as malas compulsoriamente aposentadas enquanto a vacina não vem, passou a ter o fone de ouvido como novo melhor amigo.

— O fato de estar em home office acaba facilitando. Como sou eu que faço meus horários, consigo dar umas escapadas para distrair a cabeça. Criei um novo hábito. Paro para prestar atenção no que estou ouvindo, absorver as dicas e anotar. É a forma que tenho de “viajar” neste momento — constata a moradora de Copacabana, que cancelou uma viagem para o Canadá em maio do ano passado e não tem previsão de voltar a pisar num aeroporto.

A ausência de perspectivas de um avião no fim da pista fez Renata Araújo, que costumava passar 160 dias por ano viajando e produzindo conteúdo para o You Must Go (@youmustgoblog), aventurar-se pelo mundo dos podcasts. Com a experiência de quem já trabalhou como repórter para a Globo, o Multishow, o Telecine, o Canal Brasil e as redes americanas ABC, PBS e CNN, ela tirou o microfone da gaveta e convidou para parceira a amiga Claudia Beatriz Saleh, do blog Aprendiz de Viajante.

Assim nasceu o “Podcast de viagem”, com 23 episódios de cerca de 20 minutos já disponíveis nas plataformas digitais. Cada um traz conversas ou entrevistas sobre temas como dificuldades, passeios em cruzeiros, turismo gastronômico e moradia no exterior. Uma nova temporada está prevista para estrear no fim deste mês.

— Para mim era comum estar sempre num hotel ou num avião e, de repente, me vi sem trabalho e sem ter o que fazer. O podcast foi como um remédio para mim na quarentena. Serviu não só para ocupar a cabeça, mas para acalentar a nossa alma e a de muita gente — afirma Renata, que mora no Leblon.

Também foram o excesso de tempo ocioso e a vontade de produzir algo que impactasse positivamente outras pessoas na pandemia que fizeram o escritor e investidor Eron Falbo criar, no fim de março, o podcast de variedades “No alvo com Eron Falbo”. Especialista em línguas mortas, como grego antigo, hebraico e aramaico, jogador de tênis e de xadrez e fã de equitação e alpinismo, ele usa seus conhecimentos para extrair relatos inéditos de convidados como o empresário Ricardo Amaral, a jogadora de vôlei Fernanda Venturini e o filósofo italiano Massimo Pigliucci, considerado o maior especialista em estoicismo do mundo.

— Minha prioridade é sair do script. Gosto da conversa boa e faço questão de que meus convidados se sintam tão à vontade que eles acabam contando coisas que nunca tinham falado para ninguém —destaca Falbo.

Também cantor e compositor, ele já morou em Londres. Contratado da Universal Music, teve um disco com a assinatura de Bob Johnston (produtor de Bob Dylan e Johnny Cash) e foi empresariado por Tony Calder (promoter dos Beatles e dos Rolling Stones). Nascido em Brasília, Falbo morou ainda em Budapeste, onde foi consultor de negócios; em Israel, trabalhando no mercado financeiro; e em São Paulo, onde teve uma agência de músicos. Há um ano, aportou no Rio. Ele se preparava para abrir uma empresa de gestão de patrimônios por aqui quando o coronavírus disse “oi” em terras brasileiras. Aí se descobriu um homem da comunicação.

— Queria inspirar outras pessoas num momento em que estava todo mundo muito deprimido, descrente do governo e da política, e que a liberdade de expressão estava sendo posta em xeque — conta.

Além de podcast, disponível nas plataformas digitais, o “No alvo” é uma série de lives no Instagram (@eronfalbo): vai ao ar de segunda a quinta-feira, sempre às 20h. Nesta segunda, o convidado é o fundador da agência 40 Graus, Sergio Mattos, que revelou nomes como Gisele Bündchen e Cauã Reymond. Desde a estreia do projeto, Falbo já ganhou mais de cem mil seguidores na rede social. As transmissões são feitas da casa dele, no Leme.

— Se tem um lado bom da pandemia é que as fronteiras caíram. Eu não poderia estar oferecendo este conteúdo com pessoas tão legais com tão pouca estrutura — diz.

