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Conheça Internum, um jogo brasileiro cuja demo foi criada com apenas R$ 150

Wagner Wakka
·7 minuto de leitura

Quando se olha a demo de Internum, é difícil acreditar que aquilo foi feito por apenas duas pessoas, com somente R$ 150, revezando o tempo de trabalho em um computador nada potente.

O jogo traz um personagem bem animado, andando em um espaço que parece uma prisão. Há salas com documentos, uma bandeira do Brasil, outra de Porto Alegre, e algumas mecânicas de exploração. Tudo que cheira muito bem a um título AAA.

Com fortes influências de Silent Hill e Resident Evil, a ideia nasceu de dois irmãos de Porto Alegre, Douglas e Matheus Martin, em 2016, mas só foi chegar às mãos dos jogadores mesmo em 2018.

Os dois, hoje, encabeçam a Unbelievable Gameworks, que, além do desenvolvimento de jogos, também vende projetos para outras companhias relacionados a serviços 3D. A empresa carrega quatro funcionários, contando com os irmãos, mas começou sem nenhum investimento, em um computador compartilhado.

A demo zero

Douglas e Martin são fãs de jogos de terror e colocaram na cabeça que gostariam de fazer o seu próprio título. Internum seria, então, um survival horror investigativo em 3° pessoa que se passa em 1985 e conta a história de Audrey Martins. A personagem é uma investigadora que precisa entender acontecimentos inexplicáveis na penitenciária de Monte-Castelo.

Contudo, fazer um jogo no nível de Resident Evil ou Silent HIll é um desafio e tanto, até mesmo para as consolidadas Capcom e KONAMI, que detêm tais franquias. Imagine para dois irmãos com apenas um computador.

Em 2017, a dupla começou a montar o que será chamada aqui de “demo zero” de Internum. A proposta era testar mecânicas, cenários, motor gráfico e ver o que ambos poderiam fazer até retirar a ideia do papel. Para fazer o projeto, o computador que eles dividiam servia de ferramenta não só para desenvolver a demo, mas também para estudar as técnicas e apreender como se faz um bom game no estilo survival horror.

“Eu trabalhava um tanto e, quando ia dormir, o Matheus entrava no lugar e fazia a parte dele. 12 horas cada um mais ou menos”, explica Douglas, o mais velho, hoje com 23 anos.

<em>Matheus cochilando entre um trabalho e outro da demo (Foto: Reprodução/Instagram @ugameworks)</em>
Matheus cochilando entre um trabalho e outro da demo (Foto: Reprodução/Instagram @ugameworks)

Eles conseguiram criar o material, o qual seria usado para uma campanha de financiamento coletivo. Em 2017, o cenário via grandes e pequenos estúdios conseguindo lançar seus games com apoio independente vindo do público. Segundo levantamento do IcoPartners, naquele ano, mais de 2 mil games foram financiados só no Kickstarter, plataforma que vivia um ápice. Era o que eles queriam.

Contudo, mesmo com uma boa dose de técnica e movimentação em 3D, a campanha não deu certo. Ainda assim, eles queriam levar o projeto adiante.

Os dois fundaram a Unbelievable Game Studios, com a proposta de desenvolver Internum e, quem sabe, mostrar o projeto para alguém que se interessasse em publicar. Vendo que o crowdfunding não foi um sucesso, perceberam que era preciso melhorar.

Demo um

O vídeo citado no início deste texto não é uma referência à demo zero. Em meados de 2018, esta versão se perdeu. Os irmãos precisavam atualizar a Unreal Engine e, no meio do caminho, não souberam lidar com a questão. O resultado foi catastrófico.

“Eu estava dormindo. Era umas quatro da manhã, quando meu irmão me cutuca: ‘Douglas, eu acho que a gente perdeu tudo’. Levantei suando, as pernas até bambas. Vi que não tinha nada, só uma árvore que ficou no meio do cenário”, conta Douglas, em meio a risadas.

Isso mesmo, ele se lembra da história sorrindo. O problema, na verdade, foi a falta de experiência da dupla que não soube como adaptar tudo. O resultado? Eles recomeçaram tudo. Do zero.

“Hoje, eu penso que foi a melhor coisa. Foi um renascimento interno. A gente precisava desapegar um pouco de algumas decisões e essa foi uma boa oportunidade”, explica Matheus.

Voltaram os irmãos para o computador compartilhado novamente, em regime de 12 horas. Assim, eles conseguiram refazer a demo, agora chamada de “demo um”, e que deu projeções para os dois.

Contudo, esta versão de demonstração ainda é pequena, traz pouco da história. Não conta ainda com a personagem principal, Audrey, nem um contexto. A proposta é mostrar algumas mecânicas de exploração, além da capacidade de criar um ambiente bonito e fluido para Internum.

