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Como a expulsão do TikTok dos EUA afetaria a indústria de tecnologia da China

Finanças Internacional
·6 minuto de leitura
Foto: David Talukdar/NurPhoto via Getty Images
Foto: David Talukdar/NurPhoto via Getty Images

Com mais de 165 milhões de downloads e um público adolescente fiel, o aplicativo de vídeos curtos TikTok é um raro caso de sucesso de aplicativos chineses nos Estados Unidos. E pode ser o último.

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Em meio a preocupações cada vez maiores com a influência das empresas chinesas e seus vínculos com o governo comunista, especialistas em segurança nacional afirmam que o governo dos Estados Unidos está utilizando todas as ferramentas disponíveis para impedir os investimentos chineses em tecnologia de entrar no país.

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“Acredito que a porta será fechada para novos investimentos chineses", comenta Mario Mancuso, sócio da Kirkland & Ellis, e ex-membro do Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos, ou CFIUS. “As empresas norte-americanas, tanto na comunidade tecnológica quanto na indústria como um todo, estão começando a entender isso”.

O TikTok, conhecido pelos clipes de dança que costumam viralizar, é o mais novo ponto de conflito geopolítico nas relações entre Estados Unidos e China. O governo Trump tem levantado muitas suspeitas em relação ao grande volume de dados coletados na plataforma da empresa chinesa ByteDance e à possibilidade de que eles sejam acessados pelo governo da China.

A empresa negou essas acusações e se esforçou muito para provar sua independência da matriz chinesa, já que o presidente Trump e o secretário de Estado Mike Pompeo ameaçaram tirar o aplicativo do ar.

No começo deste ano, Kevin Mayer, ex-executivo da Disney, foi contratado como CEO do TikTok e diretor de operações da ByteDance. A empresa estaria pensando na possibilidade de estabelecer uma sede mundial fora da China e insiste em afirmar que os dados dos usuários norte-americanos estão armazenados apenas nos servidores dos Estados Unidos, com backup em Singapura.

Política sem limites

Ainda assim, qualquer medida que não seja a separação total do TikTok da matriz chinesa ByteDance tem poucas chances de tranquilizar os legisladores e órgãos reguladores que suspeitam das intenções da empresa. Theresa Payton, ex-chefe de informações da Casa Branca no governo do presidente George W. Bush diz que a desconfiança se estende a qualquer empresa chinesa com planos de investir nos Estados Unidos.

“A China e os Estados Unidos precisam chegar a um acordo sobre a proteção e o respeito aos direitos de propriedade intelectual e à privacidade dos cidadãos e seus dados", comenta Theresa. “Enquanto essa relação internacional não for ajustada, qualquer hardware, software e aplicativo de rede social chinês passará por investigações desse nível porque os limites não são claros”.

O CFIUS passou a ser uma etapa essencial da avaliação das empresas chinesas que buscam se expandir nos Estados Unidos. O comitê, que abrange vários órgãos, tem a função de analisar as implicações que os investimentos estrangeiros em empresas norte-americanas têm sobre a segurança nacional, e com a ampliação de sua esfera de ação no governo Trump, começou a bloquear as transações de forma agressiva. Em 2018, o comitê bloqueou a aquisição do Moneygram pela Ant Financial devido a preocupações com a segurança de dados. No ano passado, o CFIUS obrigou a Beijing Kunlun Tech Co a vender o Grindr, famoso aplicativo de namoro gay.

Embora o CFIUS esteja encarregado de analisar todas as transações estrangeiras, Mancuso, que também atuou como subsecretário de Comércio, Indústria e Segurança dos Estados Unidos, afirma que o comitê coloca tudo o que vem da China em uma "categoria única". Além disso, o comitê tem autonomia suficiente para definir o futuro das empresas, principalmente aquelas que investem em novas tecnologias.

“Nesse caso, não há uma ação judicial que obrigue o governo a comprovar [que a segurança nacional está em risco]. O governo não precisa sequer apontar que há algo errado e poderia forçar a anulação de um negócio mesmo se acreditasse que nenhum dado saiu dos servidores nos Estados Unidos”, explica Mancuso.

O movimento crescente de imposição de restrições a empresas chinesas acompanha a tendência mundial de criar barreiras digitais. Depois das fortes tensões na fronteira entre Índia e China no mês passado, o governo indiano proibiu 59 aplicativos chineses, incluindo o TikTok, afirmando que eles são uma ameaça à soberania e à segurança do país. Essa medida cortou o acesso de 200 milhões de usuários do TikTok, um terço da base mundial do aplicativo. A Índia está entre os cerca de 45 países com exigências de localização de dados, obrigando as empresas de tecnologia a armazenar os dados de usuários indianos em servidores locais.

Samm Sacks, pesquisador sênior do Paul Tsai China Center na Faculdade de Direito de Yale, afirma que as medidas tomadas pelo governo americano para afastar as empresas chinesas aceleram a adoção do protecionismo digital.

“Essas medidas abrem caminho para começar a usar a segurança nacional como motivo para impedir a concorrência no mercado. A Índia e a Europa assumiram posturas firmes a respeito da soberania digital e da concentração de poder do Vale do Silício, indicando que está na hora de repartir esse poder todo", comenta Sacks. “Estamos dando abertura para os outros países tomarem medidas similares contra as empresas de tecnologia dos Estados Unidos”.

Impacto sobre as grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos

As medidas podem atrapalhar as gigantes de tecnologia norte-americanas que enfrentam batalhas de regulamentação nos Estados Unidos e no exterior. Matt Perault, ex-diretor de políticas públicas do Facebook (FB), afirma que a concorrência estrangeira no mercado ajuda a acalmar as preocupações contra a formação de monopólios, manifestadas pelos reguladores nos Estados Unidos e na Europa.

“É importante que empresas de outros países tenham sucesso, pois isso garante que as empresas de tecnologia dos Estados Unidos tenham um estímulo para oferecer melhores produtos com preços mais baixos e continuar inovando”, explica Perault, diretor do Centro de Políticas de Ciência e de Tecnologia da Duke University. “Seria um problema se as opções disponíveis no mercado norte-americano começassem a diminuir apenas por motivos políticos”.

Apesar de tudo, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, mencionou a ameaça do TikTok em várias ocasiões, sugerindo que qualquer medida mais enérgica sobre a plataforma dele permitiria que os aplicativos chineses ganhassem popularidade e passassem a ditar as regras de regulamentação.

“Até pouco tempo atrás, a internet em quase todos os países além da China era dominada por plataformas norte-americanas que valorizavam a liberdade de expressão. Não existe garantia de que esses valores vão prevalecer", disse ele em um discurso na Georgetown University no ano passado, mencionando acusações de censura a manifestantes e ativistas no TikTok. “É essa a internet que queremos?"

Perault diz que a repressão dos Estados Unidos às empresas chinesas e as preocupações dos reguladores com o poder das empresas de tecnologia norte-americanas demonstram a "incoerência das políticas do governo dos Estados Unidos".

“Hoje em dia, os políticos dos Estados Unidos dizem duas coisas que estão em conflito uma com a outra. Por um lado, segundo eles, o domínio cada vez maior das empresas de tecnologia norte-americanas, que não são supervisionadas, é muito problemático", ele explica. “Por outro, eles também dizem que os produtos chineses são motivo de preocupação. Portanto, precisaríamos de uma abordagem mais protecionista para defender as empresas de tecnologia norte-americanas da concorrência das empresas chinesas”.

Akiko Fujita

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