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Confinamento: críticas sobre o 'alarmismo' de modelagens e estimativas científicas

Por Paul RICARD
Artistas durante homenagem a pessoas que morreram vítimas do novo coronavírus, e em protesto em defesa da democracia, no Complexo Cultural da República em Brasília, em 8 de junho de 2020

Centenas de milhares, se não milhões, de mortes por COVID-19 em cada país? Esse cenário sombrio convenceu alguns governos a optarem pelo confinamento, mas vozes se elevam para criticar o "alarmismo" das simulações, em que se basearam.

"Demos muito peso a esses modelos", disse à AFP o diretor do Instituto de Pesquisa Biomédica e Epidemiologia do Esporte (Irmes), professor Jean-François Toussaint.

"O caso mais flagrante é o dos 500.000 mortos que convenceram os governos: este é o exemplo típico de um uso não muito sério da ciência", acrescenta outro cientista francês contrário ao confinamento, Laurent Toubiana.

Ele se refere aos trabalhos que tiveram uma influência considerável após a publicação pela Imperial College de Londres em 16 de março. Assinados pela equipe do professor Neil Ferguson, previram até 510.000 mortes na Grã-Bretanha e 2,2 milhões nos Estados Unidos, se nada fosse feito para conter a pandemia.

No processo, França, Reino Unido e outros países europeus optaram por um confinamento estrito.

"Preferimos ouvir as pessoas mais alarmistas", suspira Laurent Toubiana, enfatizando que o número real de mortes está muito abaixo desses piores cenários.

Estes foram desenvolvidos usando modelos e simulações informáticas com base nas informações disponíveis sobre a doença no momento de sua realização (contagiosidade, mortalidade, entre outros).

"Esses modelos matemáticos dependem de muitos fatores para serem confiáveis", afirma o professor Toussaint.

No caso da COVID-19, uma doença nova e, portanto, pouco compreendida, "as condições básicas nos escapam", o que pode levar a "desvios extremamente fortes" entre as previsões dos modelos e a realidade.

No Reino Unido, os modelos de Neil Ferguson se tornaram objeto de uma dura batalha política entre apoiadores e opositores do confinamento.

No começo de maio, aquele que foi apelidado pelos tabloides de "professor confinamento" teve de renunciar como assessor do governo britânico. A causa de sua queda foi a revelação do "Daily Telegraph" de que ele havia violado as regras de confinamento ao autorizar uma mulher, apresentada como sua amante, a visitá-lo.

- "Imperial Plantage" -

Além do caso pessoal do professor Ferguson, especialistas em computação criticaram seu modelo, acusado de ser obsoleto e até errôneo.

A Imperial College London respondeu em 1o de junho. Anunciou que este programa informático havia passado por uma avaliação de especialistas independentes, que foram capazes de reproduzir os resultados do famoso relatório de 16 de março.

Uma semana após o anúncio, o restante do relatório foi divulgado na segunda-feira. Sua conclusão: o confinamento permitiu evitar 3,1 milhões de mortes em 11 países europeus, em comparação com as primeiras estimativas de mortes em potencial na ausência de qualquer medida.

"O Imperial Plantage of London tenta justificar seus erros 'a posteriori'", atacou o professor Toussaint.

Além de divulgar diretamente seus relatórios anteriores sobre a COVID-19, a Imperial College submeteu esse trabalho a uma prestigiosa revista científica, a "Nature", para que pudesse ser validado por outros cientistas independentes.

No final de maio, o jornal "Financial Times" informou que a publicação havia sido adiada pela "politização" do debate sobre o confinamento no Reino Unido.

Já os especialistas em modelagem argumentam que não são bolas de cristal, mas ferramentas que veem o pior para poder evitá-lo.

"A modelagem não deve ser interpretada como um resultado absoluto: é uma fotografia no momento T, baseada nos últimos dados conhecidos, um pouco como uma pesquisa", explicou em meados de maio à AFP Nicolas Hoertel, psiquiatra e modelista no Hospital Corentin-Celton, perto de Paris.

Ele foi coautor de um modelo, segundo o qual o confinamento salvou 100.000 vidas na França.

"Certamente existem limites importantes" para a modelagem, "mas, nesta fase, essas são as únicas ferramentas científicas disponíveis para esclarecer uma decisão sobre o aspecto da saúde", continuou ele.

Além disso, os tomadores de decisão garantem que a modelagem não era o único critério para o confinamento em março.

"É claro que contamos com a modelagem (...) Uma das modelagens, por exemplo, estimou que teríamos, se não confinássemos a população, entre 120.000 e 150.000 mortes", disse no domingo na BFMTV Jean-François Delfraissy, presidente do Conselho Científico responsável por aconselhar o governo francês durante a epidemia.

"Mas os modelos são apenas modelos", destacou, acrescentando que as observações de campo também pesavam, já que havia um influxo em massa de pacientes com COVID-19 nos hospitais.

Além disso, a decisão final foi, de fato, "uma decisão política", ressaltou.