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Líderes mundiais pedem ações urgentes em prol da segurança alimentar

Líderes mundiais pediram nesta terça-feira (20) que se intensifiquem os esforços contra a crescente insegurança alimentar, agravada pela convergência de crises, pela invasão russa e a falta de fertilizantes.

Em declaração conjunta, emitida ao final de uma reunião ministerial à margem da Assembleia Geral da ONU em Nova York, Estados Unidos, União Europeia, União Africana, Colômbia, Nigéria e Indonésia afirmam seu "compromisso de agir de forma urgente, global e concertada para responder às extraordinárias necessidades alimentares de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo".

Em particular, se comprometeram a aumentar o apoio financeiro às agências humanitárias e a não introduzir restrições nos mercados de alimentos e fertilizantes, cuja produção querem aumentar.

Esta reunião ocorre após o G7 de junho, quando as principais potências prometeram dedicar cerca de US$ 5 bilhões para combater essa fonte de instabilidade.

"Não há paz com fome e não há luta contra a fome sem paz", disse o chefe de governo espanhol, Pedro Sánchez, e seu colega alemão, o chanceler Olaf Scholz, pediu "agir com senso de urgência".

O presidente argentino, Alberto Fernández, assegurou na ONU que "a Argentina cumprirá seu papel de fornecedor confiável de alimentos saudáveis". "Não podemos atravessar esta época com episódios de fome", ressaltou.

O presidente americano, Joe Biden, discursará na quarta-feira na ONU e anunciará planos de ajuda, disse sua secretária de Estado, Antony Blinken.

- Fome -

Em seu discurso na ONU, o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou nesta terça que a França financiará "a saída de trigo ucraniano para a Somália", um país assolado pela fome.

Enquanto isso, o presidente peruano, Pedro Castillo, considerou "necessário dar continuidade ao acordo que permite a exportação de cereais da Ucrânia e (...) fazer os ajustes para normalizar as exportações russas de fertilizantes".

A Rússia foi acusada de pôr a segurança alimentar em risco com a invasão da Ucrânia, somada a outros fatores de crise como a pandemia de covid, que alterou as cadeias de abastecimento, e as mudanças climáticas.

"A verdade é que [o presidente russo, Vladimir] Putin está chantageando a comunidade internacional, usando a arma dos alimentos", disse Sánchez.

Os Estados Unidos fizeram da segurança alimentar uma prioridade diplomática, apontando a responsabilidade da Rússia. Por outro lado, muitos países do Sul insistem nesta questão no contexto mais amplo da crise climática e dos preços da energia.

Os líderes destacaram o caráter "vital" do chamado acordo do Mar Negro, que permite a saída dos grãos ucranianos, do qual dependem muitos países do Oriente Médio e da África.

Este acordo, assinado em julho pela Rússia e pela Ucrânia, com o aval da ONU e da Turquia, permitiu retomar as exportações de cereais ucranianos.

"Contra o que diz a desinformação de Moscou, estes cereais e outros produtos alimentícios vão parar onde são necessários, ou seja, os países mais vulneráveis, especialmente no Sul", disse Blinken. O acordo também tem contribuído a "reduzir os preços" e "deve ser renovado e com urgência", acrescentou.

Segundo um relatório recente do americano Observatório de Conflitos, a Ucrânia perdeu cerca de 15% de sua capacidade de armazenamento de grãos desde o início da guerra com a Rússia, em fevereiro.

Isso afeta a capacidade ucraniana de continuar com seu papel de celeiro para muitos países aos quais fornece trigo, milho e girassol, em particular.

- Necessidade de fertilizantes -

"Está claro que a atual interrupção das cadeias de abastecimento e a guerra afetarão as próximas colheitas. Há cerca de uma ou duas colheitas por ano e este ano já não tivemos", advertiu Álvaro Lario, presidente do Fundo Internacional de Fomento à Agricultura (FIDA), em entrevista à AFP.

Lario também mencionou que a Rússia é um importante produtor de fertilizantes e alertou para a necessidade de investir "milhões de dólares" para mudar o modelo atual de produção.

O especialista fez alusão a uma convergência de crises - mudanças climáticas, pandemia e conflitos - e à necessidade e investir "centenas de milhões de dólares" ao ano para mudar o modelo de desenvolvimento.

"Conhecemos as soluções e temos como desenvolvê-las", mas "o que falta atualmente é vontade política, em termos de investimento", acrescentou.

Em um relatório divulgado em julho, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), o Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmaram que "entre 702 milhões e 828 milhões de pessoas foram afetadas pela fome em 2021", ou seja, 9,8% da população mundial.

São 46 milhões a mais do que em 2020 e 150 milhões a mais do que em 2019, anos marcados pela pandemia da covid-19.

"Em 2022, há alimento suficiente no mundo, o problema é a distribuição desigual", disse o secretário-geral da ONU, António Guterres.

"Se não estabilizarmos o mercado de fertilizantes em 2022, não haverá alimentos suficientes em 2023", alertou.

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