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Computador da ISS recebe "transplante de coração" em uma "cirurgia" delicada

Felipe Junqueira

A Estação Espacial Internacional (ISS) pode não parecer, mas é um ecossistema delicado que precisa de muitos equipamentos em pleno funcionamento para evitar problemas. Atualmente, a ISS tem aproximadamente o tamanho de um campo de futebol, e as agências espaciais envolvidas esperam mantê-la em funcionamento até 2030.

Os sistemas da estação incluem computadores europeus construídos há 20 anos, essenciais para as operações da ISS. Se esses computadores falharem, as consequências podem ser catastróficas. Assim, existem três computadores atualmente em funcionamento, com um quarto sempre em espera para entrar em ação caso um dos outros dê problema.

E já houve várias vezes em que um dos computadores precisou ser trocado. Aí, a unidade defeituosa era enviada de volta à Terra para ser reparada por engenheiros e relançada ao espaço para ficar de backup. Essa manutenção podia durar até seis meses para ser completada.

Esse sistema, no entanto, ficou comprometido quando mais um computador com tolerância a falhas foi montado para um módulo ainda a ser lançado para o lado russo da estação. As peças de reposição foram utilizadas nessa nova máquina, comprometendo tanto os reparos como a produção de novos computadores aqui na Terra.

Mas, graças a um esforço conjunto da ESA com os cosmonautas, foi encontrada uma solução que, de quebra, deve reduzir também o tempo de reparo para apenas alguns minutos.

Transplante espacial

Computadores do Sistema de Gerenciamento de Dados da ISS, essenciais para o funcionamento da estação (Foto: ESA)

A ESA comparou a nova operação com um transplante de órgãos. Em vez de mandar o computador inteiro de volta para a Terra, os próprios astronautas na ISS foram treinados para substituir peças defeituosas. Algumas das partes que dão problema com maior frequência também foram enviadas para a órbita. Esse tipo de reparo é complicado em microgravidade, já que computadores usam parafusos muito pequenos, e às vezes até cola para manter os componentes bem fixados.

No início de 2019, foi feita a primeira troca de peça de um computador dentro da ISS. Uma placa de memória antiga foi substituída por uma nova em um computador que deixou de funcionar e foi mantido na estação espacial até que os novos componentes chegassem junto com astronautas treinados para fazer o “transplante”. Mas ainda faltavam testes para saber se a operação realmente havia sido bem sucedida. E, para isso, astronautas e agências acharam melhor aguardar outro computador dar defeito para instalar o de sobra e ver se estava tudo certo com ele.

Isso só aconteceu em novembro, cerca de 11 meses depois da “cirurgia”. O computador com o novo componente estava em órbita apenas aguardando o seu momento. A troca foi feita e agora está confirmado que ele está em pleno funcionamento. Segundo a ESA, o reparo agora pode ser feito em pouco tempo, e com uma logística bem menos custosa: basta enviar alguns novos componentes para a órbita, em vez de voltar a máquina inteira até a Terra e de volta à ISS.

A ESA ainda observou que esse tipo de reparo pode ser essencial para o futuro da exploração espacial, apesar de “não ganhar muita atenção, a menos que algo dê errado”. “A nova abordagem é necessária enquanto os humanos exploram cada vez mais longe o nosso Sistema Solar, começando com o Gateway, onde suprimentos da Terra não estão disponíveis com prontidão”, disse em nota a agência europeia.

Fonte: Canaltech