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Como For All Mankind reescreve a Corrida Espacial com os soviéticos na liderança

Patrícia Gnipper

Os soviéticos lançaram o primeiro satélite artificial à órbita da Terra em 1957 (o Sputnik). Os soviéticos lançaram pela primeira vez um ser vivo a bordo de um foguete também em 1957 (a cadela Laika). Os soviéticos enviaram o primeiro homem ao espaço em 1961 (Yuri Gagarin). Os soviéticos enviaram a primeira mulher ao espaço em 1963 (Valentina Tereshkova). Mas a grande vitória da Corrida Espacial acabou sendo dos Estados Unidos, que conseguiram fazer com que astronautas pisassem na Lua pela primeira vez em 1969 com a Apollo 11, fincando sua bandeira na superfície lunar e deixando as primeiras pegadas humanas por lá.

Mas e se os soviéticos continuassem vencendo essa corrida, levando um cosmonauta como primeiro humano a visitar a Lua e, assim, deixando os EUA no eterno segundo lugar? É exatamente isso o que explora For All Mankind, série original e exclusiva do Apple TV+ — o serviço de streaming da Maçã. A série retrata personagens e acontecimentos reais em uma espécie de realidade paralela; então, aqui, você vai ver gente como Neil Armstrong, Buzz Aldrin, Wernher von Braun, Deke Slayton e Gene Kranz vivenciando acontecimentos fictícios, mas, ao mesmo tempo, traçando paralelos e fazendo referências ao que aconteceu de verdade.

É um verdadeiro deleite a qualquer entusiasta da exploração espacial que conhece os bastidores do programa Apollo, já cansou de assistir a documentários com as cenas reais das missões e sempre imaginou como teriam sido os bastidores da NASA caso os soviéticos continuassem vencendo a Corrida Espacial.

ATENÇÃO: A partir daqui, este texto contém spoilers!

Lua Vermelha: a vitória soviética não foi o fim da Corrida Espacial, mas sim o começo de uma nova jornada

Em For All Mankind, vemos que a Apollo 10 foi planejada para visitar a Lua como uma espécie de treinamento final para que o pouso histórico do Homem na Lua acontecesse na Apollo 11. Então, a tripulação desta missão foi à Lua, orbitou o satélite natural, iniciou o procedimento de alunissagem com o módulo de pouso, mas abortou a descida a poucos quilômetros de altitude, retornando à órbita para se acoplar novamente ao módulo de comando e, então, voltar à Terra com sensação de missão cumprida. Contudo, outra sensação se faz presente na realidade alternativa retratada na série: a frustração de terem chegado tão perto de pousar na Lua, mas sem permissão de realizar o histórico pouso lunar, já que essa missão seria da Apollo 11, somente. O jeito foi cumprir as ordens e engolir qualquer descontentamento.

Fun Fact: a Apollo 10 da história verdadeira realmente foi uma espécie de treinamento para o pouso da Apollo 11 meses depois, mas, diferentemente do retratado em For All Mankind, a nave não contava com o software necessário para o pouso, tampouco trajes espaciais para que os astronautas andassem na superfície lunar.

Tal frustração acaba de várias maneiras ditando os acontecimentos da trama fictícia, pois, para a surpresa de todos, logo após o retorno da Apollo 10 os soviéticos acabaram pousando na Lua primeiro — deixando os tripulantes da Apollo 10 com aquele amargo gosto da derrota ainda mais insuportável; afinal, eles tinham tudo para ter pousado primeiro, trazendo esta vitória a seu país, mas não o fizeram pois estavam cumprindo ordens. E essa obediência acabou levando a vitória aos inimigos da União Soviética, com o mundo todo assistindo, ao vivo pela televisão, um cosmonauta exibir a foice e o martelo em uma bandeira vermelha na Lua — e, ainda por cima, declarando em russo que "Eu dou este passo pelo meu povo, pelo meu país, e pelo estilo de vida Marxista-Leninista".

Fun fact: na história de For All Mankind, o primeiro humano a pisar na Lua foi Alexei Leonov. Na história real, o cosmonauta foi, na verdade, o primeiro humano a fazer uma caminhada espacial.

