Mercado abrirá em 8 h 7 min
  • BOVESPA

    120.636,39
    -605,24 (-0,50%)
     
  • MERVAL

    38.390,84
    +233,89 (+0,61%)
     
  • MXX

    45.495,41
    -962,61 (-2,07%)
     
  • PETROLEO CRU

    53,36
    +0,38 (+0,72%)
     
  • OURO

    1.848,20
    +8,00 (+0,43%)
     
  • BTC-USD

    35.305,09
    -930,15 (-2,57%)
     
  • CMC Crypto 200

    700,59
    -14,60 (-2,04%)
     
  • S&P500

    3.798,91
    +30,66 (+0,81%)
     
  • DOW JONES

    30.930,52
    +116,26 (+0,38%)
     
  • FTSE

    6.712,95
    -7,70 (-0,11%)
     
  • HANG SENG

    29.694,32
    +52,04 (+0,18%)
     
  • NIKKEI

    28.472,64
    -160,82 (-0,56%)
     
  • NASDAQ

    13.036,50
    +51,00 (+0,39%)
     
  • BATS 1000 Index

    0,0000
    0,0000 (0,00%)
     
  • EURO/R$

    6,5065
    +0,0079 (+0,12%)
     

Homem chora e precisa do feminismo: a desconstrução da masculinidade começou

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·8 minuto de leitura
Como se desfazer da imagem do "homem machão?"(Arte: Thiago Limon/Yahoo Brasil)
Como se desfazer da imagem do "homem machão?"(Arte: Thiago Limon/Yahoo Brasil)

Por Henrique Santiago

Se você é homem e nunca questionou seus privilégios, aqui está uma boa oportunidade. A lista de benesses é longa, mas vou tentar resumir em três exemplos. Já parou para pensar que homens brancos, cis e héteros de classe média têm liberdade para andar sozinhos na rua depois que o sol se põe? Que ganham salários mais altos do que as mulheres? Que assédio não é consenso, como acredita Marcius Melhem?

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

Hoje, mais do que nunca, é preciso repensar o que é ser homem em uma sociedade patriarcal. Rir de piada homofóbica, trair o (a) companheiro (a) ou passar pano para o amigo abusivo com a namorada são atitudes inaceitáveis. Novamente, a lista é longa. Sim, essa reflexão será difícil no começo, pois você irá se confrontar com a sua própria zona de conforto, faz parte do processo.

Leia também

É indispensável que se deixe de naturalizar esses e outros comportamentos, não se trata de mimimi, como dizem por aí. É preciso sair da teoria e nem sempre se acerta de início e está tudo bem, como conta o publicitário Pedro Figueiredo, 33, fundador do grupo de debates sobre masculinidade Memoh.

“Comecei de forma equivocada, mais preocupado em falar com as mulheres sobre o que deveriam ou não deixar de fazer. Levei muito na cabeça até entender que eu preciso falar sobre as minhas questões com os meus pares para atuar de uma forma legítima”, diz ao Yahoo!.

A construção (e desconstrução) de masculinidades passa diretamente pelas mãos dos homens. Mas não apenas daqueles que são brancos, cis, héteros e de classe média. A roda de conversa tem que ser aberta para incluir homens vulnerabilizados, como os negros, gays, trans, periféricos etc.

Veja abaixo o que especialistas têm a dizer:

Entenda que o homem de 2020 tem reflexos de um passado distante

Não há como pensar o homem de hoje sem antes voltar ao passado colonial do Brasil. É o que defende o estudante de psicologia e terapeuta reichiano Ramiro Gonzalez, 31, criador do grupo de debates Inconformados PSI, feito para refletir sobre sua própria existência como homem negro de pele clara e gay.

Para ele, o país não teve apenas suas riquezas exploradas pelos europeus, como também sofreu com a exportação de um pensamento marcado pelo preconceito de ponta a ponta. Dessa forma, considera essencial que se faça a leitura de autores e autoras que fujam da perspectiva eurocentrista, como Djamila Ribeiro, cujo texto “Lugar de fala” moldou suas convicções. “O colonialismo impôs o racismo, o machismo, a LGBTIfobia. Se desconsiderarmos o colonialismo, vamos continuar reproduzindo essas ideias e não é interessante caminhar por esse lugar”, avalia Gonzalez.

Nos debates, o que se observa é justamente a urgência de falar de homens marginalizados. Não à toa são aqueles que mais sofrem os reveses de uma sociedade que os julga. “Homens negros, trans, gays e bissexuais têm muita necessidade de fazer ecoar vozes e existências invisibilizadas. Eles precisam denunciar as violências que sofrem.”

Para os homens negros, especificamente, existe um agravante que pode ser explicado pela ciência. O doutorando em sociologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Henrique Restier, 42, se debruça nos estudos do sociólogo Stuart Hall para explicar os reflexos do colonialismo e da escravização na atualidade.

“As implicações se configuram a partir daquilo que ele chama de ‘regime racializado de representação’, isto é, uma série de significados negativos, visando seu encarceramento simbólico. Assim, estratégias são elaboradas para lidar com essas representações, como, por exemplo: um endurecimento emocional maior e um senso de prontidão desenvolvido como uma resposta defensiva às prévias e potenciais agressões voltadas para esse grupo”, aponta.

Já conversou com um homem negro?

É impensável falar sobre masculinidades sem olhar para os negros, defende Restier. Pois introduzi-los é uma maneira de todos os homens, independentemente de raça, saberem mais sobre o Brasil – para o bem e para mal.

Além de terem sua negritude negada, a eles foi atribuída uma série de estereótipos que os acompanham até hoje - como a sexualidade e a violência. Esses dois temas se unem nos estudos da filósofa Angela Davis, que recorda como esses homens eram linchados até a morte nos Estados Unidos do início do século 20 por supostamente terem estuprado mulheres brancas.

