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Como funciona o mercado cinza dos smartphones, que fatura R$ 6 bi ao ano

·5 min de leitura
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 14.10.2015: EMPRESA-NEGÓCIOS - A BRCharge aluga estações para recarga de smartphones em shoppings, bares e eventos. Os smartphones ficam guardados em gavetas, que são trancadas com qualquer cartão com tarja magnética (crédito, débito, VR) e que funciona como uma chave. (foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 14.10.2015: EMPRESA-NEGÓCIOS - A BRCharge aluga estações para recarga de smartphones em shoppings, bares e eventos. Os smartphones ficam guardados em gavetas, que são trancadas com qualquer cartão com tarja magnética (crédito, débito, VR) e que funciona como uma chave. (foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O smartphone Xiaomi, modelo Redimi Note 8, com 64 gigabytes de memória interna e 4 gigabytes de memória RAM, pode ser encontrado no site da Casas Bahia por R$ 1.498. Por outro lado, no site de uma varejista online pouco conhecida, o mesmo produto é oferecido por R$ 687,65. Um achado da internet? Não, trata-se muito provavelmente de um smartphone comprado no mercado cinza e revendido a um preço módico perto do seu valor real.

De acordo com a consultoria IDC Brasil, especializada no setor de tecnologia da informação, o mercado cinza de eletroeletrônicos envolve produtos contrabandeados especialmente do Paraguai. São itens originais, que saíram das suas respectivas fábricas e chegaram legalmente ao país vizinho. Mas atravessaram a fronteira sem pagar impostos e são oferecidos na internet a preços muito mais baixos que os dos varejistas formais --mesmo considerando a margem de lucro do revendedor.

"O mercado cinza sempre existiu, mas ele se resumia a 20 mil ou 30 mil unidades ao ano de marcas tradicionais, como Motorola e iPhone", diz Reinaldo Sakis, gerente de consultoria e pesquisas da IDC Brasil. "Mas nos últimos anos ele cresceu de forma espetacular e atingiu 3,8 milhões de unidades em 2020".

O motivo para esta guinada é o aumento da presença da Xiaomi, a marca chinesa de smartphones que é uma das mais vendidas no mundo. Este ano, superou a Apple e se tornou a segunda maior fabricante mundial do produto, só atrás da coreana Samsung. No Brasil, está presente apenas com lojas próprias e detém, oficialmente, uma fatia de 3% das vendas de celulares no país. Mas, considerando o mercado formal e o mercado cinza --que somou 46 milhões de unidades em 2020 e faturou R$ 71 bilhões no Brasil--, a fatia da Xiaomi sobe para 9%.

Depois da saída da coreana LG do mercado mundial de smartphones anunciada em abril desde ano, a empresa deixou um vácuo de 12% de participação no mercado brasileiro, dominado pela Samsung (dona de 50% do volume de aparelhos vendidos), seguida pela Motorola (controlada pela também chinesa Lenovo e dona de 30% do mercado nacional). A Xiaomi vem crescendo neste vácuo, principalmente pelas mãos de terceiros ilegais.

Para conquistar a lacuna deixada pela LG e fazer frente ao poderio da Xiaomi, a Positivo Tecnologia anunciou nesta segunda-feira (25) parceria com a fabricante chinesa de celulares Transsion Holdings, uma das seis maiores do mundo, para lançar no Brasil smartphones da marca Infinix na categoria intermediária, com preços de R$ 1.000 a R$ 2.999.

O primeiro aparelho é o Note 10 PRO, com preços de R$ 1.499 (128 GB) e R$ 1.699 (256 GB). O produto já está disponível para venda na Casas Bahia e no Ponto, redes varejistas da Via. A partir de dezembro, também será oferecido pela operadora Vivo.

Um dos diferenciais é a oferta de dois anos de garantia. O produto tem tela de 6,95 polegadas, 8 giga de memória RAM, armazenamento de 256 gigabytes, quatro câmeras, autonomia suficiente para 142 horas de reprodução de música, 58 horas de ligação ou 11 horas de jogo. O Infinix recebeu este ano o prêmio iF Design Award, um dos principais da categoria de design no mundo.

"Precisávamos de uma parceria com um player de peso mundial para conseguir escala e avançar no mercado de smartphones no Brasil, fazendo frente ao mercado cinza", disse à reportagem o vice-presidente de consumo da Positivo, Norberto Maraschin.

Para se ter uma ideia do que significa "escala", a Transsion fabricou globalmente 200 milhões de celulares em 2020 --cinco vezes a produção brasileira no ano passado, de 40 milhões de unidades. "Uma fabricante desse porte tem prioridade na mesa de negociações com fornecedores de chips e demais componentes", diz Marachin.

Neste ano, o mercado brasileiro de smartphones foi impactado pela falta de insumos e deve registrar uma queda de 1,7% em volume, para 45,2 milhões de unidades, com aumento de 9,7% do faturamento, para R$ 77,9 bilhões (sem descontar a inflação). "Os fabricantes teriam aumentado as vendas se houvesse mais produto disponível", diz Sakis, do IDC. "Para a Black Friday e o Natal, o mercado está abastecido. Mas há dúvidas quanto a janeiro".

Segundo Maraschin, o lançamento do Infinix traz vantagens tanto para o público quanto para os varejistas em relação ao mercado cinza. "Para o consumidor, nosso produto oferece uma rede de assistências técnicas em todo o país, em que 95% dos consertos são realizados em até dez dias", afirma. "Se a tela de um celular do mercado cinza quebra, não tem peça, nem garantia", diz.

Do lado do varejo, de acordo com o vice-presidente da Positivo, a torcida era grande para a entrada de um terceiro fabricante nacional que ocupasse o lugar da LG e pudesse fazer frente ao portfólio do mercado cinza.

Além dos produtos da Xiaomi, o Infinix vai concorrer diretamente com o Motorola Edge e o Samsung A72. Com a marca, a ideia é lançar oito modelos, todos na categoria intermediária, na qual a empresa não trabalhava. A companhia só tinha celulares da marca Positivo, mais básicos (com preços de R$ 499 a R$ 699), e a marca Quantum, direcionada a maquininhas de cartão com smartphone.

Uma equipe de 50 engenheiros da Transsion passou seis meses no Brasil para desenvolver o produto. A Positivo não informa o investimento no lançamento ou a duração da parceria com a chinesa, mas garante que será de longo prazo. Diz apenas que está prevista uma injeção de R$ 50 milhões na linha de produção para os próximos três anos.

O Infinix brasileiro opera nas redes 4G. Mas Positivo e Transsion afirmam estudar o início da produção dos aparelhos 5G, cuja tecnologia ainda não está disponível no país. As empresas que vão operar a tecnologia serão anunciadas após leilão marcado para o próximo dia 4 de novembro.

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