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Conheça a chef brasileira que foi a primeira mulher a entrar na Academia de Culinária da França

·6 minuto de leitura

SÃO PAULO — Nos últimos meses, circula na internet a informação de que a brasileira Célia Regina Miranda Dalla Colletta de Mattos, de 46 anos, é a primeira mulher a ingressar na secular Academia de Culinária da França. Celinha, como é conhecida, ri e conta que, embora o assunto tenha estourado nas redes sociais só agora, a proeza de integrar o grupo de imortais da cozinha francesa ocorreu em 2016 e, na época, ela mesma se surpreendeu:

— Quando entrei para receber o título fui parada três vezes. Me indicavam a ala de convidados. Quando enfim fui chamada ao palco, todos se levantaram e aplaudiram em pé. Eu não entendi o que tinha feito para tamanha homenagem. Pensei: "Será que é porque sou negra?" — lembra.

Formada principalmente por homens brancos, a Academia havia sucumbido à aplicada, alegre e falante chef brasileira.

Só meses depois da cerimônia é que ela descobriu, por meio de outro chef amigo do casal, que foi a primeira mulher a ser aceita na Academia — que só abre vaga quando um dos titulares morre. É como a Academia Brasileira de Letras. Também promove encontros mensais, interação de chefs, discute novos ingredientes e promove a culinária ao redor do mundo.

Célia acredita que a informação sobre ela ganhou impulso nas redes sociais com a discussão do racismo e da violência contra os pretos, após os protestos iniciados ano passado pela morte de George Floyd por um policial de Mineápolis (EUA) e a campanha Black Lives Matter, que ganhou o mundo.

— A questão racial está mais presente na vida das pessoas. O empoderamento feminino também. Imagino que seja isso — diz ela.

Célia nasceu em Barra Bonita, município do interior de São Paulo às margens do Rio Tietê. Filha de um mecânico e uma empregada doméstica, Celinha se destacou desde cedo pela aplicação nos estudos. Era sempre a primeira da classe, a oradora da turma, a que lia poesias.

Filha do segundo casamento da mãe, quando nasceu já tinha três irmãs adolescentes e a mãe, dona Ditinha (Benedita), era uma espécie de conselheira da juventude local, a que acolhia todos.

— Desde cedo me acostumei à diversidade. Minha casa em Barra Bonita era uma babilônia o tempo todo. A gente sempre conviveu com todo mundo.

Jovens gays que não sabiam como falar com os pais, nordestinos que iam morar na cidade para trabalhar no corte de cana de açúcar, dona Ditinha era amada por todos. Não tinha separação. E foi isso que a filha aprendeu.

Aos 17, Celinha concorreu com 300 jovens e conseguiu uma das duas bolsas de intercâmbio da ONG AFS, criada no pós-guerra e que tem como missão permitir entendimento entre diferentes culturas, contribuindo para evitar conflitos. Por um ano, morou com uma família negra na Carolina do Norte, nos EUA, muito parecida com a sua própria família — ambas tinham seis filhos. Foi lá que, pela primeira vez, teve um quarto só dela.

A casa, num condomínio habitado principalmente por famílias negras, era enorme e a adolescente brasileira mantinha seu quarto com exímio cuidado e limpeza. Tanto fez que o cômodo virou ponto "turístico" para as visitas da mãe americana.

— O quarto da minha irmã parecia um depósito de lixo. E eu passava as manhãs de sábado limpando e organizando meu quarto. Estava acostumada a fazer isso no Brasil. Aprendi a dar valor a tudo o que conquisto. Estar nos Estados Unidos era uma conquista e eu tinha que valorizar aquilo, inclusive ter um quarto só meu — relembra.

Foi depois da festa de aniversário dela que ouviu a única observação da mãe: "Da próxima vez que for trazer tantos brancos para a nossa casa me avisa antes".

— Eu via a diferença no refeitório da escola. Tinha o grupo de brancos de um lado, de pretos de outro. Mas tinha no meio um grupo misto, que se gostava, e era nele que eu ficava — conta Celinha.

