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Combate à desigualdade com responsabilidade fiscal deve ser agenda dos liberais para 2022, diz Elena Landau

THAIS CARRANÇA
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O combate à desigualdade, sem perder o foco na responsabilidade fiscal, deve ser o mote da agenda dos liberais para as eleições de 2022, avalia a economista e advogada Elena Landau. Na avaliação da presidente do conselho acadêmico do Livres, movimento político suprapartidário de defesa do liberalismo, se o centro do espectro político não se organizar, as próximas eleições presidenciais deverão ser marcadas novamente pela polarização, com uma esquerda ainda mais radical. Segundo Landau, que participou nesta segunda-feira (26) da série de entrevistas Ao Vivo em Casa, promovida pela Folha de S.Paulo, a subida de candidatos como Guilherme Boulos (PSOL), Martha Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT) nas pesquisas de intenção de voto para as eleições municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro aponta nessa direção. Uma das responsáveis pelo programa de privatizações dos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, a economista avalia que falta vontade ao governo Jair Bolsonaro (sem partido) para levar adiante as vendas de ativos ao setor privado e que, de liberal, a atual gestão não tem nada. "Nós, liberais, temos respostas para dar em 2022", disse Landau. "A primeira é uma resposta à desigualdade, que ficou escancarada na pandemia. Não podemos nos eximir de discutir políticas de redução da desigualdade, que é educação, renda básica, foco na primeira infância, mercado informal de trabalho, ao mesmo tempo, com responsabilidade fiscal." Segundo a economista, a irresponsabilidade fiscal já se mostrou historicamente contraproducente para os mais pobres. "A bolsa empresário da Dilma, que levou o Brasil à recessão, as pedaladas, governos intervencionistas, inflação, taxa de juros alta, nada disso é bom para a classe baixa." Landau reconhece, porém, que a agenda fiscal tem pouco apelo, daí a necessidade de uma pauta do centro que dialogue com uma parcela maior da população. "A agenda fiscal não arrebata corações e mentes, não tem jeito. Em 2022, temos que ter uma agenda que arrebate", disse Landau. "O centro tem essa péssima imagem de que ele não tem paixão, que não tem uma palavra forte. O centro precisa encontrar uma forma de falar de forma apaixonada, sendo responsável ao mesmo tempo." Crítica de primeira hora ao governo Bolsonaro, Landau disse que foi ela mesma muito criticada por ter votado nulo nas últimas eleições presidenciais. "Por que votei nulo em 2018? Eu não iria votar contra o Bolsonaro e eleger uma tendência populista peronista de esquerda, nem votar contra o Lula para eleger um populista de ultradireita. Cheguei numa etapa da vida em que quero votar pelo que acredito, não quero votar contra ninguém", disse. "Em 2022 é a mesma coisa, se o centro não se organizar vamos ver a polarização de novo" afirmou. "E podemos ter uma esquerda ainda mais radical, vemos aqui no Rio Benedita e Martha subindo e Crivella talvez não chegue nem ao segundo turno. Em São Paulo, há o crescimento do Boulos na classe média alta. De novo, aquele voto contra alguma coisa." Segundo Landau, o problema da campanha de Boulos é que, apesar de ele propor uma agenda social forte, não indica de onde virão os recursos para bancá-la. "Ele tem o mesmo vício de 'a gente arranja o dinheiro'. Eu sei que é chato no meio das eleições explicar como vou fazer aquilo que prometi, mas acho que isso precisa ser pensado, pois os estados e municípios estão quebrados, com as folhas de pagamento tomando conta de todo o orçamento." Quanto à gestão Bolsonaro, Landau avalia que que ela está divida pelo embate entre desenvolvimentistas e fiscalistas, mas que de liberal, ela não tem nada. "Como você pode ter uma agenda liberal, se não tem abertura comercial?", questionou. "Não há uma agenda de abertura comercial, pelo contrário. O pequeno avanço que tivemos no acordo com a União Europeia foi jogado fora por causa de idiossincrasias misóginas do Bolsonaro, confirmadas pelo ministro da Economia, e uma política de meio ambiente inadmissível, completamente criminosa." Em agosto de 2019, Bolsonaro e Guedes fizeram comentários grosseiros sobre a esposa do presidente francês Emmanuel Macron, após o país europeu criticar o governo brasileiro devido às queimadas na Amazônia naquele ano. Para Landau, Paulo Guedes demorou a entender que ser chamado de "Posto Ipiranga" por Bolsonaro não era elogio. "Era uma maneira de o Bolsonaro se resguardar, dizer que ele [Guedes] fala o que quiser, quem acreditar, acredita, mas eu faço o que eu quiser. O abraço ao populismo, no fundo, é o que Bolsonaro sempre foi." A economista diz que foi uma surpresa que Guedes, que passou 30 anos criticando os governos anteriores, quando chegou ao poder, não tinha uma agenda. E que ele perdeu a oportunidade de aproveitar o momento herdado da gestão Michel Temer (MDB) e o fato de Bolsonaro ter sido eleito falando abertamente em reformas e privatizações, para dar andamento a essa pauta nos dois primeiros anos de governo. Para Landau, no entanto, a discussão sobre a renda básica abre oportunidade para se voltar a falar de reformas. "A transferência de renda deu certo, mas sabemos que ela não pode continuar com esse valor. Então a discussão sobre a renda básica e o teto de gastos vai forçar a reforma, porque não tem daonde inventar recursos." Segundo a economista, as prioridades aí são uma reforma administrativa com impactos no curto prazo, privatizações e mudanças também do lado da receita, já que o sistema tributário brasileiro é muito regressivo e são muitas as isenções para setores da indústria, que tem lobbies poderosos. Quanto à agenda de privatizações, Landau avalia que são dois os problemas principais: falta governança e uma figura responsável por essa agenda no governo e falta também vontade política. "Falta querer nesse governo", disse. "O ex-secretário Salim Mattar saiu [do governo] dizendo que não conseguia fazer as privatizações por causa de resistência política, mas isso sempre houve, se lembrarmos nos anos 1990. Falta é vontade, essa agenda não é prioritária." "Se quisermos retomar crescimento, precisa ter o mínimo de organização. Por isso sou muito pessimista com o Brasil. Não só porque acho Bolsonaro um presidente muito ruim, mas porque não vejo uma coordenação para isso."