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O fluxo da água: como evitar o fim dos oceanos e a era da escassez

Em 2019, províncias do Leste da China sofrem com falta de chuvas e prejudica agricultura do país (Foto: Liu Haojun/VCG via Getty Images)
Em 2019, províncias do Leste da China sofrem com falta de chuvas e prejudica agricultura do país (Foto: Liu Haojun/VCG via Getty Images)

Por Nathan Fernandes (@nathanef)

O escritor David Foster Wallace começa seu famoso discurso “Isto é água” narrando o passeio de dois peixes jovens. Na direção contrária, ao passar por eles, um peixe mais velho pisca e os cumprimenta: “Bom dia, rapazes, como está a água?”. Confusos, os peixes continuam nadando, até que um deles se pergunta: “Que diabos é água?”.

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Apesar da parábola de Wallace ser sobre as dificuldades da vida adulta — que ele explica mais à frente —, ela também poderia ser entendida como uma metáfora para a forma como lidamos com a própria questão da água no mundo. No discurso, o escritor afirma: “O ponto imediato da história dos peixes é que as realidades mais óbvias, ubíquas e importantes são frequentemente as mais difíceis de se ver e discutir”.

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Da mesma forma, apesar da água ser parte essencial da vida na Terra, ela é tão garantida para parte das pessoas que até parece invisível, bem como seus problemas de gerenciamento. Não é o caso de quase 25% da população mundial que sofre com crises extremas de escassez, segundo relatório do Instituto de Recursos Mundiais (WRI, na sigla em inglês).

De acordo com a instituição, 17 países, entre eles Catar, Israel, Líbano e Irã, se aproximam cada vez mais do dia em que suas torneiras secarão. “O estresse hídrico é a maior crise sobre a qual ninguém fala. As consequências são visíveis na forma de insegurança alimentar, conflito, migração e instabilidade financeira", afirmou o presidente executivo do WRI, Andrew Steer, no lançamento do documento.

Como lembra Antonio Carlos Zuffo, professor do Departamento de Recursos Hídricos da Unicamp, tanto a quantidade quanto a qualidade dos recursos hídricos de um país dependem do clima ou da disponibilidade de água — normalmente, com anos úmidos sendo sucedidos por anos de seca. “O gerenciamento é feito de acordo com o grau de desenvolvimento dos países, pois muitas soluções necessitam de grande infraestrutura, como construção de reservatórios, sistemas de adução, tratamento de água e esgoto”, explica.

“Os países mais ricos, no geral, possuem uma infraestrutura mais adequada às suas necessidades, pois há maior planejamento e estudos. Mas não são imunes aos efeitos do clima. Por exemplo, a Austrália, apesar de ter uma boa infraestrutura e de continuar empenhada em melhorá-la, ainda sofre com períodos de secas prolongados ou de cheias extremas.”

O dilema dos mares e oceanos

Cerca de dois terços do planeta são cobertos por água. Mas a aparente abundância é rebatida pela dura realidade: 97% dessa água é salgada. Apesar de não poder ser consumida, ainda assim, ela tem um impacto social e econômico. “A gestão dos recursos hídricos inclui a gestão das águas costeiras, que são utilizadas para o lazer e a alimentação, por conta da atividade pesqueira, que traz produtos do mar para as mesas”, afirma Zuffo.

Por isso, é preocupante a informação de que 25 milhões de toneladas de lixo são jogadas nos mares todos os anos, de acordo com uma estimativa da Associação Internacional de Resíduos Sólidos (Iswa), divulgada no 8º Fórum Mundial da Água, realizado em Brasília, em 2018. Só no Brasil, acredita-se que, por ano, cerca de 2 milhões de toneladas de resíduos cheguem aos oceanos — um volume equivalente a 30 estádios do tamanho do Maracanã (RJ), da base até o topo. Além disso, cerca de 80% do volume mundial têm origem nas cidades, onde há má gestão dos resíduos sólidos. Ou seja, é o lixo das casas chegando direto nas águas do mar.