O uso da violência, de acordo com Restier, é direcionado por meio da força bruta do Estado. A mesma agressividade entregue aos homens negros pode em algum momento ser incorporada como forma de ele se afirmar socialmente – e ser visto –, sem notar que são vítimas desse padrão.

Restier assinala que é difícil quebrar esses padrões em um intervalo de médio prazo, entretanto, pode-se tirar proveito da situação.

Se o indivíduo tem o perfil do negão, porque não o usar quando lhe é conveniente? E porque não se desvencilhar quando inoportuno? Às vezes não é tão simples, mas mostra perspicácia no jogo da vida, inclusive revela para ele e para a sociedade que sua humanidade é ampla, vívida, e, portanto, incarcerável

Já ouviu ou falou alguma vez que “homem não chora”? Não é bem assim...

Se fosse possível elencar os principais tabus do homem, o medo de expor sentimentos por conta de uma suposta fragilidade estaria no topo. É um dos principais desabafos que Pedro Figueiredo, do Memoh, ouve dos colegas dos grupos reflexivos. Uma das oportunidades que se tem de quebrar esse estigma está na participação em bate-papos com seus pares.

Embora a construção social diga que “homem não chora”, esse pensamento que é ensinado desde que o mundo é mundo pode trazer sérias consequências. “Existe a ideia de que demonstrar emoções é um sinal de fraqueza. Os homens se suicidam quatro vezes mais do que as mulheres no Brasil. Muito disso se dá pela dificuldade de se vulnerabilizar. A gente não se disponibiliza a isso”, destaca.

Na leitura de Figueiredo, outro ponto proibido para homens é o cuidado com a própria saúde. Essa responsabilidade é endereçada para as mulheres – esposas, mães, irmãs etc. – que precisam dar conta delas e deles. “O autocuidado não está só relacionado à próstata. Ir ao médico ainda é um sinônimo de besteira”, lamenta.

Muitos dos primeiros contatos de homens no grupo se dão pela falta de confiança em um amigo para conversar sobre temas que fogem do habitual. Falar sobre cerveja, futebol e mulher é um estereótipo que circunda o universo masculino. Não é proibido discutir esses assuntos, mas a masculinidade vai muito além disso. E está tudo bem se você chorar.

Qualquer tempo é tempo para começar a refletir

O engenheiro aposentado Jurivaldo dos Santos, 63, recebeu a descoberta da homossexualidade de seu filho Daniel de braços abertos. Ele já suspeitava, mas foi libertador conquistar essa confiança. O único conflito que teve, porém, veio da porta de casa para fora, com reações negativas de “amigos” próximos, como frisa entre aspas, que se distanciaram dele.

Há cinco anos, Santos tomou a decisão de participar de um grupo de pais de filhos homossexuais na cidade onde vive, em Jarinu (SP), para compreender melhor sua função paterna. “Eu realmente não tinha preparo para, por exemplo, falar abertamente que tenho um filho gay, sabe? No trabalho e tal. Depois encarei com naturalidade e comecei a reagir com firmeza quando ouvia alguma 'piada’ homofóbica”, ele conta ao Yahoo!.

Nas rodas em que participa, foram muitas as vezes em que se deparou com pais desesperados após ouvirem que têm filhos gays. Ao se dizer mais preparado, o engenheiro aposentado acredita até que sua falta de conhecimento “retardou a saída do armário” de seu filho. “Como vivemos em uma sociedade machista, a gente fica com receio de perguntar, falar com alguém, de expor para a família.”

Para Santos, que iniciou sua vida em grupos de conversa aos 58 anos, é falsa a ideia de que não se pode rever seus conceitos depois de certa idade. “Participar do grupo me fez clarear muita coisa e isso me ajudou a enfrentar lá fora as barreiras por me viver em uma sociedade machista. Inclusive, me fez entender que a gente, por nascer, crescer e viver numa sociedade como essa, carrega muitas dessas características”, finaliza.

Você, homem, precisa do feminismo

Os escritos feministas de autoras como Simone de Beauvoir, bell hooks e Djamila Ribeiro contribuem para o melhor entendimento do homem, diz Figueiredo. Nos grupos de debate é sempre válido falar de modo que todos entendam, se desgarrando do academiquês.

“A gente martela para o cara não ser o ‘palestrinha’ [alguém que tenta explicar tudo como se o ouvinte não soubesse do que se trata], a ideia não é ser especialista em um assunto. O cara precisa trazer sua questão e dividir com o grupo”, diz.

Dividir as tarefas domésticas não é uma “ajuda” às mulheres, e sim um trabalho feito a quatro mãos, colocar o assédio de lado não te faz merecer um prêmio, muito menos por não reproduzir falas machistas, racistas ou transfóbicas, por exemplo.

Jamais pense que existe uma data de validade para debater e refletir sobre masculinidades. É um trabalho constante que deve ser levado por toda a vida, e não se surpreenda quando reproduzir um pensamento machista, afinal, vivemos uma sociedade patriarcal. Apenas se esforce para que o ato falho não se repita

Se você chegou até o final, fica aqui mais uma dica importante. O seu processo de construção e desconstrução é seu e de ninguém mais. “As mulheres não devem se responsabilizar por isso. Delegar a elas esse processo é manter uma postura passiva de usá-las como ‘bengala’. Elas já disseram tudo em filmes e textos para a gente correr atrás”, conclui Figueiredo.

Assine agora a newsletter Yahoo em 3 Minutos

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube

**Concepção e Coordenação de Amauri Terto e Diego Iraheta