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Conheça as mulheres que deram início à revolução dos cachos no Brasil

Gisele Bündchen e seus cabelos longos, loiros e ondulados se transformaram no sinônimo da beleza brasileira. Embora suas madeixas sejam maravilhosas, a maioria dos habitantes do Brasil tem cabelos cacheados ou crespos, que são completamente diferentes dos fios da top model que estamos acostumados a ver em propagandas na televisão.

O estereótipo de que cabelos mais soltos e lisos são mais bonitos, faz com que muitas meninas e mulheres sintam vergonha da forma como seus cachos crescem de suas cabeças. Leila Velez conhece muito bem esta sensação.

Quando era criança, Leila implorou que sua mãe transformasse seus cachos grossos em mechas lisas semelhantes às de uma prima. Sua mãe finalmente cedeu aos pedidos e aplicou um tratamento alisador em seu cabelo, mas os resultados foram “terríveis” e ela chorou “por dias e dias”.

Uma década depois, Leila embarcou num projeto para “mudar esta realidade” para meninas e jovens mulheres, ao fundar o Beleza Natural, um centro de cuidados para os cabelos, no Brasil, onde pessoas com fios ondulados, cacheados e crespos têm acesso a serviços e produtos que promovem um cabelo saudável e equilibrado, com um preço justo.

Zica Assis e Leila Velez, as duas fundadoras do Beleza Natural. (Foto: Beleza Natural)

“Eu queria ter certeza de que as mulheres conseguiriam construir sua autoestima e amor-próprio, com base no que elas realmente são, em vez de tentar se adaptar a um estereótipo do que é a beleza,” disse Leila ao Yahoo Beauty.

Leila mergulhou de cabeça em sua paixão e a combinou isso com o tino comercial que desenvolveu aos 16 anos, como uma das gerentes mais jovens do McDonald’s no país. A fundadora adjunta, Zica Assis, usou as habilidades que adquiriu em cursos de cabeleireiros para criar produtos específicos para pessoas como ela, que queriam “cachos mais macios e fáceis de manejar”. As duas, juntamente com os parceiros de negócios Rogerio Assis (irmão de Zica) e Jair Conde, fundaram o Instituto Beleza Natural no Rio de Janeiro, em 1993.

Leila admite que eles enfrentaram muito ceticismo quando estavam abrindo o negócio. “As pessoas pensavam que éramos loucos e que isso não iria funcionar,” ela conta. Isso não nos surpreendeu já que o status social no Brasil, muitas vezes está relacionado ao tipo e à textura do cabelo, e os fios crespos costumam ser associados a pessoas com menos recursos.

Mas como diz o ditado: “Se você construir, eles virão”. Leila tem um brilho de orgulho no olhar quando lembra de como as clientes do Beleza Natural viajavam milhares de quilômetros em caravanas para serem atendidas, pois moravam em cidades onde ainda não há unidades de atendimento. A viagem vale a pena, já que os serviços do salão têm preços relativamente acessíveis.

Leila Velez, fundadora adjunta e CEO do Beleza Natural. (Foto: Beleza Natural)

“Nós tivemos que desenvolver as nossas próprias técnicas – não havia um livro de regras,” diz Leila. “É claro que na Bahia e em outros estados havia técnicas antigas de tranças e penteados afro, mas nós queríamos mais. Queríamos criar produtos e técnicas novas para cuidar dos cabelos cacheados e ter muitas escolhas diferentes à disposição dos clientes. Nós temos tantas opções para os cabelos lisos, então por que não oferecê-las também para o nosso tipo de cabelo?”

As jovens se uniram à universidades locais e usaram a ciência para formular produtos capilares, tirando vantagem da biodiversidade do Brasil. “Há muito açaí, cacau e manteiga de murumuru – isso é ótimo!” diz Leila.

Os produtos do Beleza Natural também contêm óleo de coco. No entanto, Leila diz que a escolha e o teor de concentração são o que faz a diferença em relação a outras marcas que listam o óleo de coco como ingrediente. Ela acrescenta: “Toda vez que nós lançamos um produto, fazemos inúmeros testes para garantir a sua segurança. Todos os nossos produtos são criados em parceria com nossos clientes e nossa equipe. Eles trazem as suas preocupações e desafios para nós”.

O local não usa as tabelas tradicionais para agrupar os tipos de cabelos, que empregam letras e números que vão de 2A a 4C. Em vez disso, eles classificam os cachos com base na estrutura bioquímica do cabelo. De acordo com Leila, isso lhes permite obter um entendimento mais profundo a respeito de por que alguns cachos se comportam de forma diferente de outros, e criar linhas de produtos específicas para as necessidades de cada tipo.

Zica Assis, fundadora adjunta e embaixadora do Beleza Natural. (Foto: Beleza Natural)

A experiência no salão do Beleza Natural é realmente incomparável. Os clientes aguardam numa sala de espera cheia de estilo antes de conversarem com a consultora de cabelos, que os entrevista em um ambiente íntimo e acolhedor, para entender as suas fibras capilares, os tratamentos anteriores que já realizaram, suas expectativas, e quanto tempo estão dispostos a passar arrumando os cabelos.

“É um trabalho de educação,” diz Leila. “Nós queremos educar os nossos clientes para evitar o efeito ‘Cinderela’ – você sai linda do salão, mas em casa a história é diferente”.

Estes aprendizados são reforçados em vídeos silenciosos que ficam passando em telas posicionadas acima das estações de lavagem.

O passo final da experiência de salão do Beleza Natural: apreciar o resultado num provador especial, onde Leila diz que os clientes “podem se sentir estrelas” antes de desfilar por uma passarela com um espelho de corpo inteiro. Há inclusive um ambiente especial para as crianças, com tronos no lugar das cadeiras.

“Nós queremos muito ser uma comunidade centrada em fazer as pessoas se sentirem bem,” diz Leila. “Não é só o aspecto da beleza e a sua aparência, mas a forma como você se sente. No final das contas, todos nós somos iguais. Queremos ser respeitados e amados”.

Como resultado, os clientes do Beleza Natural são os rostos que você verá em suas campanhas e imagens de marca. Leila explica: “Nós não usamos modelos pagas em nossos meios de comunicação. Não queremos uma bela atriz ou modelo que não vai mostrar o resultado final que meu cliente terá”.

Vinte anos depois, o Beleza Natural expandiu e possui 45 unidades, espalhadas por 5 estados do Brasil, uma linha completa de produtos para cabelos cacheados, e uma fábrica com seu próprio centro de pesquisa e laboratório de desenvolvimento. A empresa também emprega 4 mil pessoas, metade deles, antigos clientes.

Agora, o Beleza Natural está pronto para dominar o mundo, abrindo seu primeiro salão nos Estados Unidos em agosto deste ano, no bairro de Harlem, em Nova Iorque.

“Para mim o foco da empresa não são os xampus – isso é a minha vida, e é uma missão para mim e meus parceiros. No Brasil, embora sejamos a maioria, ainda enfrentamos muitas ideias pré-concebidas sobre etnia, raça e diferenças demográficas sociais,” diz Leila. “Nós podemos promover algo que pode mudar a vida de uma pessoa, e ela pode se sentir empoderada a fazer um trabalho melhor ou voltar a estudar. Não é uma questão de cabelo, e sim de identidade”.

Dana Oliver
Beauty Director
Yahoo Beauty