O fato de os EUA terem sido pegos de surpresa com o quanto o programa espacial soviético estava avançado acaba desencadeando todo um desenrolar para a história: a Apollo 11 chega à Lua conforme planejado, mas sem todos os louros que a missão da vida real ganhou. Afinal, "ninguém liga para quem chega em segundo lugar", conforme é dito na própria história paralela. E tal declaração foi dada pelo presidente Nixon mesmo depois de horas de desespero: o módulo de pouso da Apollo 11, levando Neil Armstrong e Buzz Aldrin à superfície, perdeu o contato com o controle da missão e também deixou de enviar dados de telemetria pouco antes da alunissagem, e tudo indicava que uma tragédia havia acontecido. O mundo todo já amargava não somente mais uma derrota, como a perda da vida dos tripulantes, mas, mesmo com a notícia de que estavam todos sãos e salvos na Lua, a derrota para os soviéticos ainda falou mais alto nos corações e mentes dos oficiais do governo.

Fun fact: durante as horas em que o contato com o módulo de pouso estava perdido e tudo indicava que o pouso havia falhado, o presidente Nixon prepara uma declaração oficial que seria proferida ao mundo todo assim que a NASA confirmasse a tragédia. Neste momento, a série revive trechos de uma declaração que, na vida real, foi mesmo produzida pela equipe do então presidente, que estava preparado para qualquer um dos cenários: a vitória da Apollo 11, ou a derrota com a morte dos astronautas.

"Antigamente, os homens olhavam para as estrelas e viam seus heróis nas constelações. Nos tempos modernos, fazemos o mesmo, mas nossos heróis são homens épicos, de carne e osso. Todo ser humano que olha para a Lua nas noites que estão por vir saberá que, em algum canto de outro mundo, existirá para sempre a humanidade".

Essa declaração, que aparece na série da Apple, realmente faz parte do documento que Nixon leria caso a Apollo 11 tivesse falhado.

A declaração que Nixon daria caso a Apollo 11 terminasse em tragédia

Mulheres na jogada

A coisa não parou de "feder" por aí: logo depois, enquanto o governo dos EUA pressiona a NASA para iniciar a construção de uma base militar na Lua — e, assim, sair à frente dos soviéticos nesse sentido, dando continuidade à Corrida Espacial —, o país norte-americano é novamente pego de surpresa quando os inimigos enviam (e transmitem tudo ao vivo) a primeira mulher ao satélite natural da Terra: a cosmonauta fictícia Anastasia Belikova. Então, a URSS não somente fez o primeiro homem pousar na Lua antes dos EUA, como também marcou vitória com a primeira mulher pisando no solo lunar — algo que, na vida real, ainda não aconteceu, mas está previsto para rolar em 2024 com o programa Artemis, da NASA.

O presidente Nixon fica mais uma vez "pistola" com a NASA e exige que a agência espacial dê um jeito de mandar uma mulher norte-americana à Lua. Então, mesmo a contragosto, a NASA começa a treinar candidatas a astronautas, ao mesmo tempo em que planejava as próximas Apollo que iniciariam a criação da base militar na Lua, ainda na fúria para vencer os soviéticos.

Fun fact: antes do início do programa Apollo, a agência criou o projeto Mercury, no finalzinho dos anos 1950, que foi o primeiro programa tripulado de exploração espacial da NASA. O objetivo já era mostrar a superioridade norte-americana em relação às tecnologias espaciais, minimizando as conquistas soviéticas, e, com este programa, John Glenn se tornou o primeiro estadunidense a ser lançado à órbita do planeta, logo depois do cosmonauta Yuri Gagarin. E um projeto paralelo do Mercury, conhecido como Mercury 13 (que inclusive virou série na Netflix), chegou a reunir 13 mulheres que já atuavam como pilotos para receber o mesmo treinamento intenso que os astronautas homens do programa Mercury receberam; contudo, o projeto financiado com fundos privados não foi aprovado pela NASA, e o sonho de elas se tornarem astronautas foi por água abaixo, mesmo que elas tenham apresentado performance à altura dos resultados masculinos.

Essa história do programa Mercury 13 aparece como referência em For All Mankind: quando a NASA precisa urgentemente de mulheres minimamente qualificadas para passarem pelo treinamento e, quem sabe, uma delas pisar na Lua, a agência resgata as duas únicas candidatas que participaram do programa Mercury 13 e que ainda tinham condições de atuar como astronautas sete anos depois: as personagens fictícias Molly Cobb e Patty Doyle. Cobb, por sinal, acaba se tornando a escolhida para a missão de se tornar a primeira mulher norte-americana a pisar na Lua.

Outra personagem feminina de destaque em For All Mankind é Margo Madison, uma versão alternativa de Margareth Hamilton, que criou o software necessário para que a Apollo 11 conseguisse pousar na Lua. Na série, Margot é amiga pessoal de Wernher von Braun e acaba se tornando a primeira mulher no controle da missão do programa Apollo. Na história real, a primeira mulher a ocupar este cargo foi Frances "Poppy" Northcutt desde a Apollo 8, na verdade.

