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Conhecer melhor perfil do cliente ajudaria a reduzir spread, diz professor da USP

Rodrigo Carro e Gabriel Vasconcelos

Além disso, para Márcio Nakane, é preciso que o país conheça melhor as práticas concorrenciais do setor O professor de economia da Universidade de São Paulo (USP), Márcio Nakane, afirma que para o setor bancário oferecer taxas de juros mais atrativas e reduzir o spread terá, necessariamente, de conhecer mais a fundo o perfil dos usuários. Além disso, na visão dele, é preciso que o país conheça melhor as práticas concorrenciais do setor, o que também é papel da academia.

Márcio Nakane é professor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP)

Reprodução/FEA/USP

Nakane, que participou do seminário “Precisamos falar sobre juros”, promovido pela Febraban e pelos jornais “O Globo” e Valor, reconhece que os juros e os spreads dos bancos brasileiros estão entre os mais altos do mundo, mas afirma que caíram na comparação com 20 anos atrás. Isso, diz o professor, comprovaria alguma evolução, ainda que reste um longo caminho para uma redução maior.

“A situação melhorou muito e, se continuamos em torno desse debate sobre juros e spread altos, é porque há questões estruturais por trás disso”, afirmou Nakane.

Entre elas, o professor lista o grau de inadimplência e a composição do custo do dinheiro no Brasil. No entanto, para além dessa discussão mais técnica, será preciso alcançar um “melhor ambiente institucional”, e, sobretudo, avançar nos conhecimento do perfil dos usuários e as estratégias dos concorrentes.

“As questões concorrenciais do setor bancário são mais complexas que as dos demais setores. Uma das peculiaridades está na alta assimetria de informações: o cliente conhece muito mais de si mesmo do que o banco. Sabemos muito pouco sobre a importância quantitativa desse elemento [perfil dos usuários]”, afirma.

Outra zona cinzenta para os bancos seria o impacto das estratégias comerciais em um negócio multiprodutos. “Um cliente usa vários serviços em um banco, faz várias transações, tem aplicações e por aí vai. Para segurar esse cliente, cobra-se menos por um produto e mais por outro, mas a gente simplesmente tem poucos estudos sobre essa dinâmica intramercado”, diz.

Nesse ponto, afirma, a falta de dados abertos é o maior obstáculo. Na visão de Nakane, a falta de informações sobre as estratégias concorrenciais não se deve a uma política das instituições, mas ao monopólio de informações bancárias do Banco Central e à legislação relativa a sigilo bancário.