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Criar um filho longe da masculinidade tóxica parece difícil — mas não é impossível

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·6 minuto de leitura
Arte: Tiago Limon
Saiba de que maneira ela afeta as crianças e a melhor forma de combatê-la. Arte: Tiago Limón

Por Rafaela Martuscelli

Educar a geração de crianças que já está entre nós e as que estão por vir pode parecer difícil, principalmente quando se trata de uma educação que foge da masculinidade tóxica — um problema que nos acompanha há tempos e já está enraizado em nosso dia a dia e em nossa sociedade.

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A imagem do "homem de verdade" ainda está pautada em comportamentos violentos, insensíveis, cuja única preocupação é fugir daquilo que possa enfraquecer sua virilidade. Sendo assim, ainda existem pais que criam os seus filhos em uma dinâmica que defende comportamentos e posturas rígidas, fazendo-as acreditar em um modelo de atitude que não será benéfica nem para ela e nem para as pessoas ao seu redor.

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A presença dos pais é valiosa para nossa formação como indivíduo, já que são as primeiras pessoas que entramos em contato em nossas vidas. Segundo a Prof. Susana de Castro, responsável pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do artigo "O papel das escolas no combate às masculinidades tóxicas" confirma que nossas primeiras referências são nossos pais.

"Os pais têm um papel muito importante na nossa constituição enquanto sujeitos. Normalmente, da nossa natureza, buscamos a aprovação paterna e materna, queremos agradá-los, e, inclusive, dependemos desse amor. Isso a psicanálise fala amplamente, como o amor materno e paterno é constitutivo da nossa autoestima, da nossa construção de personalidade".

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Por isso, aquela conversa de que "menino veste azul e menina veste rosa" vai muito além da questão de dar cor ao gênero ou até mesmo de uma opinião que um dos nossos pais. Criados em uma sociedade machista, esse tipo de pensamento já é considerado correto por eles. Dessa forma, ao projetar em seus filhos o que um dia lhes fora ensinado, acabam censurando a liberdade de expressão de suas crianças.

Tomás Dotti, fundador do Papo de Pai, percebeu que carregava algum dos traços da masculinidade tóxica quando sua primeira filha nasceu em 2011. Até o seu nascimento, Tomás tinha o sonho de se tornar diretor do banco até os 40 anos. No entanto, após Maya nascer, Tomás reparou que o que procurava não era dinheiro, poder e mulheres, como achava. Enfim, entendeu que esses pensamentos lhe foram ensinados desde criança e que esses tipos de coisas não eram, de fato, essenciais para ele.

Esse choque foi uma transformação em sua vida. Foi assim que, em 2014, saiu do banco para se dedicar ao Papo de Pai. Desde então, têm se dedicado ao seu desenvolvimento como pai e a educar Maya, de 9 anos, e Helena, sua segunda filha que está com 4 anos, longe desses ideais que Tomás não concorda mais.

Tomás Dotti no programa Papo de Mãe da Cultura. Foto: TV Cultura/Reprodução
Tomás Dotti no programa Papo de Mãe da Cultura. Foto: TV Cultura/Reprodução

"A forma como eu mais trabalho a questão com elas é olhando para mim e tentando melhorar, tentando conter vários indícios de masculinidade tóxica que eu ainda tenho. É muito difícil se libertar disso porque a gente cresceu vendo esses ideais tortos de masculino, e então são coisas que tem um impacto muito grande e é difícil da gente se libertar. É um processo longo, né?", comenta o idealizador do Papo de Pai.

"Eu tento dar o exemplo para elas, e mostrar um exemplo de homem diferente: sensível, carinhoso, educado, atencioso, que admite que está errado, que pede desculpas. Eu faço isso várias vezes com elas, várias vezes mesmo, porque eu erro muito. É o que eu tento fazer. Sei que, por mais que eu fale, que eu dê conselhos, o que vai falar mais alto é o meu exemplo. É nisso que eu trabalho mais", afirma.

É por isso que saber identificar a masculinidade tóxica também é uma das partes mais importantes para combatê-la. E, quando identificada, é uma boa ideia que a situação seja usada como um exemplo e como pauta para uma conversa com seus filhos.

Valeska Zanello, professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UNB), enfatiza a importância dessa conversa: "Os pais têm um papel importante, principalmente aqueles que querem construir uma masculinidade menos adoecidas. É impossível deter o contato com essas masculinidades adoecidas presentes na nossa cultura, mas é possível sim, refletir, tematizar, problematizar. Por isso que a conversa com o filho, mostrar outros lados, outros pontos de vista, isso é muito importante. Obviamente, é preciso tempo e estar com os próprios filhos".

Tomás lembra de um episódio em que ele conseguiu dar um exemplo vivo para as suas filhas. "Outro dia a gente estava brincando no playground e tinha um menininho muito gente boa, muito gente boa mesmo. Acontece de às vezes os meninos serem meio brutos, brincarem de um jeito meio bruto, e aí eu fico sempre de olho com as minhas filhas. Esse menino era super legal e super educado, preocupado com as duas, se podia brincar daquele jeito ou se não podia. Eu achei sensacional. A Maya percebeu e falou 'nossa, que menino legal!'", relembra.

Sobre as brincadeiras, Tomás aprofunda: "As meninas às vezes gostam de brincadeira mais bruta, que é o caso da Maya, mas a Helena não. Então eu tento sempre aproveitar esses acontecimentos e oportunidades para puxar assunto e conversar com elas, para elas estarem sempre atentas a isso e perceberem que ser homem não tem necessariamente nada a ver com ser agressivo, ser forte, ser insensível. É algo que funciona bem, especialmente com a Maya".

Participação do Papo de Pai no projeto #PaiMaisQuePresente do Instagram, em 2019. Da esquerda para a direita: Marcos Piangers, o humorista Ceará e Tomás Dotti. Foto: Acervo pessoal
Participação do Papo de Pai no projeto #PaiMaisQuePresente do Instagram, em 2019. Da esquerda para a direita: Marcos Piangers, o humorista Ceará e Tomás Dotti. Foto: Acervo pessoal

Como forma de integrar as meninas nas atualidades e acontecimentos do mundo, Tomás aproveita certos ganchos para criar discussões e explicá-los para as meninas. "O que eu busco fazer, sempre que possível e de acordo com o momento das minhas filhas, é conversar sobre conhecimentos gerais e atualidades, sobre o que está acontecendo no mundo", conta.

"Quando a [jovem ativista pela causa ambiental] Greta Thunberg estava em alta, eu pude conversar bastante com elas sobre isso, sobre o quanto a figura dela era importante, como a mobilização que ela causou a partir de um gesto pequeno e solitário foi transformador, e que elas têm o poder para fazer qualquer coisa também", completa.

A integração às atualidades e a educação tem um papel importante no combate às masculinidades nocivas. A sociedade deve se tornar cada vez mais instruída para, enfim, criar uma geração que propagará essas formas adoecidas de masculinidade cada vez menos.

"É muito importante que a gente tenha políticas públicas onde se reflita sobre essas questões nas escolas. A escola e a educação é a chance que o estado brasileiro tem de fazer a diferença na vida da nossa sociedade, e no estabelecimento e consolidação de uma democracia", explica Valeska.

**Concepção e Coordenação de Amauri Terto e Diego Iraheta

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