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Comunidade internacional condena abusos policiais no sétimo dia de protestos na Colômbia

Lina Vanegas en Bogotá
·3 minuto de leitura
Um policial de choque dispara gás lacrimogêneo contra manifestantes durante um protesto contra a reforma tributária em 3 de maio de 2021 na cidade colombiana de Cali

A ONU, a União Europeia e organizações de direitos humanos denunciaram nesta terça-feira(4) o uso desproporcional da força policial colombiana para controlar quase uma semana de protestos violentos contra o governo que deixaram dezenas de mortos e centenas de feridos.

“Estamos profundamente alarmados com os acontecimentos ocorridos na cidade de Cali (sudoeste) na Colômbia na noite passada, quando a polícia abriu fogo contra os manifestantes que protestavam contra a reforma tributária, matando e ferindo várias pessoas, segundo informações recebidas”, disse Marta Hurtado, porta-voz do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR).

O que começou na quarta-feira como uma nova manifestação contra uma reforma tributária já retirada se transformou em graves protestos contra o governo e confrontos com a força pública.

Na manhã desta terça-feira, pessoas tomaram as ruas e bloqueios foram levantados em rodovias da capital e de Cali, a terceira cidade do país e a mais afetada pelos distúrbios.

Hurtado fez “um apelo à calma (...) Dada a situação extremamente tensa, com militares e polícias destacados para acompanhar os protestos”.

Defensores dos direitos humanos e ONGs denunciam ameaças e casos de violência policial, que incluem civis mortos pelas mãos de homens uniformizados.

A União Europeia aderiu às advertências e pediu que se "evite o uso desproporcional da força".

Na segunda-feira, a Defensoria Pública do país registrou 19 mortos e 89 desaparecidos durante os dias de protesto no país.

O Ministério da Defesa contabilizou 846 feridos, sendo 306 civis.

- Cali, foco de protestos -

Os protestos e confrontos inflamaram a capital do departamento de Valle del Cauca, Cali, na noite de segunda-feira.

A cidade de 2,2 milhões de habitantes está militarizada desde sexta-feira por ordem do governo.

A Secretaria de Segurança local registrou cinco mortos nesta terça-feira e 33 feridos durante as manifestações e excessos no dia anterior.

O defensor público (ouvidor), Carlos Camargo, denunciou que uma pessoa da entidade, juntamente com outra da Procuradoria-Geral da República - encarregada de apurar irregularidades de funcionários - e três defensores dos direitos humanos, foram agredidos pela força pública enquanto prestavam assistência a detidos em Cali.

Os cinco "foram ameaçados por agentes da polícia nacional que dispararam repetidamente para o ar e para o solo, atiraram granadas de atordoamento, abusaram verbalmente deles e exigiram que abandonassem o local", afirmou.

A ONU participou dessa comissão, mas não foi "alvejada diretamente", de acordo com seu escritório local de direitos humanos no Twitter.

O ministro da Defesa, Diego Molano, evitou referir-se ao ataque e garantiu que policiais e militares são vítimas de ataques orquestrados por grupos armados.

“O destacamento da força pública foi muito grande, sem precedentes, uma coisa apavorante (...) eles não entram negociando com a comunidade mas atirando nos cidadãos”, disse Yonny Rojas, da Fundação Créalo, que zela pelos Direitos Humanos em Siloé, um bairro de Cali.

Molano anunciou na sexta-feira a chegada a Cali de mais de 700 soldados, 500 homens da força de choque (Esmad), 1.800 policiais e dois helicópteros para apoiar a força pública local.

“Lembramos às autoridades do Estado sua responsabilidade de proteger os direitos humanos, inclusive o direito à vida e à segurança pessoal, e de facilitar o exercício do direito à liberdade de reunião pacífica”, advertiu a porta-voz do ACNUDH.

O presidente conservador Iván Duque enfrenta protestos sem precedentes nas ruas desde que chegou ao poder em 2018.

Sindicatos, indígenas, organizações civis, estudantes, entre outros setores insatisfeitos, exigem uma mudança de rumo de seu governo. As mobilizações atuais refletem também o desespero causado pela pandemia que atinge com força o país de 50 milhões de habitantes.

Em seu pior desempenho em meio século, o Produto Interno Bruto (PIB) da Colômbia despencou 6,8% em 2020 e o desemprego subiu para 16,8% em março.

Quase metade da população vive na informalidade e na pobreza, de acordo com dados oficiais.

lv/dl/rsr/jc