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Compra de 5% da Gol pela American Airlines indica interesse de americanas pelo setor aéreo brasileiro

*ARQUIVO* SÃO PAULO/SP-BRASIL,18/10/2011 - Um avião no Hagar da gol em congonhas.(Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO/SP-BRASIL,18/10/2011 - Um avião no Hagar da gol em congonhas.(Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A compra de uma fatia da Gol por parte da American Airlines anunciada nesta quarta-feira (15) sela o interesse de três das maiores companhias aéreas americanas pelo mercado brasileiro de aviação civil, que passa por um momento de ebulição após enfrentar a fase mais aguda da pandemia.

A American Airlines ficou com uma fatia de 5,2% da Gol, após pagar US$ 200 milhões (R$ 1,05 bilhão). A Delta Airlines já é dona de 20% de participação na Latam, enquanto a United Airlines tem 8% das ações preferenciais da Azul.

"Mas as compras de participações da Delta na Latam e da e da United na Azul aconteceram antes da pandemia", lembra André Castellini, sócio da consultoria Bain & Company. O negócio mais expressivo até então, a compra de um quinto da Latam pela Delta, foi anunciado em setembro de 2019, por US$ 1,9 bilhão (R$ cerca de 7,9 bilhões à época).

"É surpreendente um negócio deste porte fora do mercado doméstico da American, neste momento em que a pandemia ainda não está sob controle", diz Castellini. "Mostra a confiança da companhia americana na Gol e na retomada do mercado brasileiro".

Em comparação a julho de 2019, antes da pandemia, as companhias aéreas brasileiras transportaram em julho deste ano 70% do total de passageiros nos voos domésticos. Nos voos internacionais, a demanda ficou em 16%, informa a Bain -o que reflete ainda as restrições aéreas impostas ao Brasil, inclusive pelos Estados Unidos.

Na opinião de Felipe Souza, economista-chefe da Lafis Consultoria, o negócio entre Gol e American Airlines reforça o movimento de integração do mercado latino-americano com o da América do Norte.

"Em um momento em que se discute a consolidação das companhias aéreas para enfrentar os efeitos da crise da Covid-19, o aumento da presença das americanas no Brasil pode indicar um novo desenho do setor", afirma Souza, lembrando que, desde 2019, a legislação brasileira permite que companhias estrangeiras de aviação civil detenham o controle de aéreas brasileiras.

Souza destaca que as companhias americanas estão à frente das brasileiras no que se refere à recuperação dos impactos da Covid-19. "No segundo trimestre deste ano, a American Airlines apresentou uma liquidez de US$ 21,3 bilhões. Enquanto isso, a Gol estimou para o fim do ano uma liquidez de R$ 5,2 bilhões", afirma.

Gol e American Airlines já tinham um programa de compartilhamento de voos (codeshare), mas agora ele se torna exclusivo pelos próximos três anos.

"Nossa rede de longa distância se casa perfeitamente com a forte rede doméstica da Gol no Brasil", disse à reportagem o diretor comercial da American Airlines para o Brasil, Alexandre Cavalcanti. "A American é, há muito tempo, a principal transportadora americana para a América do Sul e nossa parceria com a Gol solidifica essa posição de liderança".

Questionada sobre o destino dos recursos, a Gol informou à reportagem que os R$ 1,05 bilhão serão usados para garantir a retomada do crescimento da companhia, o "que inclui a sustentação do capital de giro em uma operação mais robusta", e "a aceleração da transformação da frota para o 737 MAX". Com isso, diz a aérea, haverá o retorno dos voos internacionais para a Flórida.

Na opinião do especialista da Lafis, é mais fácil vir um aporte de uma companhia estrangeira, americana, sobre uma brasileira, do que uma possível fusão entre duas aéreas locais. A Azul, por exemplo, já deixou expresso seu desejo de levar a Latam Brasil, que enfrenta um processo de recuperação judicial, com sua controladora.

O movimento geraria concentração de quase 70% do mercado nacional de aviação civil, o que tenderia a ser rejeitado pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). No último dia 10, o presidente da Latam Airlines, Roberto Alvo, disse que "a Azul quer se defender, mas não vamos vender nenhuma unidade do grupo".