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Como a produção de carnes ilegais se beneficia de dinheiro do narcotráfico no Vale do Javari

Na semana passada, enquanto policiais investigavam pescadores ilegais acusados de assassinar Dom Phillips e Bruno Pereira, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) contabilizava 1.173 espécies ameaçadas de extinção no país, das quais 310 pertencem à categoria dos peixes continentais, a que mais corre risco de desaparecer – como costuma acontecer no Vale do Javari. Por trás das mortes do jornalista e do indigenista, segundo especialistas consultados por O GLOBO, há uma rede de relações entre pescadores ilegais e traficantes colombianos e peruanos estabelecida há décadas na região.

O investimento na produção de pescados é feito para lavar dinheiro, mas também para usá-los como esconderijo para a cocaína.

– Ali é a Rota do Solimões, onde a organização que tem as armas mais pesadas é o tráfico, então é natural que o tráfico domine todas as outras categorias criminosas – diz o delegado federal Alexandre Saraiva, ex-superintendente da PF em Roraima e no Amazonas – O traficante vai autorizar a pesca ilegal conquanto que o pescador dê em troca uma parte do seu lucro. O que o traficante nunca vai deixar acontecer é alguém ganhar dinheiro na área dele sem pagar nada.

A Polícia Federal investiga o envolvimento de Amarildo da Costa de Oliveira, o Pelado, que confessou ter matado Dom e Bruno, com narcotraficantes de países vizinhos. A suspeita é de que dinheiro do narcotráfico internacional esteja financiando a pesca ilegal em terras indígenas.

O GLOBO apurou que o pescador Pelado costumava obter itens como gelo, sal e gasolina de um vendedor apelidado de "Colômbia", que mantém uma loja flutuante no povoado peruano de Islândia, às margens do rio Javari. Segundo um morador de Atalaia do Norte, que preferiu não se identificar por temer represálias, o material era usado por Pelado e sua quadrilha que, em troca, forneciam os pescados como pagamento e embolsavam a diferença.

Com até três metros de comprimento e mais de 100 quilos, o pirarucu, é um dos peixes mais disputados no comércio de carnes ilegais da região – junto com piracatingas, tracajás, pitiús, tartarugas gigantes, peixes ornamentais, pacas, macacos e antas.

– Cada tonelada de carne de caça e pescado, todas juntas, rende entre R$ 70 mil e R$ 100 mil – diz Beto Marubo, liderança da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), para a qual Bruno Pereira trabalhava antes de ser morto.

O mercado movimenta toneladas de carne que, na maior parte das vezes, é vendida no Peru e na Colômbia. Enquanto no Brasil o pescador costuma receber R$ 5 pelo quilo do pirarucu, na Colômbia e no Peru se paga até R$ 15, segundo Guillermo Estupiñán, especialista no combate ao tráfico de animais silvestres da Wildlife Conservation Society (WCS-Brasil).

– Por isso o pescador continua vendendo peixe ilegal: o legal não tem um bom preço. A gente sabe que muito dessa produção vai para Peru e Colômbia. Pagam mais porque o pirarucu não é muito abundante por lá. Há um fluxo intenso. E o pescador fica muito mais motivado a vender fora do que dentro do Brasil – afirma Estupiñán.

Segundo o pesquisador, na época em que foram feitos os primeiros registros da pesca predatória ilegal da piracatinga no Amazonas, no início dos anos 2000, quase todo o dinheiro que entrava no Brasil para a compra de peixes ilegais vinha da Colômbia.

– Havia praticamente só dinheiro colombiano que entrava aqui para comprar pirarucu – diz ele – A pesca ilegal é consequência da falta de presença de órgãos de controle naquela região.

Levadas às "bodegas", os frigoríficos no lado colombiano, as carnes são transportadas para cidades como Bogotá, para consumo local e também para exportação,e vez por outra acabam misturadas à cocaína.

– A madeira, assim como a pesca, é usada pelo tráfico como mero invólucro.

Tinha muita apreensão de pescado com droga no meio, era comum. Já apreendi cocaína dentro de pirarucu – afirma o delegado Saraiva, ao relembrar a época em que era lotado em Manaus – Não se pode subestimar a lucratividade da pesca e da madeira, são indústrias extremamente rendosas, negócios fortes que dão muito dinheiro.

Numa das operações que liderou, Saraiva conseguiu identificar uma rede de pescadores que traficava tartarugas de 60 quilos, vendidas a R$ 1000 cada. Havia pescadores que enjaulavam 500 por semana, segundo delegado. Até a dona de um restaurante famoso em Manaus foi presa.

