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Conceição Evaristo diz que houve cegueira e burrice da ABL ao barrar Munduruku

·3 min de leitura
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL 07.11.2019: Conceição Evaristo (escritora). Cerimônia de entrega do Prêmio Trip Transformadores, no Auditório Ibirapuera. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL 07.11.2019: Conceição Evaristo (escritora). Cerimônia de entrega do Prêmio Trip Transformadores, no Auditório Ibirapuera. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A candidatura de Conceição Evaristo provocou um dos momentos mais tumultuosos da Academia Brasileira de Letras, três anos atrás. A escritora afirma agora que não vê possibilidade de ser aceita, caso se candidate de novo, e que a entidade deu demonstrações de cegueira e burrice ao não eleger Daniel Munduruku, que foi preterido a uma cadeira que acabou indo para o médico Paulo Niemeyer Filho.

"Lá dentro da Academia, assim como tem as cabeças pensantes, tem também um monte de cabeça adormecida", afirma a autora. "As cabeças pensantes, se pensam numa casa que representa a brasilidade, é uma injustiça, uma cegueira, uma inconsciência, uma burrice ter deixado o Munduruku de fora. Além da representatividade, ele tem produtividade."

A escritora de "Ponciá Vicêncio" afirma que não questiona a entrada da atriz Fernanda Montenegro e do compositor Gilberto Gil na instituição.

"Gosto de pensar que há várias maneiras de ler e produzir um texto. Ele não é fornecido só através do livro. Fernanda fornece através da arte de representação, pelo corpo, pela voz. Gil nem se discute. É um grande poeta. Compõe poesia e coloca uma musicalidade."

Além disso, ela diz não contestar as duas eleições porque "apesar de se chamar Academia Brasileira de Letras, parece que o estatuto permite a entrada de pessoas que sobressaiam em qualquer área de cultura". "Fora isso, parece também que são permitidas pessoas que não sobressaiam em área nenhuma."

As expectativas de Evaristo para o ano da ABL, que viu a eleição de quatro novos imortais para cadeiras deixadas vagas durante a pandemia, eram animadoras. Ela esperava que se incorporassem "uma atriz, um poeta cantante e um grande literato, o Munduruku, que além do mais representa a origem do povo brasileiro".

Acabou frustrada, como os muitos leitores de sua obra que fizeram campanha e abaixo-assinado para que Evaristo passasse a integrar a Casa de Machado de Assis em 2018. Ela acabou recebendo apenas um voto, e o cineasta Cacá Diegues foi eleito para a cadeira que antes era de Nelson Pereira dos Santos.

"As pessoas dizem que eu devo insistir numa nova candidatura. Eu não vejo muita possibilidade, não, de o meu nome passar. Cada vez, inclusive, que eu falo sobre isso, mais eu vou fechando espaço. Mas eu tenho dito, o interessante não é você ser a primeira, o interessante é abrir espaços. Nesse sentido, a minha candidatura foi muito valiosa, questionou a própria Academia sem eu dizer muita coisa."

O repórter comenta que as candidaturas de Evaristo e Munduruku tinham em comum uma pressão externa de campanhas populares sobre a Academia --também houve uma petição com mais de cem assinaturas em defesa do nome do educador indígena--, o que costuma deixar os imortais incomodados.

"Em sã consciência, você acha que não houve pressão para que Fernanda e Gil entrassem?", responde ela. "Vai dizer que ninguém ligou para lá ou se manifestou? Quando a imprensa se dizia satisfeita com a entrada de Fernanda e Gil, não era uma fala neutra. Essa pressão houve. Só que uma pressão é aceita e outra, não. A Academia teria coragem de, se um dos dois se candidatasse, deixar de fora? Não teria, meu filho."

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