Vista aéreada ilha Thilafushi, nas Maldivas, formada essencialmente de lixo vindo dos resorts no destino paradisíaco (Foto: Andia/Universal Images Group via Getty Images)
Vista aéreada ilha Thilafushi, nas Maldivas, formada essencialmente de lixo vindo dos resorts no destino paradisíaco (Foto: Andia/Universal Images Group via Getty Images)

Segundo a ONU, se nada for feito até 2050, é possível que exista mais plástico do que peixes nos mares (em peso). Lembrando ainda que as atuais partículas de microplástico já presentes no oceano “superam as estrelas de nossa galáxia”, como afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em uma mensagem divulgada no Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho), em 2018. Ou seja, para os peixes de David Foster Wallace, talvez o lixo seja algo livre de dúvidas.

Se 97% da água do planeta é salgada, apenas 3% é composta de água doce. Destas, 2,5% estão congeladas nas geleiras polares, e os aquíferos subterrâneos ficam com grande parte do 0,5% restante. Neste cenário, o Brasil, que é guardião de cerca de 12% da água doce do planeta, torna-se praticamente um paraíso. Mas, se o inferno é feito de escassez e privações, por aqui, não estamos longe disso. Além das regiões semiáridas, grandes cidades como São Paulo, Brasília e Fortaleza sofreram (ou ainda sofrem) racionamentos nesta década.

“A realidade da questão hídrica no país é extremamente heterogênea”, afirma o secretário executivo do Observatório da Governança das Águas (OGA), Angelo José Rodrigues Lima, doutor em Geografia em Análise Ambiental e Dinâmica Territorial e mestre em Ciências de Planejamento Energético. Segundo a Agência Nacional de Água (ANA), a região Norte concentra aproximadamente 80% da quantidade de água disponível no Brasil, mas representa apenas 5% da população. Enquanto isso, as regiões costeiras, que possuem mais de 45% da população têm menos de 3% dos recursos hídricos do país.

“Diante deste quadro, os desafios da gestão das águas incluem: incorporar a heterogeneidade de soluções que são demandadas em um país de escala continental num contexto ainda problemático em termos, por exemplo, de saneamento básico; garantir a efetividade dos mecanismos de fiscalização e governança; e assegurar a tomada de decisão com base em conhecimento técnico-científico”, afirma Lima.

Desde 1997, instituído pela Lei das Águas para cuidar das bacias e mananciais, o Brasil conta com o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), um conjunto de órgão e colegiados, que hoje tem cerca de 235 comitês de bacias, com aproximadamente 11 mil participantes envolvidos diretamente.

“Os legisladores que aprovaram a lei 9433 [Lei das Águas] foram muito felizes, mas o fato de ainda não termos resultados mais práticos para a garantia de água em quantidade e qualidade nas bacias acontece porque ainda não foram dadas todas as condições para que isto aconteça”, acredita Lima, ressaltando a necessidade de avaliações cíclicas. “O monitoramento deve ser feito para avaliar o processo da gestão com indicadores de governança, mas também indicadores de resultados e de impacto.”

Para ajustar questões do tipo, até o fim de 2020, está em construção no Brasil o novo Plano Nacional de Recursos Hídricos (PNRH), que vai planejar o uso de suas águas nacionais entre 2021 e 2040. “O momento de elaboração de um plano nacional é um momento riquíssimo para fortalecer o papel político da participação social e de manter as conquistas da gestão descentralizada e participativa da gestão das águas”, incentiva Lima. “Um avanço que devemos ter é o de entender que água não pode ser vista somente como recurso econômico, ela deve refletir a compreensão de que existem os ecossistemas aquáticos com vida animal e vegetal.”

A participação se dá principalmente através dos Conselhos Nacional e Estadual e dos Comitês de Bacias Hidrográficas, qualquer pessoa pode se envolver no processo (informações pelo e-mail pnrh@mdr.gov.br). “É importante investir no empoderamento da sociedade e no fortalecimento dos Estados para a gestão de recursos hídricos. Não há governança sem isso”, acredita Lima, mostrando que talvez este seja um caminho eficiente para evitar a alienação dos peixes de David Foster Wallace.

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