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Como a vida me ensinou o verdadeiro espírito Ubuntu

·8 minuto de leitura

Era um moço de 2 metros de altura, de aproximadamente uns 80 quilos, magro, muito magro para a altura que tinha. Não era charme, nem elegância. Era fome mesmo. Mulher grávida, construção da sonhada casa própria, faculdade e trabalho duro não davam conta da condição de ter virado adulto aos 22 anos. Era muito duro comer cachorro-quente todos os dias e às vezes ter a sorte de encontrar um amigo lá no refeitório da universidade que aceitasse compartilhar sua comida. A esposa vendia pão de mel no seu serviço para ajudar na renda da família e isso trazia um certo alívio.

O problema era mesmo no inverno. Só ela tinha um casaco. Lembro que era um casaco de cor vermelha com capuz. Eu começava com as aulas às 7 da manhã lá na rua Verbo Divino, e para economizar andava uns 5 quilômetros até a estação de trem Pinheiros. Precisava acordar às 4 para não me atrasar. Como só tínhamos um casaco para o frio, o tempo era bem calculado. Ao término da aula às 8 eu precisava chegar em casa até às 9 para devolver o casaco e a esposa ir trabalhar sem sentir frio. O restante do dia, entre a faculdade e as demais aulas, eu levava uma coberta cinza que me tinha sido doada nos tempos em que ainda passava alguns dias dormindo nas ruas da grande cidade de concreto. Até hoje tenho esta coberta cinza e sem ela não durmo de jeito nenhum. Parece que a bendita coberta se acostumou com o meu corpo e com o meu cheiro, não nos largamos. Às vezes vejo o formato do meu corpo naquela coberta que nem está tão cinza como antes. A coberta está cansada, remendada, costurada e até brinca de meu anjo da guarda. Hoje tenho umas cobertas da MMartan, são boas, mas em mim, parece que tem buracos e não me cobrem direito, não me abraçam, não me fungam, não me acalmam, não conversam comigo. Continuo mesmo com a minha coberta quase cinza, mesmo que hoje só me cubra até o joelho. Um dia a própria coberta quase cinza me avisou que o nosso ciclo está terminando e terei que deixá-la seguir adiante, mas lhe avisei que ainda não estou preparado. Então me pediu férias.

Saindo de mais uma aula lá na Credicard, vejo um senhor preto, charmoso, elegante, vestindo um terno preto, gravata vermelha, camisa branca, sapatos pretos sem vestígio de poeira, até parecia que estavam sendo usados pela primeira vez. O senhor olha para mim e diz “tenho te observado e já percebi que você é um bom professor, mas vir trabalhar vestindo desse seu jeito (camiseta e tênis) é incompatível com a empresa em que você está e principalmente irá descredibilizar o seu trabalho e você poderá facilmente ser alvo da polícia e de suas controversas blitz.”. Nunca nenhum aluno havia reclamado das minhas humildes vestimentas, respondi.

O senhor, então, mesmo sem dizer seu nome ou perguntar o meu, ordenou que fossemos até o shopping Eldorado lá na avenida Rebouças. Eu sabia que ele também era professor e que era da Nigéria. Ao chegarmos no shopping, minha primeira vez, fomos direto na loja Colombo. Lá, ele chamou o vendedor Lino que me tirou as medidas e ordenou que cinco ternos, cinco camisas, quatro pares de meias (sendo dois pares de cor branca e dois de cor bege) fossem colocados em uma sacola. Eu disse, “Senhor, não tenho como pagar esta conta, agradeço o seu gesto, mas será impossível eu pagar.” Aí ele perguntou o meu nome e na sequência eu perguntei o nome dele, no que me respondeu: Julius Oni. Julius me perguntou: “qual a sua idade?” Eu respondi: 22 anos. Ele continuou e disse: “pois bem, eu tenho 50 anos de idade e poderia muito bem ser seu pai, inclusive posso sê-lo agora ordenando que você pegue a sacola de roupas e se apresente amanhã como deve ser.” Na cultura africana não temos o hábito de questionar as pessoas mais velhas, mesmo que não sejam da família. Apenas obedeci ao senhor Julius, no que me perguntou: “você já ouviu falar em Ubuntu?” Respondi que não. E ele disse: “não se preocupe, com o tempo você vai entender.”