<em>Demo empresta mecânicas como a de Resident Evil (Imagem: Wagner Wakka/Canaltech)</em>
Demo empresta mecânicas como a de Resident Evil (Imagem: Wagner Wakka/Canaltech)

Aqui, já é possível ver as referências principais da dupla. A movimentação do robô-teste lembra Resident Evil, com a câmera bem colada ao ombro. Nos momentos de acionar botões e interagir com objetos, a câmera fica em primeira pessoa. Eles adicionam detalhes em quadros e paredes para garantir uma gameplay mais imersiva. Tudo com muita inspiração das principais franquias de survival horror dos últimos anos.

Vale ressaltar: isso feito com apenas R$ 150, sem contar o investimento de tempo de ambos e o computador que dividiam. “Isso foi para comprar assets, cenários, texturas. A gente não era rico, e nem é, na verdade. Então, tivemos que escolher bem a dedo”, comenta Douglas.

Investimento

Apesar de ainda não ser o jogo que ambos querem colocar no mercado, a demo um de Internum se transformou no portfólio dos irmãos. Veja bem: imagine chegar para qualquer empresa e dizer: “fizemos isso com um computador compartilhado e R$ 150”.

Foi assim que, em 2019, a Unbelievable Game Studios virou Unbelievable Gameworks, uma mudança de nome que refletia também na postura. Os irmãos conseguiram pegar projetos que permitiram uma entrada de dinheiro, logo, novos investimentos.

“Depois da demo um, muitas pessoas viram nosso trabalho e a gente conseguiu pegar alguns projetos para fora. A gente não queria depender de uma publisher. Assim, a gente fez dinheiro girar e financiar nosso projeto” pontua Matheus.

Foi só em meados de 2019, três anos depois da idealização de Internum, que eles pararam de dividir o mesmo computador e puderam ir para um potente PC extra.

Com isso, hoje, eles contam com quatro pessoas na equipe, além de eventuais contratações quando precisam de algo específico.

E Internum?

Bom, melhor estruturados, eles conseguem concentrar mais forças no jogo que fez nascer tudo isso. Além do game, também se concentram em outro projeto que preferem não divulgar.

O trabalho principal, contudo, é fazer a demo dois de Internum. Agora, não há mais só o aspecto técnico, mas grande parte das mecânicas do jogo final. Esta demo já vai contar com Audrey, criada com captura de movimentos. O ambiente também já deve ser o final, com esta versão já pincelando mais sobre a narrativa do game a ser lançado.

Douglas fica focado nos personagens e desenvolvimento da história, enquanto Matheus cuida de toda ambientação. A dupla ainda conta com Anderson Morales, perito que foi chefe da Seção de Perícia de Local de Crime em Porto Alegre e é consultor para dar veracidade ao universo de Internum. Por fim, Guilherme Padilha colabora na programação de tudo.

“Não queremos só um jogo com mecânicas jogadas assim, sem motivo. A gente quer um ambiente que faça sentido para o jogador entrar, mesmo”, explica Matheus.

Portanto, a demo dois já não é mais desenvolvida com R$ 150. Aliás, vai muito além disso. A companhia já investiu R$ 20 mil neste projeto. A proposta é tentar lançar a demo dois ainda em 2020, com o intuito de apresentar o projeto para mais gente.

<em>Matheus (à esquerda) e Douglas (à direita) acompanhados de Anderson (Foto: Reprodução/Instagram Ugameworks)</em>
Matheus (à esquerda) e Douglas (à direita) acompanhados de Anderson (Foto: Reprodução/Instagram Ugameworks)

Os irmãos estão apostando todas as suas fichas nisso. A expectativa é de que eles ainda precisem de, pelo menos, mais R$ 30 mil para lançar um jogo com 6 a 8 horas de campanha. Para um título AAA, R$ 50 mil reais de investimento não é nem o começo.

Quando Internum vai chegar?

Quanto a essa pergunta, os irmãos ainda não conseguem precisar uma data. “O jogo completo vai depender da demo dois. Assim que a gente tiver uma demo dois, podemos ter mais investimentos e terminar o jogo em um ou dois anos. Mas se a gente tiver que autofinanciar o projeto, vai demorar mais”, finaliza Douglas.

O time ainda carrega uma campanha de financiamento coletivo no Apoia.se. Eles buscam uma meta de R$ 1 mil por mês, mas contam com menos de R$ 400 mensais.

Caso você queira experimentar a demo um, já publicada, bastante entrar no site da Unbelievable Gameworks.

Fonte: Canaltech

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