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Com queda na renda e na confiança do consumidor, mercado de crédito permanece em estado de atenção, diz Serasa

LARISSA GARCIA
·4 minuto de leitura

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Um levantamento feito pela Serasa mostra que o ambiente de crédito no Brasil ainda não retornou aos patamares anteriores à crise e permanece em estado de atenção. O estudo mede a saúde do segmento com base em diversos fatores e indica se o momento é propício para tomar e conceder empréstimos. O estudo, chamado de Semáforo do Crédito, foi realizado em parceria com o Instituto de Brasileiro de Economia da FGV (Fundação Getulio Vargas). A análise é feita em pontos e leva em conta variáveis como confiança do consumidor, renda e condições de crédito. Em novembro, as condições de crédito pioraram 6,5% em relação a outubro e a confiança do tomador recuou 14,9%. A renda dos brasileiros caiu 3,7% e o volume de crédito, 9,1%. Com isso, houve piora de 9 pontos no número geral do ambiente de crédito no país, que ficou em 86,5. Em outubro, o indicador apontou 95,5 pontos. Antes da pandemia do novo coronavírus, os valores estavam superiores a 110 pontos. Segundo a pesquisa, o patamar do mês indica que o cenário é desfavorável, ou sinal vermelho (quando o índice cai abaixo de 90 pontos). É considerado sinal amarelo entre 90 e 110 pontos. O ambiente é favorável, ou verde, quando está acima de 110 pontos. Em maio, um dos meses mais críticos da pandemia, o índice chegou a 39,5 pontos e acendeu o sinal vermelho. Em setembro e em outubro, o mercado tinha atingido sinal amarelo, com 95,9 e 95,5, respectivamente, mas voltou a cair em novembro. "O indicador mostra se o ambiente está favorável com base em diversos fatores, como renda, o que inclui capacidade de pagamento das dívidas, juros, prazo, volume de crédito e se o mercado cresce de forma adequada e saudável. Se olharmos para a média móvel dos últimos três meses, no entanto, fica em 92,6, ou sinal amarelo", diz o economista da Serasa, Luiz Rabi. "Faltava um indicador que mostrasse todas as condições do setor, olhando para todas as variáveis, pelo lado do consumidor e das instituições financeiras. Assim, é possível analisar se é o momento adequado para tomar e conceder crédito, auxilia na tomada de decisões", explica Rabi. O resultado de maio de 2020 foi o segundo pior da série histórica, que foi iniciada em outubro de 2010. O pior número foi registrado em outubro de 2015, quando o indicador desceu a 36,9 pontos. "O ambiente de crédito foi bastante afetado pela crise naquela ocasião e chegamos ao vermelho", destaca o economista. Na época, o mercado de crédito só se recuperou em agosto de 2016, quando alcançou 112,2 pontos. "Agora, a expectativa é de recuperação, mas temos forças antagônicas. O maior desafio agora, com o fim do auxílio emergencial, é a recuperação do mercado de trabalho. Como o indicador também olha para a renda, se não houver retorno da geração de emprego dificilmente retornaremos ao sinal verde no ambiente de crédito", analisa. A taxa de desemprego chegou a 14,3% no trimestre encerrado em outubro, último dado divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a maior para o período desde o início da pesquisa, em 2012. Ao todo, eram 14,1 milhões de desempregados, 931 mil a mais do que no trimestre móvel anterior, encerrado em julho. A estatística do IBGE considera desempregada a pessoa que procurou trabalho na semana da pesquisa. Embora a pesquisa tenha mostrado recuperação do mercado de trabalho brasileiro, com mais gente ocupada e retomada das contratações por setores importantes, a piora do desemprego reflete o aumento do número de brasileiros que decidiu ir às ruas em busca de uma vaga após o relaxamento das medidas de isolamento social adotadas no período mais duro da pandemia. O estudo da Serasa analisa apenas condições de crédito para famílias e não leva em conta as condições de empréstimos às empresas. Segundo o especialista, os primeiros meses da pandemia foram os que mais tiveram impacto no indicador. "Grande parte das medidas do governo foram destinadas às empresas. O auxílio emergencial até agora foi um esparadrapo [evitou a inadimplência e alavancou o consumo]", pontua. A inadimplência no crédito caiu durante a pandemia e alcançou os menores níveis da história, segundo o Banco Central. Em novembro, último dado disponível, a rubrica ficou em 2,23%. Antes da crise, os calotes estavam acima de 3%. O pagamento de auxílios do governo e a prorrogação das parcelas dos empréstimos, promovida pelos bancos, e a postergação de impostos evitaram a alta da inadimplência em meio à pandemia. A autoridade monetária, porém, estima que esse índice pode chegar a 4% no primeiro trimestre do próximo ano, próximo ao pico, observado em maio de 2017, de 4,04%. Com o fim do auxílio e o retorno das parcelas, além da piora no mercado de trabalho, os consumidores podem ter dificuldades para honrar seus compromissos. "Por isso, o mercado de trabalho precisa reagir, ou a inadimplência poderá subir. Os setores se recuperam de forma muito heterogênea, alguns chegaram a patamares até superiores ao que estavam antes da crise, mas serviços, por exemplo, ainda não tiveram retomada", diz Rabi.