Era 6 de março e o meu filho teria que nascer naquele dia. O dinheiro era o suficiente somente para uma viagem de táxi. Combinei com a esposa que se ela passasse mal, iriamos à maternidade de táxi e voltaríamos com a criança de ônibus. O restante do dinheiro seria para os remédios que ela iria precisar. Cedo acordamos, descemos a ladeira em direção ao ponto de ônibus, meu coração tinha mudado de endereço e agora parecia estar em todas as partes do meu corpo. Fiquei com raiva de ser pobre, fiquei com raiva de não ter ninguém que pudesse me apoiar, mas eu não poderia expressar o meu sentimento de frustração para não trazer desânimo. Perto das duas horas da tarde a criança nasce, mas eu não tinha nada, absolutamente nada, quando a enfermeira me pediu um monte coisas que eu não sabia nem o nome.

Lembrei de um aluno que era muito legal comigo, Fabio Turuta. Corri para o orelhão e liguei para o Fabio Turuta dizendo que o meu filho tinha acabado de nascer. Antes mesmo que eu lhe pedisse adiantamento das aulas, ele me ofereceu o seu cartão de crédito e fui correndo até a C&A e lá, com o cartão do Fabio Turuta, comprei as primeiras roupas do meu filho.

Três dias depois do nascimento do meu filho, eu encontrei o Senhor Julius na rua e ele me convida para almoçarmos, mas eu não tinha muito tempo porque naquele dia teria que levar a esposa e o filho para casa. Eu estava nervoso e aflito. Senhor Julius percebe minha aflição e pergunta o que está acontecendo. Lhe digo que o meu filho tinha nascido e que naquele dia eu precisava ir buscá-los no hospital. Ele me parabenizou e perguntou o porquê de não ter lhe dito antes. Como você vai para o hospital? Como você vai levá-los para casa? Respondo que o farei de ônibus, indignado, porém em silêncio. O Senhor Julius pára um táxi, entramos e seguimos viagem até a maternidade Santa Joana. Lá, encontro minha esposa com dores da cesárea e se preparando para seguir viagem de ônibus como combinado. Lhe digo que o Senhor Julius pegou um táxi e nos levará para casa. Ela pergunta quem é o Senhor Julius. Respondo que depois conto. Perto de chegarmos em casa, Senhor Julius pergunta para esposa se ela tem alguma receita e ela responde que sim. Senhor Julius pega a receita, manda parar o táxi e entra na farmácia para comprar todos os remédios. Ao chegarmos em casa, ele me dá um cheque de R $5 mil. Eu estava confuso, só tinha uns 15 dias que eu tinha conhecido o Senhor Julius.

Eu era professor em uma Escola de Inglês, mas o Senhor Julius me fez acreditar que eu poderia ter a minha própria escola. Eu achava aquilo muito utópico, mas o Senhor Julius conseguiu me convencer e eu deixei a escola para qual trabalhava e comecei a trabalhar sozinho, tendo os meus próprios alunos. Dois anos depois abri a minha própria escola.

No dia do meu aniversário de 24 anos, o Senhor Julius me perguntou o que eu queria de presente. Eu perguntei se ele poderia aceitar ser meu pai. Naquele dia ele não segurou suas lágrimas e me respondeu: já sou seu pai e você já é meu filho há muito mais tempo do que você pode imaginar.

Hoje o meu pai tem 72 anos, está bem de saúde. Não fosse ele, mas principalmente, não fosse o espírito Ubuntu que lhe habita, certamente a minha vida teria seguido outros rumos. Todos temos algum tipo de capacidade. Há pessoas que têm a habilidade de provocar e despertar qualidades e capacidades em nós que desconhecemos.

Com a situação da pandemia, muitas pessoas perceberam a necessidade de acolher e acudir o outro no seu sofrimento, com as suas dores. Percebemos que somos todos parentes de uma mesma família, a família da humanidade com as suas tantas fragilidades sendo reveladas diariamente. Mesmo que as dores não tenham a mesma intensidade para todos, o que me conforta é a inexistência de um aparelho capaz de medir com precisão quem sente mais dor no coração, na alma, ou na mente.

Embora se fale mais na palavra Ubuntu, ainda não se respira o seu verdadeiro espírito. Mas, já conseguimos perceber que a continuidade da nossa espécie está ligada à necessidade e prática do espírito Ubuntu. Foi neste espírito que conseguimos criar não uma, mas várias vacinas para um inimigo comum, um inimigo que consegue enxergar o homem como homem, não nos seus vários níveis que este tal homem criou para se distanciar do seu próximo, o homem.

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