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‘Consciência Africana’: Como o petróleo e o turismo viraram potências econômicas do continente

·8 min de leitura
Tambores artesanais tradicionais à venda na Lesedi Cultural Village, na África do Sul,
Tambores artesanais tradicionais à venda na Lesedi Cultural Village, na África do Sul. (Foto: Getty Images)
  • Países africanos aceleraram o crescimento econômico nos últimos anos

  • Segundo professor especializado em estudos sobre África, a maior parte dos minérios que interessa hoje para as indústrias novas e velhas se encontram em solo africano

  • Mudanças climáticas e baixo acesso à vacinação para Covid-19 impactam esse crescimento

Texto: Fernanda Rosário

Nos últimos 20 anos a economia africana acelerou seu crescimento, ao contrário do imaginário social que reserva apenas a pobreza e os conflitos para o continente de 54 países com realidades e peculiaridades distintas. Com uma economia muito pautada pela alta demanda da exportação de recursos naturais, como petróleo, gás e minérios, o continente despontou como um lugar de investimentos para países como a China

Segundo o professor Paris Yeros, da Universidade Federal do ABC e especializado no estudo sobre países africanos, houve uma evolução das estruturas econômicas ao longo dos últimos 40 e 50 anos, especialmente a partir da crise dos anos 70 e com as descobertas de petróleo e gás. Nesse cenário, a mineração continuou muito forte no continente africano. “A maior parte dos minérios que interessa hoje para as indústrias novas e velhas se encontram em solo africano”, completa o professor.

É também no continente africano que estão 10% das reservas mundiais estimadas de petróleo. A Nigéria desponta em 15° lugar como um dos países que mais produzem o recurso no mundo, segundo dados elaborados pelo Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás. O país africano também possui o maior Produto Interno Bruto (PIB) do continente, seguido por Egito e África do Sul, de acordo com dados de 2021 do Statista.

Nigéria é o 15° país que mais produz petróleo no mundo. (Foto: Grant Durr/ Unsplash)
Nigéria é o 15° país que mais produz petróleo no mundo. (Foto: Grant Durr/ Unsplash)

Líbia, Angola, Argélia e Egito também se destacam como grandes produtores de petróleo dentro do continente. Já a África do Sul é uma economia muito pautada na exploração de seus minérios. É o maior produtor de metais do grupo platina, um dos maiores produtores de ouro e o sétimo entre os maiores produtores de diamantes do mundo.

Yeros destaca que, apesar de Nigéria e África do Sul terem economias muito diferentes uma da outra, são muito extrovertidas, ou seja, com um setor econômico voltado para a exportação.

“Há uma economia na Nigéria dominada pelo petróleo, embora tenha uma população muito grande que vive no campo e da agricultura. Esse tipo de economia é conhecido tanto na África como em outras regiões do mundo, onde o petróleo se torna o recurso a ser disputado e controlado pelos setores internos e externos, com poucas ligações com o resto da economia e, inclusive, tendo essas ligações com conflito”, destaca.

O professor também pontua que é a partir da mineração na África do Sul que se deu a industrialização do país no século 20, depois da Primeira Guerra Mundial.

Um setor econômico que absorve a maior parte da população do continente até hoje é a agricultura. O Quênia se destaca pela agricultura orgânica e a Etiópia e Uganda estão entre os 10 maiores produtores de café do mundo.

Mulher prepara a tradicional Cerimônia do Café, que faz parte da cultura da Etiópia. (Foto: Getty Images)
Mulher prepara a tradicional Cerimônia do Café, que faz parte da cultura da Etiópia. (Foto: Getty Images)

“No continente, 70% da população trabalha direta ou indiretamente na agricultura. Esse continua sendo um setor central, mesmo que menos valorizado em termos de investimento e políticas públicas”, destaca Yeros.

Segundo o professor, turismo e serviços em geral também são categorias econômicas muito grandes e que têm absorvido cada vez mais pessoas que saem do campo. “Lá existe um fenômeno conhecido no mundo inteiro que é da expansão do setor de serviços de maneira bastante informal”.

O turismo desempenha uma fonte importante de rendimentos para países como Egito, Marrocos, Tunísia e Cabo Verde. A visitação de animais selvagens em parques naturais também contribui para os rendimentos do turismo de alguns países. De 2011 a 2014, esse setor representou cerca de 8,5% do PIB (Produto Interno Bruto) no continente e gerou mais de 21 milhões de empregos, segundo dados do Relatório sobre Desenvolvimento Económico em África 2017.

Relações do continente com outros países

De acordo com Paris Yeros, a independência econômica dos países do continente africano melhorou, em comparação com o longo período de colonialismo que se deu nas diferentes nações, mas ainda não foi o suficiente para resolver todos os problemas gerados por essa exploração. A influência ocidental na África ainda é grande, principalmente devido às empresas multinacionais e de finanças que lá existem.

