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Como as fake news podem influenciar o futuro de uma nação?

(Commons)

Por @vitorvalencio

Notícias falsas já podem ser consideradas um dos piores males disseminados através da internet. Fake News estão por toda parte. Portais de notícias criados apenas para servir interesses, textos e imagens viralizados através de aplicativos de mensagens, eleições sendo decididas pela influência da informação direcionada… Provas infelizes de que atingimos o auge da era da informação, mas não soubemos lidar com ela. E agora? As fake news podem influenciar o futuro do Brasil?

Recentemente uma pesquisa detalhou como funciona a produção de notícias falsas no mundo. De acordo com os resultados apresentados pela Trend Micro, fake news são muito mais do que postagens sensacionalistas quase inacreditáveis em redes sociais, compartilhadas sem a mínima apuração dos fatos. O cenário já representa uma espécie de indústria, onde a mercadoria principal é a informação, e como manipula-la.

O estudo intituladoThe Fake News Machine: How propagandists abuse the Internet and manipulate the public, fala sobre a como propagandistas abusam da máquina de fake news na internet para manipular o público. Se analisarmos com calma, as motivações e o comércio online existente para a disseminação de notícias falsas e manipulação da opinião pública são alimentadas por uma fórmula bem simples. Uma espécie de triângulo das notícias falsas, composto de três fatores determinantes: motivação, ferramentas e serviços disponíveis e redes sociais, claro!

(Trend Micro)

A cyber propaganda é um reflexo do crescimento das plataformas digitais. Hoje amplamente utilizadas para campanhas políticas. Uma evidência do crescimento da internet sobre meios de comunicação tradicionais, como jornais, televisão e rádio, por exemplo.

O triângulo pode ser entendido da seguinte maneira: As ferramentas e serviços para a manipulação de informações e dados podem ser entendidos como bots e aplicativos disponíveis para a compra de likes e compartilhamento nas plataformas e grupos alvos de determinado tipo de campanha. Para isso, a motivação dos produtores de conteúdo precisa sempre estar camuflada por trás de mensagens motivacionais, como indignação política, revolta com o sistema ou mesmo contra algum grupo específico, contrário àquela ideologia.

Para entendermos melhor esse mecanismo, é preciso o alerta: Por trás de uma campanha de propaganda, sempre haverá um motivo. A razão para que aquele conteúdo tenha sido produzido.

Para o jornalista e educador Eduardo Calbucci, as redes sociais são formadas através de laços de confiança e credibilidade entre os usuários. “Quando vemos uma postagem ou o compartilhamento de algum amigo, tendemos a levar aquela informação mais a sério, muitas vezes até com mais intensidade do que se ela fosse divulgada por algum veículo tradicional de comunicação”, explica o especialista.

Mestre e doutor em linguística, Calbucci argumenta que é nesse excesso de confiança que mora o verdadeiro perigo. Afinal, a propagação de notícias e conteúdos falsos pode gerar consequências graves para a sociedade. “Porém, hoje, mais do que nunca, é necessário dar vários passos para trás antes de tomar alguma informação desse tipo como verdade”, afirma o diretor do Programa Semente, presente em escolas brasileiras contribuindo para o desenvolvimento socioemocional de alunos e educadores. Uma espécie e alfabetização emocional.

Apesar da enorme ameaça, a prevenção conta com fatores relativamente simples: atenção e desconfiança. Ou seja, sempre que nos deparamos com uma notícia muito diferente do comum, é preciso ligar o sinal de alerta. Verifique se aquilo foi informado apenas por um veículo. Pesquise, “dê um Google” se algo estiver estranho… Esse pode ser um sinal de que algo está errado e não deveria ser levado a sério.

Afinal, notícias falsas costumam surgir de sites desconhecidos e de autores anônimos: não possuem expediente, nome de jornalista ou contato. Muitas vezes, os nomes dos sites possuem alguma palavra que remete a algum veículo confiável. Desconfie, sempre! Na dúvida, pergunte para alguém que você julgue ser mais crítico que você. Não há vergonha alguma em pedir ajuda para entender algo.

“Nós temos, sim, que ser críticos em relação ao que lemos nos grandes veículos de comunicação, mas esses sites que propagam notícias falsas são infinitamente mais perigosos para a sociedade”, aponta Calbucci.

Confie, desconfiando…

Pode ser triste pensar dessa maneira, mas muitas vezes, nossos amigos e parentes estão espalhando fake news, mesmo sem saber… “E não é questão de maldade, mas isso altera a percepção das pessoas próximas. Afinal, é a partir das informações recebidas que interpretamos o mundo. Se essas informações estão erradas, as interpretações também podem estar”, pondera Calbucci.

Compartilhá-las é um perigo não apenas no campo das amizades. “Às vezes a timeline também faz parte do currículo do indivíduo. Informações falsas se tornam então um problema que pode afetar o futuro do usuário como profissional”, diz o professor.

Logo, se você está cercado de informações disseminadas por pessoas conhecidas, talvez esteja propenso a acreditar nas mesmas ideologias que elas. É ótimo encontrar pessoas que se identificam com nossas ideologias, mas faz parte do crescimento humano entender a motivação de quem discorda da gente. Quem sabe até mudar de opinião… Afinal, também não há vergonha alguma em ponderar os dados por conta própria e decidir o que você pensa, certo?

Manipulação de dados

Fortes exemplos de manipulação e segmentação de dados foram a eleição presidencial, nos Estados Unidos e a recente saída da Inglaterra da União Europeia. Apenas a ponta do iceberg que escondia os tentáculos da Cambridge Analytica.  Uma empresa britânica de consultoria de dados políticos especializada na criação de estratégias voltadas para campanhas eleitorais, no mundo todo. Independente do seu posicionamento, vencer é o objetivo de uma eleição.

O nome da companhia veio à tona após a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Mas, desde 2014 a empresa já havia trabalhado com outros membros do Partido Republicano, como Bem Carson e o senador Ted Cruz, que teve notável ascensão política nos últimos anos e quase concorreu à presidência no lugar de Trump. O verdadeiro poder do Big Data.

A denúncia partiu justamente do ex-funcionário Cristopher Wylie. Foi ele quem criou o algoritmo, que serve de base para a coleta e análise dos dados de usuários que aceitam os termos e condições de uso de aplicativos, como aqueles que oferecem a possibilidade de login através da conta do Facebook.

Wylie deixou a Cambridge Analytica logo depois das eleições, quando os dados dos usuários da rede social foram utilizados. Nessa semana, o canadense reuniu um grupo de jornalistas europeus para mais uma denúncia bombástica: A Cambridge Analytica também foi responsável por manipular a opinião pública durante o referendo que definiu a saída da Inglaterra da União Européia, o chamado Brexit, por uma margem superior de votos de apenas 2%.

Será que estamos próximos a um cenário parecido aqui no Brasil? Precisamos ter cuidado com o que lemos e com o que compartilhamos nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens. Procurar informações confiáveis na internet é uma tarefa cada vez mais complexa, mas necessária.

Afinal, é o futuro do país, de sua família, seus filhos, que estará em jogo nas próximas eleições. É importante entender também o que está por trás desse tipo de material. “Há todo um mercado de sites dedicados a inventar conteúdos espalhafatosos, sensacionalistas, que remodelam e até invalidam notícias verdadeiras. E esses sites estão interessados em cliques. Ajudar a espalhar as notícias falsas é também sustentar essa prática”, conclui Calbucci.