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Começamos a ver volta de crescimento em 'V' no Brasil, diz Campos Neto

Estevão Taiar
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Presidente do Banco Central prevê perda de ritmo da retomada e descarta risco de repique inflacionário A economia brasileira começa a apresentar recuperação em formato de V, afirmou nesta quinta-feira o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto. Ele disse, no entanto, que "não achamos que vai ser um V completo", com a retomada perdendo força em algum momento. As declarações forma dadas em 'live' promovida pelo Itaú. "De forma geral, estamos otimistas com a recuperação", disse. No mês passado, Campos já havia afirmado que a projeção do BC para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, de queda de 6,4%, estava defasada. A tendência, segundo ele, era que o recuo fosse menor. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, prevê perda de força no ritmo da retomada José Cruz/Agência Brasil "Nas últimas duas semanas, o nosso viés ficou mais claro", disse. Para o presidente do BC, o consumo e a indústria têm mostrado desempenho favorável, enquanto os serviços ainda são fonte de frustração. Segundo o presidente da autoridade monetária, países com crescimento mais lento do crédito vêm apresentando recuperação mais lenta. Naqueles com expansão maior do crédito, grupo em que está o Brasil, a retomada é mais rápida. "[O crédito no Brasil] nos leva a crer que nossa recuperação terá um ângulo melhor", afirmou. "Tivemos não só aumento de volume [de empréstimos], como queda do spread." A atividade econômica, na avaliação do BC, atingiu o seu menor patamar em abril. A tendência é de uma recuperação gradual a partir do terceiro trimestre. Campos também destacou que a "construção civil continua forte". Já o auxílio emergencial pago pelo governo federal deve gerar um consumo represado, possivelmente até dezembro. Mais de uma vez, entretanto, ele alertou para o risco de desequilíbrio das contas públicas. "Muito ainda precisa ser feito, não podemos descuidar do fiscal", disse. Inflação Na avaliação e Campos, as perspectivas recentes menos pessimistas para a economia brasileira neste ano podem ter impactos sobre a inflação. Esses impactos sobre a trajetória de preços, entretanto, tendem a ser menores do que as revisões de projeções para a atividade. "Entendemos que o hiato (medida de ociosidade de economia) é bastante grande. Essas revisões de crescimento, essas assimetrias nas revisões de crescimento, terão um impacto de uma assimetria na mesma direção, mas muito menor, na inflação", disse. Segundo ele, ainda existe um “grau de conforto grande" no quadro inflacionário. "Pode ser até que ela (inflação) reaja bem menos" do que o crescimento, segundo ele. Campos também reforçou que o objetivo do BC é cumprir a meta de inflação. Para o ano que vem, a meta é de 3,75%. "Nós perseguimos a meta", disse. Mundo Assim como a situação brasileira, Campos Neto vê uma recuperação da economia mundial em um primeiro momento parece ter o formato de V, mas com expectativa de suavização" em algum momento. Por enquanto, a China vem "se recuperando mais rápido", de acordo com ele. Segundo Campos, em alguns países desenvolvidos os prêmios de risco já estão em um nível semelhante ao do período pré-pandemia. "Em alguns casos, estão até melhor", disse. O Brasil, por sua vez, "foi especialmente punido" com a saída de fluxo no início da pandemia, principalmente nos investimentos em portfólio. Na avaliação de Campos, as medidas de distanciamento social adotadas ao redor do mundo tiveram pouca efetividade. "Não porque são ruins, mas porque é difícil fazer", afirmou O presidente do BC falou durante uma hora na 'live', período em que foi questionado sobre diversos assuntos. No Brasil, a tendência é que o desemprego ainda piore "um pouco" antes de melhorar. Por outro lado, "o processo de reabertura nas grandes cidades já vem restaurando, mesmo que parcialmente, a confiança dos negócios e dos consumidores". Apesar do crescimento da oferta de crédito no país, a demanda vem crescendo ainda mais. Isso deixa para famílias e empresas "um sentimento de não estar sendo atendido". "A parte do crédito está mais ou menos funcionando", disse. Ele destacou positivamente as medidas adotadas pelo BC até aqui, afirmando, por exemplo, que hoje a autoridade monetária está "totalmente preparada" para atuar no mercado secundário, conforme previsto na PEC de Guerra. Campos também voltou a garantir que o Pix, o sistema de pagamentos instantâneos do BC, estará funcionando em novembro. Câmbio Outro ponto destacado pelo presidente da autoridade monetária foi o projeto que muda a legislação cambial, em tramitação no Congresso. "É um debate que tem que voltar no Legislativo", disse. Campos Neto também reconheceu que a volatilidade do câmbio tem aumentado, mas afirmou que a autoridade monetária ainda não possui uma explicação clara para esse fenômeno. "Não tenho uma resposta muito boa para dar, estamos investigando", disse. Segundo ele, o BC testou quatro hipóteses principais para tentar entender esse aumento da volatilidade, mas nenhuma delas explicou de maneira relevante o movimento: volume maior de trading de contratos menores; efeitos do overhedge dos bancos; maiores atuações feitas por robôs de investimentos, em função dos juros baixos no país; e a possível proximidade do lower bound, um limite efetivo para novos cortes da taxa básica de juros.