Fun fact: o Wernher von Braun da vida real foi um engenheiro alemão que desenvolveu tecnologia aeroespacial para os nazistas, mas, após o fim da Segunda Guerra Mundial, foi aos EUA e se tornou engenheiro de foguetes da NASA, sendo essencial para a criação do Saturn V, que levou os primeiros humanos à Lua. Na URSS, quem assumia esse papel de liderar o desenvolvimento de novos e poderosos foguetes foi o engenheiro Sergei Korolev. Ambos aparecem em For All Mankind, mas com distorções na história para que ela ficasse mais dramática.

A descoberta de água e a construção de bases militares na Lua

Em For All Mankind, a descoberta de água congelada na Lua aconteceu durante o programa Apollo, quase que simultaneamente à ideia de criar bases militares na superfície lunar. EUA e a URSS trabalhavam em missões para localizar a água lunar e iniciar a construção de suas respectivas bases. Na vida real, a descoberta de que há água na Lua só aconteceu em 2009 a partir de observações de uma sonda orbital e, apenas em 2018, cientistas confirmaram que há grandes quantidades de água presa nos polos lunares.

Na série, o diretor von Braun é um forte opositor à ideia de militarizar a Lua, ideia essa que toma mais força com a descoberta de que os soviéticos já estavam enviando novas missões a regiões onde a água foi detectada. Ou seja: novamente, a URSS estava saindo à frente, podendo chegar lá para extrair a água primeiro, bem como criando sua base militar antes dos estadunidenses.

Fun Fact: com o programa Artemis, a NASA pretende, desta vez, iniciar uma "presença constante e sustentável" na Lua, o que depende muito da extração da água lunar. Tal água pode ser utilizada, ainda, como combustível para foguetes, ao separar o hidrogênio do oxigênio, e isso é algo essencial para que a humanidade consiga explorar, presencialmente, outros mundos. Essa ideia dos tempos modernos é retratada em For All Mankind como se tudo tivesse acontecido no século passado como consequência das vitórias soviéticas na Corrida Espacial.

Opinião

De um lado, a genialidade de se construir uma trama paralela complexa e repleta de referências à história verdadeira da Corrida Espacial. De outro, ares de mesmice no desenrolar dos primeiros episódios com personagens que poderiam ser melhor explorados. A sensação, ao terminar de assistir aos quatro primeiros episódios de For All Mankind (disponíveis até a redação deste artigo), é de sentimentos confusos — mas, ainda assim, prevalece o apreço à genialidade do roteiro.

A maioria dos personagens principais são construídos em um único episódio, com muitos deles sendo basicamente ignorados ou transformados em coadjuvantes nos episódios seguintes. Isso pode ser visto como um sinal de alerta para o que está por vir no decorrer da temporada, ou pode ser que a produção os traga de volta de alguma maneira surpreendente que nos deixará boquiabertos. Só o tempo dirá, já que novos episódios da série são liberados semanalmente — serão 10 episódios nesta primeira temporada, liberados às sextas-feiras.

De qualquer maneira, o resultado dessa dinâmica acaba fazendo com que a gente não se relacione muito bem com personagens individuais, com o apego mais forte ficando na própria história alternativa e seus diversos (e empolgantes) plot twists.

Notável também é a preocupação com detalhes para que a produção seja o mais verossímil possível. Trajes espaciais, naves, foguetes e até mesmo o ambiente lunar são retratados com fidelidade — e muitos easter eggs para os espectadores que conhecem mais a fundo a verdadeira história do programa Apollo e os primórdios da exploração espacial. Então, se você tiver receio de se atentar mais ao fato de que alguns dos personagens mais interessantes são pouco explorados, ou se achar o vai-e-vém da "lutinha" entre EUA e URSS um tanto quanto maçante, saiba que o conforto vem ao se apegar aos detalhes de como a produção foi cautelosa para criar esta história paralela da Corrida Espacial como se fosse realmente baseada em acontecimentos reais.

E, apesar do clima de derrota para quem veste a camisa dos Estados Unidos nessa corrida, For All Mankind foge do que seria uma previsível caça ao "bicho-papão comunista" e foca no espírito de "perdemos, mas vamos dar a volta por cima". Afinal, o espírito científico da NASA sempre foi (e continua sendo) o de "a exploração espacial deve continuar", ainda que isso signifique — ao menos na série — ceder ao governo e aceitar uma perigosa militarização do espaço.

Fonte: Canaltech

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