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'Confinada': sucesso on-line, HQ com influencer e doméstica em quarentena vira livro

·5 min de leitura

“Como vocês são criativos!”Leandro Assis e Triscila Oliveira ouviram variações desse elogio enquanto criavam e postavam no Instagram os 70 capítulos da história em quadrinhos “Confinada”, entre os setembros de 2020 e 2021. A dupla, no entanto, ressalta: a quarentena ficcional da influencer Fran com sua empregada Ju durante a pandemia foi recheada com fatos dolorosamente reais.

— Às vezes alguém comentava algo na linha “nossa, nessa última tirinha forçaram demais”. Aí eu colava o link da notícia que tinha nos inspirado — comenta a roteirista Triscila. — Toda a vez que você pensar “isso aqui não existe”, lembre-se que a gente tá no Brasil.

Após bombar na internet, o gibi chega agora às livrarias pela Todavia — a pré-venda no site Catarse atendeu a uma demanda de 8 mil cópias, com a contrapartida de doações de exemplares para bibliotecas comunitárias. O lançamento virtual é quinta-feira, 19h, nos canais de Youtube da editora e da livraria Dois Pontos, com participação dos autores, do quadrinista Rafael Calça e da ativista Preta Rara.

Finalizada agora no formato de livro, com novas ilustrações entre as páginas de nove painéis do formato original, “Confinada” é um registro histórico, uma retrospectiva do que Brasil viveu no último par de anos, entre ondas de Covid e variantes de males nacionais ainda sem vacina.

Seja no luxuoso bairro de condomínios à beira-mar onde ambas estão isoladas ou na favela ao lado (que lembram São Conrado e a Rocinha, no Rio), estão lá as festas clandestinas, a empáfia negacionista, a pobreza que virou miséria, as notícias tristes que teimaram em se repetir 600 mil vezes e as raras mas marcantes razões para se ter esperança.

Isso no macro. No micro, “Confinada” mostra como o tal novo normal —muitas vezes “flagrado” por celulares, sacada visual que dá identidade à série — ressaltou o velho conflito de classes, turbinado pelo convívio à força entre patroa e empregada. O isolamento delas escancara nosso elitismo, racismo e atraso — e nossa capacidade de rir do absurdo, como na cena em que Ju dispensa o convite de Fran para gravar uma dancinha e mostrar nas redes “que você gosta de fazer quarentena comigo” (ver ao lado).

— Nesse formato, de maneira aparentemente lúdica, a gente traz um discurso sério, estão ali as nossas desigualdades escancaradas — analisa Leandro.

Parceria à distância

Essa história tão brasileira começa em Portugal. Tendo atuado em publicidade, cinema e TV, escrevendo e produzindo, desde 2019 Leandro Assis, a mulher e a filha partiram para o país europeu numa espécie de autoexílio. Instalado no Porto, ele deu vazão a uma atividade antes restrita a momentos de lazer ou longas reuniões: desenhar.

Essa reinvenção como quadrinista veio na forma de uma tirinha que se propunha a analisar com olhar impiedoso a elite brasileira, especialmente o segmento que apoia o atual presidente (“queria fazer um Globo Repórter dos bolsominions: quem são, do que vivem, do que se alimentam”, brinca o quadrinista). Em fevereiro de 2020, ele passou a publicar em seu perfil no Instagram “Os Santos”, tira em que brancos de classe média surgem à mesa contando “piadas” sobre negros e pobres, indiferentes às empregadas negras e pobres que lhes servem. São pessoas que Leandro conhece bem.

— Eu sou bem daquela família — diz ele, que cresceu na Zona Sul do Rio. — Lembrei de piadas que ouvia dentro de casa em relação às empregadas, conversando com minha mulher surgiram as mesmas histórias. Tem coisas horrorosas, que ainda não tive coragem de colocar na série.

Conforme os pecados dos “Santos” foram ganhando leitores, Assis passou a receber mensagens de gente que se reconhecia na família titular, sim, mas principalmente nas empregadas. Entre elas estava Triscila Oliveira, de Niterói. Ativista antirracista que já trabalhou como doméstica e conhece várias delas, ela trazia um repertório de histórias e um jeito particular de contá-las. Conversas via WhatsApp — eles até hoje não se encontraram presencialmente — deram em parceria. Triscila se tornou co-autora da tira, e ambos também são hoje chargistas da Folha de S. Paulo.

Em meados de 2020, (“quando a Covid não passou”, brinca Triscila), os dois se deram conta que era momento de dar uma pausa em “Os Santos” para fazer um desdobramento da HQ. A ideia era focar nos causos que brotavam, via leitores e noticiário, relacionados à pandemia — que estava sendo especialmente cruel com as empregadas domésticas.

‘Joga meu nome no Google’

Leandro buscou na sua experiência em marketing (do qual hoje quer distância) para imaginar a vida digital de Fran, musa fitness de traços anoréxicos patrocinada por várias marcas. Já Triscila trouxe muito de sua vivência e das mulheres do seu entorno para compor Ju.

— Triscila é a guardiã do universo dessas mulheres socialmente vulneráveis em nossas histórias — diz Leandro. — Ela me traz detalhes que não tenho, enriquece a HQ de uma maneira que eu sozinho não conseguiria.

Do meio pro fim da história, personagem e criadora começam a se assemelhar. Na cena em que Ju se apodera do celular de Fran para denunciar aos seguidores da patroa os abusos que sofre, as palavras são de Triscila, engasgadas durante boa parte de seus 36 anos: “Nesse país eu tô errada só de existir. (...) Pra vocês, só tem um um jeito de eu não estar no erro: baixando a cabeça e servindo sem reclamar.”

— Aquela fala da Ju sou todinha eu — diz Triscila, contando que está “tentando virar blogueira” e trabalha no rascunho de seu primeiro livro. — Minha família não faz ideia no que eu trabalho. Compro alguma coisa e perguntam: “daonde tá vindo esse dinheiro?” Dá uma vontade de chegar bem soberba: “joga meu nome no Google, compadre”.

Como dupla, os planos são de retomar em breve a HQ “Os Santos”, interrompida em agosto de 2020 no capítulo 24. A ideia é continuar explorando desigualdades e preconceitos do Brasil — ou seja, assunto não vai faltar.

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