De volta ao Brasil, mesmo com inglês fluente, só conseguiu em sua cidade um emprego de caixa num supermercado.

— Existe o racismo sim, eu não consegui um trabalho melhor, mesmo sendo qualificada.

Foi incentivada pelas irmãs mais velhas a morar na capital paulista, com os tios. Conseguiu o primeiro trabalho como secretária numa empresa de peças para elevadores. Poucos meses depois foi selecionada para lecionar inglês numa rede de escola de idiomas. A escola pagou sua faculdade de tradutora e intérprete.

Ganhava bem e já morava sozinha quando, em 2001, saindo de um período de fossa por ter terminado um namoro, foi com uma amiga num bar da fervilhante Vila Madalena, na zona Oeste de São Paulo. Lá começou a trocar olhares com Gustavo Dalla Colletta de Mattos. Na saída, escreveu o telefone num pedaço de papel e entregou a ele.

Gustavo achou que era número falso. Mas guardou e ligou. Era dia de festa de Halloween na escola onde Celinha lecionava e ela chamou Gustavo para ir. Nunca mais se desgrudaram. Publicitário, empreendedor e filho de um industrial do ramo de cosméticos, Gustavo passou a frequentar a casa dela. Na dele, havia cozinheira. Na dela, os dois é que tinham de se virar na cozinha, revelando a alma de chef da dupla.

Foi o sogro que patrocinou a ida do casal para um curso de culinária na França, na famosa escola Le Cordon Bleu, em 2005, ano do Brasil na França. A essa altura, Célia, que tinha estudado um ano de francês durante o intercâmbio nos Estados Unidos, já se comunicava com todo mundo por sua facilidade com idiomas. Os dois trabalharam em restaurantes renomados de Paris, mas não por muito tempo. As cerca de 16 horas diárias em torno de fogões cansou a dupla, que optou por organizar jantares para pequenos grupos.

— Gostamos muito de gente, de viajar, conhecer outras culturas. Gastronomia é como moda, é fashion. Temos de estar sempre procurando ingredientes novos ao redor do mundo — explica Célia.

Na ampla e bem equipada cozinha do apartamento, com vistas para a Torre Eiffel, a dupla criou o Chez Nous, Chez Vous (Nossa casa, sua casa), com menu degustação e completo, harmonizado com vinhos. Como os restaurantes fecham cedo na capital francesa, a ideia agradou não só brasileiros, mas quem gosta de tomar um vinho com calma e comer num ambiente mais aconchegante, sem hora certa para ir embora. O serviço ganhou destaque em jornais como o "Le Figaro" e "The New York Time" e menção no Guia Michelin.

Com viagens constantes ao Brasil para visitar a família, Célia e Gustavo, que têm também cidadania italiana, se lançaram num novo negócio. Investiram numa destilaria de cachaças premium em Torrinha (SP), cidade dos avós de Gustavo e onde ele nasceu e — coincidência do destino — fica a apenas 50 km de Barra Bonita.

A Destilaria Octaviano Della Colletta homenageia no nome o avô dele. A primeira cachaça premium, Alzira, prestes a ser lançada, homenageia a avó de Gustavo, que completa 100 anos em setembro próximo.

A pandemia pegou o casal no Brasil. Com isso, há praticamente dois anos o Chez Nous, Chez Vous está fechado — só funciona pelas mãos dos dois. Célia e Gustavo estão hoje na Flórida, nos Estados Unidos, onde foram em busca de vacina contra a Covid-19, já que a chegada dos imunizantes ao Brasil demorou. Como Gustavo tem comorbidade e eles adoram percorrer o mundo, fizeram quarentena no México antes de ir para a casa alugada. Em agosto, retornam ao Brasil.

Nos planos está ainda transformar a Fazenda Basalto, onde fica a destilaria, num ponto de turismo rural, como ocorre com as principais vinícolas do mundo. A cachaça Alzira, por exemplo, tem sofisticado processo de envelhecimento e foi criada para ser tomada gelada, em taça, tal como espumante. Uma outra cachaça mais sofisticada, batizada apenas de "C", ainda não tem data para chegar ao mercado.

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