“A economia extrovertida é a âncora dessa dependência. Em termos de investimento, de controle de empresas estrangeiras, a África continua dependente do Ocidente”, explica Yeros.

Nos últimos anos, a China foi o país que mais investiu no continente africano, com parcerias em atuações como empresas de petróleo, construção civil e telecomunicações. Hoje, mais de 10 mil empresas chinesas fazem negócios com a África.

“A China se tornou o principal parceiro comercial de muitos países da África. Não quer dizer que a China é também o maior investidor ou que as empresas chinesas são aquelas que mais investem no continente ou mantém controle sobre a mineração e as terras”, explica Yeros.

O professor também conta que a maneira com a qual a China tem se relacionado com o continente tem diferenças da forma tradicional colonial e do modo como o Ocidente se relaciona com o continente.

Segundo Yeros, “por um lado, se tem contradições nessa relação, por se colocar novamente muita ênfase nos recursos naturais, como minérios, petróleo e gás. Por outro, se tem também muito investimento para a infraestrutura, desde a logística, como estradas e ferrovias, até hospitais”.

Ele também explica que a China, “apesar das questões de dívida que surgem nessa relação, não cria armadilhas através dessa dívida para prender os países africanos. E um terceiro aspecto muito importante é que a China não tem militarizado as suas relações econômicas com a África”.

Impactos da pandemia e das mudanças climáticas na economia

A pandemia do coronavírus gerou impactos econômicos para os países. A África Subsaariana, parte do continente ao sul do deserto do Saara, foi a região com o mais fraco crescimento em 2021, de acordo com a mais recente edição das “Perspectivas Econômicas Regionais: África Subsaariana”.

Segundo as previsões, o PIB per capita de muitos países também não voltará aos valores de pré-pandemia antes de 2025. O acesso reduzido a vacinas e o conflito que ocorrem em alguns países são fatores que se somam ao desafio da recuperação econômica dos países.

De acordo com dados do FMI (Fundo Monetário Internacional), espera-se que a crise de Covid-19 provoque um retrocesso após anos de progressos econômicos e sociais. Projeta-se, inclusive, que o número de pessoas da África Subsaariana que vivem na pobreza extrema tenha aumentado em mais de 32 milhões de pessoas em 2020 e o rendimento per capita retornou aos níveis de 2013.

A maior parte da população trabalha com a agricultura. (Foto: Annie Spratt/ Unsplash)
A maior parte da população trabalha com a agricultura. (Foto: Annie Spratt/ Unsplash)

Outro fator importante que influencia a economia dos países são as mudanças climáticas. Apesar de ser um dos continentes que menos, historicamente, contribuiu com a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, é um dos que mais sofre. Segundo o Índice de Vulnerabilidade à Mudança Climática de 2018, oito das dez cidades mais vulneráveis a choques climáticos estão no continente africano.

“Secas, por exemplo, são muito recorrentes hoje em dia. Há 20, 30 anos atrás não eram. É um problema muito sério, porque como a maior parte da população vive direta ou indiretamente da agricultura, quando esse setor é atingido por mudanças climáticas, há um perigo existencial para o continente”, pontua o professor.

Para Yeros, é preciso responsabilizar o Ocidente a assumir responsabilidades sobre essas consequências. “Esse é um ponto de negociação. O Ocidente tem que assumir as suas obrigações para com o resto do mundo, inclusive a África. Isso significa reduzir a sua emissão de gases de efeito estufa e fazer uma transição rápida para outro modo de consumo. O que a África vem fazendo é com poucos recursos, temos que lembrar que adaptação climática também exige recursos. Pela maneira em que se construíram essas economias também há falta de poupança para isso”, explica.

Crescimento econômico não é inclusivo

O professor especializado no estudo sobre países africanos também chama a atenção para que não se perca de vista que o crescimento econômico que a África teve nos últimos anos, antes da pandemia, não significou a ausência de complicações com leis trabalhistas e ambientais, por exemplo. O continente ainda sofre com problemas que comprometem seu crescimento, principalmente, social.

O crescimento econômico que se deu nos países nas últimas décadas não foi inclusivo e milhões de pessoas ainda vivem na pobreza extrema, reflexo também de uma exploração colonialista que se deu por anos nos territórios.

“A lógica extrovertida emprega pouca gente. Especialmente na mineração, as relações de trabalho são péssimas. São setores que produzem bens de alto valor no mercado e que comandam alto valor no mercado internacional, mas que são controlados também por monopólios estrangeiros que dificultam a captação do valor produzido pelos países e pelos estados nacionais”, completa Paris.

Nesse contexto, melhorar aspectos econômicos, sociais e democráticos dos países africanos também faz parte dos objetivos da União Africana, organização criada em 2002 e que reúne 55 países da África, contando o Saara Ocidental, que ainda não é reconhecido internacionalmente e pela ONU.

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