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Confiança do consumidor tem maior queda em 8 meses com alta da carne

Alessandra Saraiva

Dissipação do efeito da liberação de saques do FGTS também influenciou indicador da FGV em janeiro A carne mais cara e a dissipação do efeito da liberação do FGTS, autorizada no ano passado, esfriou o ânimo de consumo e levou a confiança do consumidor à mais intensa queda em oito meses. A análise partiu de Viviane Seda Bittencourt, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), ao comentar a evolução do Índice de Confiança do Consumidor (ICC). O indicador caiu 1,2 ponto entre dezembro do ano passado e janeiro de 2020, para 90,4 pontos, a queda mais forte desde maio de 2019 (-3,9 pontos), informou a especialista.

Para a técnica, há uma cautela maior em compras entre consumidores, que abrange as faixas de renda altas e baixas, o que confere dúvidas a qual será a trajetória futura do indicador. “Temos mais razões para acreditar que o índice volte a subir. Mas alguns fatores de incerteza na nossa economia podem mudar isso”, comentou.

Na composição do ICC, tanto a avaliação de momento presente quanto as perspectivas apresentaram saldo negativo. O Índice de Situação Atual (ISA), um dos dois sub-índices do ICC, caiu 0,9 ponto entre dezembro e janeiro, para 78,7 pontos. O Índice de Expectativas (IE) recuou 1,4 ponto, para 98,9 pontos.

Ao falar sobre o momento presente, a técnica comentou que, em janeiro, o consumidor não conta mais com a possibilidade de acessar parte do FGTS, nem pagamentos de 13º salário ou outras bonificações. Além disso o mês é historicamente conhecido por concentrar pagamentos extras por parte do consumidor, como reajustes de mensalidades escolares e impostos como o IPVA. Além desses desembolsos previstos, o consumidor teve que lidar com a forte inflação da carne bovina, cuja oferta diminuiu no mercado doméstico devido ao maior ritmo de exportações, por conta da demanda chinesa.

Sobre o futuro, a especialista comentou que ainda há incertezas no front externo que podem afetar a economia brasileira. O cenário de economia externo apresenta sinais de turbulência, como epidemia de coronavírus na China, embate comercial entre Estados Unidos e China e tensão no Oriente Médio. “Esses efeitos externos que acabam influenciando nossa economia podem se agravar ou melhorar”, observou.

Entretanto, ela comentou que, no cenário interno, o emprego começa a mostrar sinais de reação, com bons resultados apresentados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), com a abertura de 644.079 vagas com carteira assinada em 2019. Há também, no momento, um ambiente macroeconômico próprio ao consumo, com juros baixos, inflação controlada e boa oferta de crédito.

Ou seja, na prática, há fatores positivos que podem conduzir a uma retomada sustentável na confiança do consumidor – mas essa trajetória pode ser afetada por choques, admitiu ela. “Vamos esperar para ver o que vai acontecer com os próximos resultados [do ICC]”, afirmou, comentando que isso daria visão mais clara de tendência do indicador para este ano.