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Compras online em Cuba: uma longa fila depois do 'clic'

Por Katell ABIVEN
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O engenheiro informático cubano Jorge Noris comprova o preço dos produtos comprados online no Tu Envio, único site de compras em Cuba

Jorge Noris nunca recebeu a primeira compra que fez online e as posteriores atrasaram ou chegaram incompletas. Em Cuba, a experiência de fazer compras online em tempos de pandemia não funcionou, e as autoridades tiveram que fazer um mea culpa.

"A primeira compra não chegou. Eles me ligaram cerca de um mês para perguntar se havia chegado", diz à AFP o técnico em informática de 34 anos, que finalmente teve que ir à loja para obter um reembolso.

Pai de um bebê de sete meses e um menino de três anos, Noris mora em um bairro nos arredores de Havana e afirma que "é muito confortável fazer compras de casa".

Seus pedidos subsequentes chegaram atrasados ou faltando. "Eu já fiz cerca de 40 compras e tive 40 problemas", assegura.

O confinamento aumentou as compras de alimentos online em todo o mundo, com aumentos de até 300% na Itália e na Espanha e 100% na França, segundo a consultora Nielsen.

A gigante global do comércio eletrônico Amazon, que se prepara para ser a grande vencedora da crise da COVID-19, deve anunciar seus resultados esta semana, e as ações subiram quase 50% na Nasdaq durante o confinamento planetário, que por sua vez causou a falência de inúmeras lojas tradicionais e redes de supermercados no mundo capitalista.

Mas em Cuba, onde a tecnologia 3G chegou apenas no final de 2018, as compras online ainda são uma novidade. O "tuenvio.com" foi lançado em dezembro de 2019 e pertence ao governo socialista. Nas redes, algumas pessoas o chamam de "Tuextravío".

O objetivo? Limitar as filas, que na ilha são recorrentes devido à escassez. Sob o embargo dos Estados Unidos desde 1962, Cuba importa 80% do que consome.

No entanto, no que se tornou uma prática nos últimos meses, muitos cubanos foram forçados a fazer fila para fazer reclamações ou recuperar produtos que nunca receberam.

- "Solução de crise" -

Na televisão estatal, o presidente Miguel Díaz-Canel admitiu: "Temos mais reclamações sobre comércio eletrônico do que sobre os serviços de saúde na pandemia".

Com 11,2 milhões de habitantes, Cuba registrou até terça-feira 2.318 casos do novo coronavírus, a maioria já se recuperou, e 85 mortes.

Segundo Díaz-Canel, "a realidade excedeu as capacidades" que o país tinha para realizar o comércio eletrônico.

Noris, cujo blog Tuandroid é dedicado a novas tecnologias, explica: "os servidores não estavam preparados para essa demanda".

De fato, "Tuenvio" passou de cem visitas por dia para entre 6.000 e 8.000, depois que o governo ordenou o fechamento de muitos mercados, que agora vendem apenas online.

Os pedidos passaram de 1.356 em fevereiro para 6.000 em março, 73.386 em abril e 78.893 na primeira quinzena de maio, segundo estatísticas oficiais.

"Tuenvio deve ser contextualizado (...), é uma solução de crise para um momento de crise, feito com extrema rapidez, talvez não com o tempo ou pensamentos necessários, talvez não com o estudo de experiências bem-sucedidas", estima Juan Triana, professor do Centro de Estudos da Economia Cubana.

"O comércio eletrônico não resolverá a causa fundamental do que está acontecendo em Cuba, ou seja, um déficit de oferta muito grande que vem de muito antes", diz.

"Obviamente, poderia ter sido melhor", acrescenta o especialista, e ilustra o problema: "de repente você multiplica os destinos e os clientes, mas não possui uma logística (...) que permita garantir isso".

- Sem opções -

Em frente ao supermercado Cuatro Caminos, em Havana, caminhões, vans e táxis carregam os pacotes para entrega.

Yahima de los Santos, dona de casa e mãe de 43 anos, chega para pegar suas compras. "Prefiro vir à loja (...) porque você não perde nenhum produto", diz a mulher, embora feliz com a experiência.

"É uma das melhores coisas que eles fizeram porque as filas ... não é fácil", acrescenta.

"A única coisa que eu não gosto, que muitas pessoas reclamam também, é que (...) você tem que ser muito rápido (comprando on-line), porque você coloca algo no carrinho e quanto vai pagar não tem mais a oferta", explica.

Diante de milhares de reclamações da população, as empresas de distribuição Cimex e Tiendas Caribe, de propriedade das Forças Armadas, fecharam parcialmente Tuenvio para reformulação.

A mídia estatal dedicou artigos extensos e críticos ao assunto.

Em um deles, publicado recentemente, o portal de notícias Cubadebate falou sobre "um suposto desvio de produtos", que alguns clientes viram em lojas, mas que não estavam disponíveis online.

Abaixo, uma avalanche de comentários de cubanos irados.

"No comércio eletrônico, a experiência do usuário (...) é importante, mas aqui em Cuba (esse tópico) deixamos de lado, porque é a única coisa que existe (não há opções)", diz Noris.