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Como a escassez de um chip de US$ 1 causou uma crise global

Debby Wu e Takashi Mochizuki
·4 minuto de leitura

(Bloomberg) -- Para entender por que a indústria de semicondutores de US$ 450 bilhões entrou em crise, é preciso começar por uma peça chamada driver de vídeo com custo de US$ 1.

Centenas de diferentes tipos de chips compõem a indústria global de silício, e os mais chamativos da Qualcomm e da Intel podem custar entre US$ 100 cada e US$ 1.000. Esses chips executam computadores poderosos ou smartphones brilhantes. Em contraste, um chip de driver de vídeo é comum: seu único propósito é transmitir instruções básicas para iluminar a tela de um telefone, monitor ou sistema de navegação.

O problema da indústria de chips - e cada vez mais de empresas fora do setor de tecnologia, como montadoras - é que não há drivers de vídeo suficientes para todos. As empresas que os fabricam não conseguem acompanhar o aumento da demanda, por isso, os preços dispararam. Isso contribui para a escassez e aumenta os custos de painéis de cristal líquido, componentes essenciais para a fabricação de televisores e laptops, bem como carros, aviões e refrigeradores de última geração.

“Não tem jeito. Se você tem todo o resto, mas não tem um driver de vídeo, então não pode fabricar seu produto”, diz Stacy Rasgon, que cobre a indústria de semicondutores no Sanford C. Bernstein.

Agora, a escassez de uma variedade de peças aparentemente insignificantes - chips de gerenciamento de energia também estão em falta, por exemplo - se espalha pela economia global. Montadoras como Ford, Nissan e Volkswagen já reduziram a produção, levando a estimativas de mais de US$ 60 bilhões em receita perdida para a indústria este ano.

“Nunca vi nada assim nos últimos 20 anos, desde a fundação de nossa empresa”, disse Jordan Wu, cofundador e CEO da Himax Technologies, uma das maiores fornecedoras de drivers de vídeo.

A crise de chips teve origem em um compreensível erro de cálculo quando a pandemia de coronavírus surgiu no ano passado. Quando a Covid-19 começou a se espalhar da China para o resto do mundo, muitas empresas previram que consumidores reduziriam despesas como precaução para tempos difíceis.

“Eu cortei todas minhas projeções. Estava usando a crise financeira como modelo”, diz Rasgon. “Mas a demanda foi realmente resiliente.”

Presos em casa, consumidores começaram a comprar tecnologia, e continuaram comprando. Compraram computadores melhores e monitores maiores para que pudessem trabalhar remotamente. E deram aos filhos novos laptops para o ensino à distância. Compraram televisores 4K, consoles de jogos, espumadores de leite, fritadeiras elétricas e liquidificadores de imersão para tornar a vida em quarentena mais agradável. A pandemia se transformou em uma Black Friday prolongada.

As montadoras foram surpreendidas. Fecharam as fábricas durante os lockdowns porque ninguém podia ir aos showrooms, o que encolheu a demanda. Disseram aos fornecedores que parassem de enviar componentes, incluindo chips, que são cada vez mais essenciais em carros.

Então, no final do ano passado, a demanda começou a esquentar. As pessoas queriam sair, mas evitavam o transporte público. As montadoras reabriram fábricas e tiveram que “suplicar” a fabricantes de chips como TSMC e Samsung. A resposta? “Final da fila”. Não conseguiam fabricar chips rápido o suficiente para seus clientes ainda leais.

Jordan Wu, da Himax, está no meio da tempestade da indústria de tecnologia. Em uma manhã de março recente, o empresário de 61 anos concordou em se reunir em seu escritório em Taipei para explicar a escassez e por que é tão difícil resolvê-la. Estava tão ansioso que a entrevista foi concedida na mesma manhã em que a Bloomberg News fez o pedido, com dois funcionários presentes e outros dois acompanhando por telefone. Ele usou máscara durante a entrevista.

Wu explicou que não pode aumentar a produção de drivers de vídeo, pressionando ainda mais a força de trabalho. A Himax projeta drivers de vídeo e, em seguida, os fabrica em uma fundição como a TSMC ou United Microelectronics Corp. Seus chips são feitos com o que é artisticamente chamado de tecnologia de “nó maduro”, equipamento que está pelo menos algumas gerações atrás dos processos de ponta. Essas máquinas gravam linhas em silício com uma largura de 16 nanômetros ou mais, em comparação com 5 nanômetros para chips de ponta.

O gargalo é que essas linhas maduras de fabricação de chips estão se esgotando. Wu diz que a pandemia gerou uma demanda tão forte que os parceiros de fabricação não conseguem fazer drivers de vídeo suficientes para todos os painéis usados em computadores, televisores e consoles de jogos, além de todos os novos produtos em que as empresas têm colocado telas, como geladeiras e termômetros inteligentes e sistemas de entretenimento automotivo.

“Construir nova capacidade é muito caro”, diz Wu. Rivais como Novatek Microelectronics, também com sede em Taiwan, enfrentam as mesmas restrições.

As vendas da Himax estão em alta, e o preço da ação triplicou desde novembro.

Mas Wu não está comemorando. Todo o negócio tem como foco dar aos clientes o que desejam, portanto, sua incapacidade de atender os pedidos em um momento tão crítico é frustrante. Ele não espera que a crise, especialmente para componentes automotivos, acabe tão cedo.

“Ainda não alcançamos uma posição em que possamos ver a luz no fim do túnel”, disse Wu.

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