Segundo o delegado, as penas menores para crimes ambientais atraem criminosos interessados em se distanciar do estigma e das penas maiores de crimes como o tráfico de drogas, por exemplo.

– Para a organização criminosa tanto faz se ela vai ganhar dinheiro com pescado ou com cocaína, às vezes o peixe e a madeira dão mais dinheiro que a droga, mas com risco menor – diz Saraiva.

Casado com a irmã de Pelado, o pescador Laurimar Lopes Alves, o Caboclo, ou Cabôco, membro da mesma quadrilha de pescadores ilegais que o cunhado, é um dos pescadores mais antigos do município de Benjamin Constant — e um dos invasores mais recorrentes da terra indígena Vale do Javari, segundo a Univaja.

Um ofício enviado a autoridades pela Univaja denunciou que no fim da tarde de 2 de abril um grupo de três pescadores “com camisas no rosto” atirou sete vezes com uma espingarda contra a equipe de vigilância da entidade. Mais tarde, ribeirinhos disseram que entre os atiradores estavam um filho de Laurimar e outro integrante da sua quadrilha de pesca ilegal.

Na ocasião, com apenas dois soldados na base em Tabatinga, a Força Nacional de Segurança Pública foi acionada, mas alegou que estava "sem contingente" para atender aos pedidos de socorro da Univaja.

Conforme relatou Eliésio Marubo, advogado da Univaja, durante audiência pública no Senado na quarta-feira, vários flagrantes de pesca ilegal feita por homens armados foram reportados pela organização indigenista à Funai e à Força Nacional, mas não houve resposta das autoridades.

— O Caboclo é uma pessoa recorrente já há muito tempo, tem processos na Justiça Federal envolvendo a invasão de terra indígena. É um cara que tem um histórico de invasão recorrente à terra indígena, uma pessoa que está totalmente envolvida, não por acaso consta nos relatórios da equipe de vigilância da Univaja praticando inúmeros ilícitos na terra indígena, muito relacionados à caça e à pesca. E faz parte sim dessa quadrilha que vem nos ameaçando e causou a morte do Bruno e do nosso parceiro Dom — diz Beto Marubo, integrante da Univaja.

Laurimar aparece em uma matéria de O GLOBO de abril de 2000, que narra a versão de um indígena korubo que viu seus pais serem assassinados a tiros de espingarda por três pescadores, entre eles Laurimar.

Na reportagem, o indígena Xixu contou que "dez de seus parentes foram assassinados por madeireiros e pescadores": Yoó (pai de xixu), Thumá (Mãe), Manoá, Pasto, Pati, Moó, Tiquet, Batavia, Marochein e Kaniual.

Xixu descreveu como moradores da comunidade de Ladário, às margens do rio Itaquaí, onde Bruno Pereira e Dom Phillips foram mortos – e onde Laurimar ainda vive – tinham matado seus familiares: "Foram os pescadores do Ladário que mataram nosso povo. Posso mostrar onde estão os corpos dos meus pais", disse Xixu na ocasião, na companhia do sertanista da Funai Rieli Franciscato, que mais tarde organizou uma expedição para resgatar as ossadas dos indígenas.

Amigo de Xixu, o indígena Marebó estava na cena do crime: "Na hora do tiroteio, pulei no rio e vi quem atirou: Raimundo Filho, Otávio (Oliveira) e Caboclo (Laurimar Alves). Seguimos a pegada deles e chegamos na comunidade do Ladário, onde os homens brancos maus moram", declarou Marebó, em idioma korubo. Na ocasião, Laurimar negou o crime.

Os Korubos foram vistos nas margens dos rios Itaquaí e Ituí pela primeira vez em 1920, e contatados pela Funai em 1996.

Em julho de 1999, segundo um informe do Instituto Socioambiental (ISA), o então vereador Edmar Chagas, de Atalaia do Norte, foi acusado de “resgatar três pescadores presos no caminho para a delegacia da PF em Tabatinga”. Laurimar estava entre eles. O trio tinha sido flagrado com 400 quilos de peixe liso, tracajás abatidos, material de pesca, armas e canoas.

Pastor da Assembleia de Deus em Atalaia do Norte e ex-secretário municipal de Produção Rural, atualmente Edmar Chagas é porta-voz dos pescadores da região, entre eles Pelado.

O superintendente da PF no Amazonas, Eduardo Fontes, disse ao GLOBO que Laurimar não integra o grupo acusado de ter participado dos assassinatos de Bruno e Dom. Além de Pelado, que confessou os assassinatos, seu irmão Oseney da Costa de Oliveira e Jeferson Lima estão presos em Atalaia do Norte. A reportagem não conseguiu contato com Laurimar Alves nem com Edmar Chagas.

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