Mídia gratuita, de fácil acesso e democrática

Uma necessidade de mostrar ao mundo a história não contada das raízes africanas fez o jornalista Tiago Rogero procurar o Spotify em dezembro do ano passado propondo um podcast sobre o tema. Seria um desdobramento do “Negra voz”, podcast em cinco episódios vencedor do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos na categoria Produção Jornalística em Áudio que ele produziu quando era repórter do GLOBO. Em 4 de novembro, estreou o “Vidas negras”, um produto original do Spotify.

No programa, Rogero se aprofunda em assuntos como a ausência de documentação sobre os ancestrais de africanos ou em personagens como Esperança Garcia, mulher escravizada que, em 1770, escreveu uma carta ao governador do Piauí reivindicando melhores condições de vida e trabalho para sua comunidade. Ela foi considerada pela Ordem dos Advogados do estado nordestino como advogada e autora da primeira petição escrita por uma mulher no Brasil.

— Minha intenção era recuperar personagens negros que foram invisibilizados. Queria propor um olhar diferente para a História que nos é ensinada na escola e que as pessoas percebessem que muita coisa ficou faltando — afirma o jornalista, que mora no Leme.

A primeira temporada, com 15 episódios disponibilizados sempre às quartas-feiras, termina em 15 de fevereiro, e uma segunda já está confirmada: deve estrear ainda neste semestre.

A fisioterapeuta Shirley Villela, moradora do Catete que passou a ouvir podcasts em setembro e é fã do “Vidas negras”, conta que as quartas-feiras nunca foram tão esperadas.

— Fico ansiosa por um episódio novo. O “Vidas negras” veio para cobrir uma lacuna grande. As histórias que ele nos conta são de uma riqueza absurda — destaca Shirley.

Ela confessa que virou “a louca do podcast” na pandemia e atualmente acompanha cerca de dez:

— Não tinha o hábito e passei, por exemplo, a passear com o cachorro de manhã ouvindo o “Ogunhê”, sobre cientistas africanos. Em seguida, descobri o “Afrofuturo”, também sobre temas raciais. E depois veio o “Praia dos Ossos”, que foi arrebatador.

Trata-se de um podcast produzido pela Rádio Novelo (também responsável pelo “Vidas negras”) e disponível em 12 plataformas digitais que fala sobre o assassinato da socialite Ângela Diniz pelo bon vivant Doca Street nos anos 1970. O crime chocou o país e acabou impulsionando o movimento feminista no Brasil. Lançado em setembro, o projeto, eleito o favorito dos curadores da Apple Podcasts e cujos direitos foram comprados pela Conspiração Filmes para virar série de TV, já soma 1,4 milhão de reproduções de seus oito episódios.

— Surpreendeu muito a rapidez com que alcançamos esta marca — afirma Paula Scarpin, diretora de criação da Rádio Novelo e moradora do Flamengo.

Ela conta que foi a ideia para o “Praia dos Ossos” que inspirou a criação da Rádio Novelo, em março de 2019, junto com a pesquisadora americana Flora Thomson-Deveaux, sua mulher, e a linguista Branca Vianna. Na pandemia, a produtora atingiu a marca de 20 podcasts e 15 milhões de visualizações.

— Queríamos muito fazer um projeto de jornalismo narrativo que explorasse as possibilidades de reportagem em áudio, com trilha sonora. Somos feministas e nos apaixonamos muito por essa história, que fala sobre feminicídio e injustiça. Mas não queríamos ser uma produtora de um projeto só — diz Paula.

Outro podcast lançado recentemente que foca em um episódio histórico é “O direito de pensar — Uma viagem radiofônica ao julgamento do macaco”, da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj). Espécie de radionovela, disponível nas plataformas digitais, conta a história de um professor de ciências americano que, em 1925, foi julgado por ensinar a Teoria de Darwin a seus alunos do ensino médio. Os seis episódios foram gravados via Zoom, com cada um dos 19 membros do elenco — incluindo juízes e desembargadores — atuando de suas casas.

— Tivemos que adaptar nossos projetos presenciais que estavam previstos por causa da pandemia. Escolhemos o podcast por se tratar de uma mídia gratuita, de fácil acesso, que as pessoas podem ouvir onde, quando e como quiserem — resume Sílvia Monte, diretora de projetos artísticos da Emerj e moradora de Copacabana.

SIGA O GLOBO-BAIRROS NO TWITTER (OGlobo_Bairros)