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Conheça Angie, a influencer virtual 'imperfeita' que faz sucesso nas redes ao desafiar padrões de beleza

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SHENZHEN, China — Ela não tem pele de seda, não usa roupas de grife, mas vem revolucionando o universo das influenciadoras digitais. Trata-se de Angie, uma influencer que apareceu pela primeira vez no ano passado, e tem feito sucesso nas redes sociais chinesas, mostra reportagem da CNN.

Na verdade, Angie não é uma influencer típica — e nem mesmo é uma pessoa real: é uma personalidade virtual "imperfeita". Tem uma beleza convencional, e não desfila em passarelas ou promove novas canções. Em vez disso, usa camisetas brancas simples, bebe Coca-Cola e, às vezes, pode ser vista com o rosto vermelho e até com uma ou duas espinhas.

Em um vídeo postado no Douyin, versão chinesa do TikTok, a pele de Angie parece 'meio irregular', e um bocejo rápido revelou dentes ligeiramente tortos.

Foi o bastante para os internautas começarem a reagir: "Sua pele está um pouco seca", comentou um usuário. "Você deveria aplicar uma máscara facial" "Ela não tem o rosto de uma celebridade", comentou outro usuário.

Imperfeições à parte, é justamente essa aparência mais próxima à realidade que vem fazendo sucesso no Douyin: Angie já tem mais de 280 mil seguidores.

Angie é uma criação de Jesse Zhang, diretor de uma empresa de animação com sede em Shenzhen.

Em entrevista à CNN, Zhang contou que estava procurando uma maneira de expressar sua criatividade e achou que seria divertido criar um personagem virtual com características imperfeitas — alguém que pudesse ajudar as pessoas a relaxar e se sentir mais positivas sobre si mesmas.

A influencer virtual começou a tomar forma em julho de 2020 e, em três meses, Zhang postou o primeiro vídeo de sua personagem no Douyin. Em dezembro passado, ela já havia conquistado cerca de 100 mil seguidores.

Ídolos virtuais mais realistas

— Não achei que ela fosse decolar tão rápido —, admitiu Zhang, atribuindo sua popularidade aos vídeos casuais e calmantes

Ele completou:

— Suas características e detalhes têm um pouco desse sentimento de 'vida real', mas ela também tem algumas coisas que uma pessoa real não teria. Suas orelhas são um pouco como as de uma fada e seus olhos são redondos, grandes e fofos — acrescentou.

Os influenciadores virtuais não são novidade na China. De acordo com a CNN, Ling, a primeira do país a se tornar viral, foi criada em maio de 2020. Com sua mandíbula acentuada, rosto esguio e lábios rosados, Ling reflete um ideal de beleza tradicional chinês.

Capa da Vogue

Em fevereiro, ela apareceu na capa da Vogue Me, uma revista de moda voltada para a geração "pós-anos 90" da China, ao lado de celebridades da vida real.

Os fãs afirmam que Angie traz um alívio em um país onde a demanda por cirurgia plástica está crescendo e os aplicativos de beleza competem para criar filtros que mostram aos usuários versões mais bonitas de si mesmos.

E, apesar de saber que Angie não é real, muitos de seus seguidores costumam contar sobre o seu dia a dia nas conversas em grupo no Douyin. Quem responde no lugar de Angie, claro, é Zhang, que aproveita suas horas livres para ''conversar'' com os internautas.

Ele conta que muitos deles pedem para que falem sobre coisas da vida e afirmam que Angie os ajuda a desestressar e se animar.

"Enquanto me preparava para tirar uma soneca à tarde, vi o seu vídeo e fiquei com um humor ainda melhor!", escreveu um seguidor.

Padrões de beleza em debate

As críticas à aparência de Angie refletem os debates em andamento sobre os padrões de beleza na China. Embora haja sinais de que as atitudes podem estar mudando lentamente, as celebridades femininas costumam ser magras e de pele viçosa.

Ainda há uma enorme pressão para que as mulheres sigam determinados padrões de beleza, afirmou Jaehee Jung, professora de estudos de moda e vestuário da Universidade de Delaware, em entrevista à CNN.

Sua pesquisa sobre a percepção de atratividade entre estudantes universitários em Xangai mostrou que a maioria queria mudar algo em sua aparência, como ter corpos mais magros ou olhos maiores.

— Muitas dessas jovens pensam: 'Uau, você tem que acompanhar as tendências de beleza', caso contrário, é considerada desplicente". Acho que é revigorante que você encontre uma figura totalmente oposta, que é quase como uma pessoa normal — disse a pesquisadora.

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