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Cometa interestelar 2I/Borisov pode ser o mais puro já visto; entenda

Daniele Cavalcante
·4 minuto de leitura

Em 2019, um astrônomo amador chamado Gennady Borisov encontrou um novo cometa, que recebeu o nome 2I/Borisov. Não levou mais que algumas semanas para que os pesquisadores descobrissem que o objeto veio de fora do Sistema Solar — portanto, era um visitante interestelar. Agora, uma equipe usou as observações obtidas pelo Very Large Telescope (VLT), do ESO, e descobriu que o cometa é o mais “puro” já visto pela humanidade. Ou seja: o 2I/Borisov nunca havia sido tocado pelos raios de uma estrela até então.

O 2I/Borisov é o segundo objeto interestelar detectado por astrônomos — o primeiro deles é o misterioso 1I/ʻOumuamua. Apesar de ter sido formado em outro canto da galáxia, o cometa não é tão diferente daqueles que existem por aqui, no Sistema Solar — tanto é que demorou algum tempo para que sua natureza interestelar fosse descoberta. Contudo, uma característica que o torna único estava escondida entre os dados dos observatórios até agora: ele é muito primitivo e conserva suas características iniciais até hoje.

Para descobrir essa peculiaridade, a equipe de astrônomos usou uma técnica chamada polarimetria, que permite medir a polarização da luz refletida pelo objeto. Ao determinar a polaridade da luz, ou seja, a orientação dos fótons, os cientistas podem saber mais sobre a física e química do objeto em questão. Nesse caso, foi analisada as propriedades da luz solar polarizada pelo coma, que é o envelope de poeira que rodeia o corpo principal do cometa.

Acontece que essa mesma técnica é utilizada para estudar os cometas do Sistema Solar, então há um bocado de dados de polarimetria desse tipo de objeto nos arquivos de observatórios como o VLT. Assim, a equipe comparou essa biblioteca de dados com as análises do Borisov, e descobriu que ele tem propriedades polarimétricas bem diferentes daquelas encontradas nos cometas do Sistema Solar, com exceção de um velho conhecido: Hale-Bopp.

Hale-Bopp é um cometa que passou pela Terra e se aproximou do Sol no final dos anos 1990, chamando muito a atenção por ser facilmente visível a olho nu. Além disso, ele era um dos cometas mais puros que os astrônomos já haviam visto, ou seja, antes daquela ocasião, o Hale-Bopp provavelmente passou perto do Sol apenas uma vez. Sempre que um cometa se aproxima de uma estrela, algumas de suas propriedades são alteradas, parte de seu gelo derrete e uma série de poeira é deixada para trás, além de ser afetado pelo vento solar e pela radiação.

Mas o Hale-Bopp não havia passado por isso mais do que uma única vez, o que o tornava o mais puro até então. No momento de sua passagem na década de 1990, a composição do cometa ainda era muito semelhante à nuvem de gás e poeira que lhe deu origem, há cerca de 4,5 bilhões de anos. Agora, com o novo estudo, os astrônomos descobriram que o cometa Borisov não só tem propriedades polarimétricas semelhantes às do Hale-Bopp, como é ainda pode ser mais puro que ele.

Imagem obtida no final de 2019, quando o 2I/Borisov passou perto do Sol (Imagem: Reprodução/ESO/O. Hainaut)
Imagem obtida no final de 2019, quando o 2I/Borisov passou perto do Sol (Imagem: Reprodução/ESO/O. Hainaut)

Isso significa que o Borisov provavelmente não passou perto de nenhuma estrela antes de chegar no Sistema Solar, nem mesmo da estrela que ele orbitava quando se formou. Isso faz dele uma verdadeira relíquia, com informações valiosas sobre a nuvem de gás e poeira da qual se formou. Os cientistas também descobriu que o coma do Borisov contém pedrinhas compactas e muito pequenas, grãos com cerca de um milímetro ou mais de tamanho. Além disso, as quantidades relativas de monóxido de carbono e água presentes no cometa mudaram drasticamente à medida que este se aproximou do Sol.

Essas características em conjunto indicam que o Borisov é formado por materiais que se originaram em diferentes lugares do seu sistema planetário. A matéria existente por lá provavelmente se encontrava misturada quando o cometa se formou, desde as áreas mais próximas da estrela até às mais afastadas. É possível que essa mistura de matéria tenha ocorrido por causa de planetas gigantes, cuja gravidade intensa teria agitado o material no sistema, como uma verdadeira sopa na qual os ingredientes são espalhados por toda a parte.

O estudo ainda será publicado na revista Nature Communications e poderá ajudar os astrônomos a compreender melhor os mistérios sobre como os sistemas estelares se formaram, além de como eles eram em seus dias iniciais.

Fonte: Canaltech

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